Selton Mello e o deputado Rubens Paiva (Divulgação/Ainda Estou Aqui) O filme brasileiro Ainda Estou Aqui, dirigido por Walter Salles, foi indicado, nesta quinta-feira (23), ao Oscar 2025 nas categorias de Melhor Filme, Melhor Filme Internacional e Melhor Atriz. A trama é adaptada do livro homônimo de Marcelo Rubens Paiva sobre sua família. O pai do autor, Rubens Paiva, nascido em Santos, no litoral de São Paulo, foi um político brasileiro sequestrado e morto durante a ditadura militar no Brasil, em 1971, como contado na trama. Natural de Santos, o engenheiro civil foi eleito deputado em 1962, mas sua trajetória política foi breve: tomou posse do cargo em fevereiro de 1963, sendo cassado em abril de 1964, durante o golpe que instaurou a ditadura militar no Brasil. Sete anos depois, em 1971, foi preso, torturado e morto por militares no Destacamento de Operações de Informações Centro de Operações de Defesa Interna (Doi-Codi), no Rio de Janeiro. Até hoje, o corpo de Rubens Paiva permanece desaparecido. O sumiço de seu marido desencadeou a busca por respostas de Eunice Paiva, que também foi detida por 12 dias. Logo após o desaparecimento de Rubens, a mãe de Marcelo Rubens Paiva, autor do livro “Ainda Estou Aqui”, mudou-se para Santos com os filhos, contando com o apoio da família do companheiro desaparecido. "No meio do ano de 1971, fomos morar na casa do meu avô Paiva, em Santos, no José Menino, canal 1", escreve Marcelo em seu livro Ainda Estou Aqui (p. 354). Em busca de respostas, Eunice se mudou para Santos, onde estudou para ingressar na faculdade de Direito, conquistando o primeiro lugar no vestibular, o que marcou o início de sua carreira. Ao longo dos anos, se destacou como advogada em causas sociais e políticas, tornando-se uma das raras especialistas em direito indígena no Brasil. Além disso, tornou-se legalmente, viúva, o que foi uma luta à parte. Cidade engajada Em entrevista para A Tribuna, o Mestre em História Social pela Universidade de São Paulo (USP), Arnaldo Ferreira explica que desde a campanha pela abolição à escravatura na década de 1880, Santos se destacava pelo seu engajamento nas causas sociais e humanitárias, mas na década de 1960, durante a ditadura militar, a cidade foi alvo de repressão. Movimentos trabalhistas e greves dos estivadores do Porto de Santos foram vistos como uma ameaça comunista pelos militares. Em 1964, os conservadores assumiram o controle de Santos e começaram a perseguir sindicalistas. Em abril daquele ano, o navio Raul Soares foi transformado em prisão, onde sindicalistas foram torturados. Além disso, em junho de 1964, o prefeito José Gomes foi cassado e substituído por um capitão da marinha. A cidade passou a ser governada por militares e, em 1969, teve sua autonomia perdida por 14 anos, com cinco desses anos sob intervenção direta de um general. Santos foi declarada "Zona de Segurança Nacional" e seus cidadãos ficaram proibidos de eleger prefeitos até 1985.