'Ser prefeito é ser funcionário público, não vender ilusões', diz prefeito eleito de Santos

Rogério Santos, que venceu a votação no último domingo com 101.266 votos, ou 50,58% dos votos válidos, contou seus principais planos para a cidade durante seu mandato

54 anos, santista e com cidadania portuguesa, dentista, eleito domingo passado, no primeiro turno, com 101.266 votos, ou 50,58% dos votos válidos, Rogério Santos tem planos. E eles incluem “continuar o que está bom e deu certo, e melhorar o que precisa ser melhorado”. 

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Em sua primeira entrevista a A Tribuna, o prefeito eleito fala em cumprir a promessa de focar em Educação, geração de emprego e revitalização da área central, entre outras 400 propostas de seu plano de governo. 

Mantida no cargo a atual secretária de Educação, Cristina Barletta, ele diz que dará prioridade à reposição dos quadros de professores e outros cargos da área. Para a região central, o carro-chefe, diz, será a mobilidade que a área ganhará com a segunda fase do VLT e os incentivos para quem quiser morar na região, como isenção de IPTU por cinco anos. Seus 50,5% de votos representam, para ele, um desafio: “Quero ir atrás dos outros 50%”.

O senhor foi eleito com 50,5% dos votos válidos, metade dos eleitores o escolheu. Era um resultado esperado ou o surpreendeu? Qual era sua expectativa?

Foi uma grata surpresa. A gente sabia que uma eleição com 16 candidatos seria difícil, e eu não era um nome conhecido. Vim como o “candidato do prefeito”, claro, um prefeito com quase 80% de aprovação, mas eu era desconhecido. Os meus votos todos se devem ao governo atual, do qual eu fiz parte. Era o candidato da situação.

Ser o candidato da situação não basta em um governo com alto índice de aprovação?

Para o santista, não. Andando pela cidade durante a campanha, sempre era a mesma pergunta: “você vai continuar o que o Paulo fez?” Então, o santista quer ouvir isso do candidato, quer ter a certeza. Eu vou continuar esse modelo de governo. Minha proposta tem mais de 400 itens no plano de governo e boa parte foi construída com os segmentos da educação, saúde, comércio, porto. E muitas dessas propostas já estão sendo executadas ou deixando prontas.

Quais?

Eu posso citar as mais de 2.600 unidades habitacionais que o atual governo tem convênio com o Estado e está criando as parcerias com a União, por conta das áreas da União. Posso citar ainda o Mercado Municipal, que já tem o projeto e eu vou executá-lo. Tem as parcerias para habitação na área central, que já estão prontas, e eu vou fazer também. As obras de drenagem, que já vêm de longo processo, temos financiamento sendo deixado. Também vou executar. Nosso plano municipal de educação, feito pelos educadores da Cidade, será minha cartilha de governo. Essa transição será do que está bom e será continuado, mas de novidades e inovações.

Em uma das últimas entrevistas que o atual prefeito deu a A Tribuna, ele citou dois grandes desafios para o próximo prefeito: geração de emprego e renda, e revitalizar e reocupar o Centro. Como o senhor pretende lidar com essas questões?

Prioridades são as frentes de trabalho. O Brasil investe pouco em infraestrutura, mas Santos investiu bastante nos últimos anos. As obras na entrada da Cidade, nos morros, para além de representar um avanço, geraram mais de 1.200 empregos diretos. Vamos continuar focados em investir em infraestrutura, principalmente na Zona Noroeste, para resolver os alagamentos, nas estações de bombeamento, nas comportas, nas escadarias hidráulicas. Além de dar qualidade à Cidade, infraestrutura gera emprego.

Mas essas obras são temporárias. Elas começam e terminam. E como gerar empregos efetivos e duradouros?

Hoje, quando a gente fala em obra na entrada da cidade, fala na ponte ligando o São Manoel ao Bom Retiro, e estamos falando em maior acesso a uma área retroportuária, que pode atrair novas empresas e gerar mais empregos. Quando falo que ali no Prainha vamos construir 800 unidades habitacionais, com atração de empresas e serviços para atender a essa demanda. Investir em infraestrutura é um processo contínuo de geração de emprego. Com as obras que estamos fazendo na Zona Noroeste, ela já se tornou uma das mais procuradas pelo setor imobiliário. 

Pensa em alterar a Lei de Uso e Ocupação do Solo?

Sim, teremos que mexer novamente na lei, criar na Alemoa, tanto do lado direito como do esquerdo, condomínios industriais. Nas áreas retroportuárias que temos na Perimetral, é importante trazermos empresas que fazem manutenção de navios, as que produzem tintas especiais, por exemplo, e que não são fabricadas em Santos. Então, junto com o Parque Tecnológi-co, universidades, Sebrae, vamos ocupar essa área retroportuária, gerando empregos. Nosso parque tecnológico, aliás, será fundamental. Terá como foco as start ups, gastronomia, artesanato, o empreendedorismo, enfim. 

O Turismo continua como o pilar forte da Cidade?

