Messias aprendeu o trabalho na sapataria com o pai; Adilson diz que gosta de criar calçados; Sônia (acima) assumiu o comércio do marido (Vanessa Rodrigues, Alexsander Ferraz e Sílvio Luiz/AT) Sabe aquele sapato, bota ou tênis desgastado e por vezes até mesmo esquecido no fundo do armário? Talvez ainda haja uma ou mais soluções para ele, graças aos sapateiros. Esses profissionais mantêm viva uma tradição de décadas em Santos, com lojas prontas para consertar e fabricar calçados. Um ofício antigo, necessário e, geralmente, aprendido em família. Clique aqui para seguir agora o canal de A Tribuna no WhatsApp! Esse é o caso de Manoel Messias, que aprendeu a trabalhar com o pai, quando tinha 12 anos, e segue até hoje na profissão. Já são 34 anos na loja que abriu no Boqueirão. Nessas três décadas, ele observa que houve uma piora na qualidade dos calçados. Segundo ele, os sapatos eram fabricados em couro antigamente. Hoje, por sua vez, o material é sintético, afetando a qualidade. “Uma boa parte deles não recupera, não tem conserto. Principalmente aqueles que começam a descascar”, afirma Messias. Ainda assim, segundo ele, não são todos os sapatos de couro sintético que acabam condenados ao lixo. E mesmo que boa parte não tenha recuperação, isso também não quer dizer que falte serviço aos sapateiros. Muito pelo contrário, há trabalho de sobra e a maioria da clientela, cerca de 80%, é feminina. “Geralmente, mulher prefere calçados de boas marcas, bons modelos que custam um pouco a mais, então elas conservam”, explica. Mão de obra Também no Boqueirão, o luto pelo marido falecido na pandemia logo teve que virar verbo conjugado na primeira pessoa do presente do indicativo para a sapateira Sônia da Silva Vasconcelo. Depois da perda, quem assumiu as funções mais pesadas do comércio que o casal mantinha desde 2000 foi ela, que ainda dá conta de atender os clientes que chegam no balcão à procura do serviço. Aliás, trabalho não falta: o que rareia é mão de obra. “Realmente, isso é um problema: não tem sapateiro na praça disponível para o trabalho. Não temos mais escolas que ensinam. Não sei se existe uma falta de interesse, só sei que a mão de obra é péssima”, diz Sônia. Ela explica que, geralmente, os sapateiros são donos dos próprios negócios. Por isso, sente dificuldade em contratar um profissional para fazer os serviços mais pesados, antes direcionados ao marido. Ela ressalta, ainda, que é uma profissão predominantemente masculina. “Tem muita mulher atendente, mas que põe a mão na massa mesmo, aqui em Santos, são poucas. Mas torço para que venham mais mulheres, porque é uma profissão muito gostosa”. Também é arte A demanda pelo serviço é tanta que até falta tempo para o sapateiro Adilson José Pereira Cândido, que atende há 32 anos na Vila Mathias, se dedicar à parte do trabalho que ele mais gosta: criar calçados, e não apenas consertá-los. Ele revela que a maioria dos calçados que chegam para ele é formada por tênis utilizados para praticar esportes como corrida e ciclismo. “Eu ainda faço uma coisinha ou outra, mas muito pouco mesmo. E o que mais pega é isso: com a falta de mão de obra, a gente deixa de mostrar a nossa arte. Porque o conserto não vai parar nunca: enquanto tiver gente calçando sapato, haverá serviço”. Adilson conta que ama criar e produzir novos sapatos. Geralmente, ele confecciona sandálias artesanais, principalmente de modelo grego, além de bolsas e cintos. O processo criativo começa no papel: o sapateiro desenha os calçados, passa para a forma e depois vem a modelagem. É na criação que se mantém vivo e forte o ofício que aprendeu por meio da tradição familiar. Ele aprendeu com o pai, que por sua vez aprendeu com o avô. Hoje, ele é quem tenta, sempre que possível, criar uma arte única, com personalidade. “São modelos diferentes, que não se acham nas vitrines da vida”.