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Segunda-feira

6 de Julho de 2020

Vereadora questiona morte de mulher após procurar atendimento 10 vezes na UPA de Santos

Telma de Souza (PT) apresentou requerimento para apurar o motivo do 'atendimento precário' e a falta de diagnósticos

Vereadora e presidente da Comissão de Saúde da Câmara Municipal de Santos, Telma de Souza (PT) questionou o atendimento prestado na Unidade de Pronto Atendimento (UPA) Central a uma mulher que morreu no dia 19 de junho após ter procurado atendimento dez vezes no local.

A vereadora apresentou requerimento para apurar o motivo do atendimento precário e a falta de diagnósticos. Ela solicitou o prontuário completo da munícipe, questionou o motivo de não terem realizado exames para diagnosticar a situação da paciente e quais procedimentos foram realizados para apurar os fatos. 

A munícipe havia se recuperado da condição de pessoa em situação de rua e vinha superando a dependência química após se tornar mãe. Ela era atendida por profissionais do Consultório na Rua/ Unidade de Cuidado Porto de Santos e por uma rede formada por profissionais, professores e estudantes da PET Saúde, das universidades Unifesp e Unilus.

O filho da mulher completou um ano no dia anterior ao falecimento. Ela havia conseguido um endereço fixo e um emprego. 

"O Governo Municipal destina o recurso para as Organizações Sociais fazerem a gestão das UPAs, mas como são feitos os procedimentos, o acolhimento, encaminhamentos, o tratamento humanizado? Quem acompanha? Nossa cidade já foi referência internacional em Saúde, e agora as pessoas estão morrendo por negligência, atendimento inadequado, descaso. É inadmissível!", comenta, indignada, ex-prefeita de Santos.

No ano passado, a vereadora solicitou a abertura de uma Comissão Especial de Inquérito (CEI) para investigar a gestão das Organizações Sociais nas UPAs, mas não obteve a quantidade de assinaturas suficientes dos vereadores para abertura da Comissão. 

Resposta

Em nota, a prefeitura de Santos informou que a paciente, natural de São Vicente, era acompanhada desde o final de 2018 pelas redes de Saúde e de Desenvolvimento Social de Santos, com histórico de atendimento pela equipe do Consultório na Rua e de abrigamentos no Albergue Noturno e na Casa das Anas.

Também recebia assistência e acompanhamento nas policlínicas da Vila Nova e Porto, foi encaminhada para consultas com médicos dos Ambulatórios de Especialidades (Ambesp) e realização de tomografias computadorizadas, devido a prévio ferimento por arma de fogo.

No dia 19 de junho, pela manhã, o Serviço de Atendimento Móvel de Urgência (SAMU) atendeu o chamado na residência da paciente, no Centro de Santos, quando ela estava em parada cardiorrespiratória e foi levada à UPA Central em processo de reanimação. Porém, não resistiu e morreu na unidade.

A pasta informa que irá responder o requerimento da vereadora e apurar todos os atendimentos prestados à paciente na UPA, junto à organização social gestora do equipamento. Ressalta que todos os óbitos ocorridos na unidade são analisados pelas comissões de Ética Médica e de Óbitos, ambas registradas no Conselho Regional de Medicina.

Fundação ABC

Também em nota, a Fundação do ABC, terceirizada responsável pela gestão da UPA Central de Santos, sustenta que a unidade "ofereceu toda a assistência disponível na unidade à paciente em questão". Afirma que primeiro atendimento ocorreu em 3 de junho e a paciente retornou à unidade dias 4, 7, 15, 16, 17 e 18. Em todas as ocasiões, a queixa era a mesma: dor de ouvido e dor de cabeça. Contudo, não houve adesão aos tratamentos receitados.

A Fundação garante que "quando a queixa não é passível de resolução imediata, o paciente é encaminhado para serviço especializado". Por essa razão, nas diversas passagens da paciente pela UPA, a paciente foi submetida a exames laboratoriais, raio-X de crânio, otoscopia, passou por avaliação médica e foi medicada conforme as queixas apresentadas.

"Em função da recorrência dos sintomas, foi feita orientação para seguimento ambulatorial na policlínica, para acompanhamento com otorrinolaringologista". A empresa diz ainda que o marido da paciente relatou que eles não seguiram a orientação para o agendamento com o médico especialista.

A nota cita ainda que na ultima consulta (18/06), foi relatado que a paciente não estava tomando os antibióticos receitados. "Nesse mesmo dia, a paciente passou novamente em atendimento médico e apresentou todos os sinais vitais normais, sem febre, sem falta de ar, com pressão arterial e frequências cardíaca e respiratória normais. Foi classificada como em bom estado geral, medicada e teve alta com nova receita de antibióticoterapia".

Já na manhã do dia seguinte (19), a paciente deu entrada na UPA trazida pelo SAMU com quadro de parada cardiorrespiratória iniciado há 20 minutos. A equipe da UPA realizou todos os procedimentos de ressuscitação, mas infelizmente a paciente veio a óbito.

"Todos os exames realizados apresentaram resultados normais, o que indica que o evento que levou a paciente à óbito, provavelmente, não estaria relacionado às queixas de dor de ouvido e de dor de cabeça. Contudo, em função da pandemia de Covid-19, o Serviço de Verificação de Óbito do Estado está suspenso, o que impede que a causa da morte seja devidamente esclarecida", finaliza o comunicado.

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