Eu entendo que sim. A grande oportunidade de Santos. É o quinto destino mais procurado por brasileiros no Google, perdendo para Londres, Rio de Janeiro, Salvador e São Paulo. Este ano não teremos fogos na praia, mas no próximo, faremos uma grande festa não só na praia, mas nos morros. As condições nos favorecem também no ecoturismo, com inúmeras trilhas. Agora, com o novo centro de convenções, a maior empresa de eventos assumiu a gestão, a GL Events, que está presente no mundo inteiro.

Pretende dar algum benefício fiscal a empresas que quiserem se instalar aqui?

Na área retroportuária, podemos ter contrapartidas, desde que o setor público cumpra sua parte. Precisamos de geração de empregos, então, vamos atrair empresas e conversar. O Porto, nos últimos anos, aumentou em 333% sua capacidade de movimentação. Tinha 35 mil trabalhadores portuários, e hoje não chega a 10 mil. É normal, faz parte, é a modernização, mas temos trabalhadores portuários avulsos.

Na campanha, muito se falou sobre as palafitas do dique. O que o seu governo fará objetivamente?

Não existem milagres. Ser prefeito é ser funcionário público, não vender ilusões. Não há mágica. O atual governo fez 885 unidades habitacionais para pessoas que moravam em palafitas. Na área da Vila Gilda há uma nova realidade, a Av. Beira Rio. Retiramos as palafitas que bloqueavam a drenagem na Vila Alemoa. Enquanto a gente não consegue resolver o problema habitacional, vamos trabalhar para as pessoas que moram nas palafitas, para que tenham dignidade. Fizemos um Bom Prato, um centro da juventude. Vamos fazer a primeira policlínica do Dique da Vila Gilda.

E dinheiro para tudo isso?

Pegamos a maior crise em 2014/15, no meio do governo, atrasando obras que estavam em andamento. Mas não ficamos atrás da mesa reclamando. Fomos inovadores, apostando na eficiência administrativa, redução de 30% nos alugueis da Prefeitura, redução de contratações precárias. Tivemos 35 contrapartidas para o município de novas empresas que vieram para Santos. Foram investimentos altos em obras. As empresas que vêm e ganham dinheiro precisam dar suas contrapartidas à Cidade. Além disso, fizemos parcerias com governos estadual e federal. Essa foi a conduta do atual governo e é a que eu vou manter.

Foi amplamente noticiada a presença do crime organizado em alguns locais da Cidade e da região. Essa imagem ligada a Santos o preocupa?

Preocupa como santista e como brasileiro. O crime no Brasil é baseado na miséria, nas drogas e na falta de oportunidades. Segurança envolve as três esferas de governo: municipal, estadual e federal. Segurança é educação, acesso a emprego, cesta básica, é um conjunto de políticas. Eu vou ampliar a ronda da Guarda Municipal junto com a PM, acesso à fibra ótica e internet. Quero ampliar as vilas criativas e escolas em tempo integral. Tudo isso traz segurança. 

O que o senhor planeja para a área do Valongo?

Eu quero um Porto-Valongo diferente. Quero todo o receptivo dos navios dentro da cidade. As pessoas tenham o atracadouro no Valongo, mas por meio de elevadores e esteiras rolantes, elas as pessoas por cima da linha do trem e o desembarque seja feito em área do município. Nesse local vai ter restaurante, salões de embarque e conforto. Se o embarque for demorar duas, três horas, ele pode sair e ir conhecer o centro, comer nos restaurantes, visitar a Bolsa, visitar o comércio. Os armazéns ficam para a bagagem.

O senhor vai se desligar do cargo de dentista na Prefeitura de Cubatão?

Não. A lei me faculta. Eu nunca recebi dois salários. Eu fui cedido de Cubatão para a Assembleia Legislativa. A partir desse momento, eu não recebi mais salário de Cubatão, só pela Assembleias. Mas sempre contribuindo com a caixa de pecúlio de Cubatão, porque vou me aposentar por Cubatão. Fiquei 20 anos como dentista concursado de Cubatão, até 2008, depois fui para a Assembleia. Trabalhei lá em todos os bairros. Todos os servidores públicos têm direito a licença prêmio. A cada cinco anos, você pode tirar três meses de licença. Então, eu tinha 12 meses para gozar, e gozei apenas três, este ano. É um direito que tenho. Mas nunca recebi dois salários, como chegaram a dizer. Ser honesto não é mérito, é obrigação.

O senhor considera o santista muito crítico?

As pessoas têm uma expectativa. Quando eu entrei no governo como secretário, as pessoas falavam “Santos é uma cidade pronta”. Não existe cidade pronta. O santista é muito politizado, é muito crítico. Veja só: o prefeito tem 80% de aprovação, mas só 50% dos eleitores votaram em mim. Santos é o berço da política no Brasil, terra dos anarquistas, terra de José Bonifácio. Santos é o berço da democracia no Brasil.

Para o funcionalismo, o que está previsto?

Prioridade número um é Educação. Preciso repor os quadros de professores. Para melhorar a Educação, preciso fixar o professor na escola e, para isso, preciso contratar mais professores. Ainda não tenho números, mas na transição de governo devo ter isso mais detalhado. Vamos manter a atual secretária, Cristina Barletta. Todos os outros servidores também serão valorizados.

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