Lúcio Flavo Ribeiro leciona Matemática. São tantos anos de trabalho que já deu aula, até, para cunhados, filhos e a própria mulher (Vanessa Rodrigues/AT) “Rapazes, meninas, atenção”: hoje é comemorado o Dia do Professor. Essa simples frase já foi ouvida por alunos de seguidas gerações nos últimos 37 anos. Esse é o tempo de carreira do professor Lúcio Flavo Amado Ribeiro, de 57 anos: aos 20, pela primeira vez, ele entrou na sala de aula no papel de quem ensina e, até hoje, não saiu de lá. Nem pretende. “Não tenho a pretensão de parar porque, querendo ou não, você rejuvenesce a cada dia”, diz. “São quase 40 anos que eu acordo tranquilo porque eu sei que aquilo que eu vou fazer eu faço com prazer.” Clique aqui para seguir agora o canal de A Tribuna no WhatsApp! O tempo passa e transforma. Os alunos viraram pais de novos alunos, colegas de trabalho, amigos, melhores amigos e, até, família. “O engraçado é que eles vêm assim: ‘Você lembra do meu pai e da minha mãe?’. Eu pergunto quem é, falo para mostrar a foto. ‘Puxa, não mudou nada. Seu pai engordou’. A gente brinca, também”, revela. O dono da lousa organizada inspirou a estudante que também virou professora, em Santos, e também deu aula para os filhos, os cunhados e, até, para a própria esposa — que foi fazer cursinho após conhecê-lo. Tal qual um artista, sair de casa e não ser reconhecido pelos ex-alunos perdidos por Santos e pelo mundo é muito difícil. Do restaurante perto de casa a um cruzeiro na Grécia, é difícil não ouvir alguém chamando: “Professor!”. Um ‘Publicitário’ A matéria que Lúcio ensina está longe de ser das mais queridas. Tem gente que até treme ao pensar em Matemática, o que torna a tarefa de ensiná-la ainda mais desafiadora. “Eu falo que sou mais que um professor: sou um publicitário. Porque eu vendo uma disciplina que ninguém quer comprar”, brinca. Sua missão é, segundo ele, “fazer das tripas coração” para que o estudante saia da escola sabendo o mínimo da matéria. Não significa apenas saber lidar com os números. “Matemática não é conta. É desenvolver o raciocínio, tentar fazer com que o aluno pense de tal forma que aquilo ajude, de alguma maneira, a entender o mundo”, afirma Lúcio. “Quem faz conta é computador, celular, máquina calculadora. Isso é tão claro para mim. A matemática é filha da filosofia”, alega. Além de “vender” a disciplina, Lúcio também precisa conquistar a atenção dos alunos em tempos de informações disponíveis o tempo todo na palma da mão. “É muito mais interessante um celular que tem vídeos e música do que uma pessoa estática ali. Por mais que eu dance, cante, faça alguma coisa, é difícil. Nós temos que fazer milagre para prender a atenção dessa criançada.” Conhecimento e empatia É inegável que, em redes sociais, a informação é abundante. Mas, ressalva Lúcio, “informação não é conhecimento. Conhecimento é aquilo que vai entrar na sua cabeça, e você vai conseguir raciocinar e tirar conclusões a respeito daquilo”, explica. A transformação da informação em conhecimento é a missão do professor, e Lúcio admite que, embora seja preciso, é difícil pedir que os alunos abandonem o celular após passarem tanto tempo dependentes das telas, como ocorreu no período da pandemia de covid-19. E não basta ver o estudante apenas na sala de aula. É preciso entender o contexto dos alunos fora da escola para entender as pessoas que estão ali — às vezes, desatentas, angustiadas, ansiosas ou, até mesmo, dormindo enquanto o professor faz “malabarismos” para ensinar. É interessante você tentar conhecer o histórico do aluno para ver os problemas que estão acontecendo e que ele possa tentar tomar uma boa atitude”, afirma. É um trabalho árduo que extrapola os muros da escola, mas para Lúcio, vale a pena.