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Sábado

18 de Janeiro de 2020

Obra artística, Peixe na entrada de Santos passará por restauração

Escultura foi criada pelo artista Ricardo Campos Mota em dezembro de 1999

Santos, 8 de dezembro de 1999. Havia meses que a presença de Ricardo Campos Mota era constante naquele ponto agitado da entrada de Santos. Até a terça-feira seguinte, dia 15, a intenção dele era permanecer cumprindo aquela espécie de rito, até que sua cria pudesse finalmente ganhar vida própria e conquistar seu espaço no coração dos santistas. Rica, como o artista plástico era chamado pelos amigos, olhava abstraído na direção onde se erguia, imponente, a resistente estrutura de aço que nasceu da fragilidade do papel, recortado em tiras na gênese de sua criação.

Obra simples na estética, porém sublime na genialidade da leitura, foi composta em vigas tubulares traçadas em duas linhas curvas unidas por uma junção no topo, na forma de um arco inverso, imitando a boca aberta de um peixe. Sim, um peixe, símbolo memorável de uma terra que foi palco de tantas histórias e protagonismos.

Pensativo, Rica abriu seu caderninho de anotações, onde rabiscou algumas linhas reflexivas. Elucubrava o artista sobre o caminho percorrido até ali, iniciado havia cinco anos, em 1994, quando regressava à terra natal após uma enriquecedora experiência artística no norte da Itália (Turim).

A concepção

Quando Mota desembarcou no Brasil, após seis anos na região dos Alpes Europeus, seu maior desejo era retomar o trabalho escultórico na Cidade. Em 1988, ele havia deixado uma importante marca na urbe santista, o monumento Caravela, dedicado à comunidade portuguesa e instalado nas imediações do Aquário Municipal.

Mais experiente e dominando técnicas novas, principalmente com metais, Rica aspirava impactar as paisagens da Cidade com suas ideias e concepções. O artista, contudo, vivia um momento de “crise existencial”, como confessara algum tempo depois. Porém, tal estado de espírito não o arremessou aos braços da melancolia, muito pelo contrário. Se tornara um combustível potente que o impulsionou à criação de obras que, ao longo dos anos, se solidificaram na paisagem de Santos.

O Peixe nasceu da proposta de criar uma identidade visual que traduzisse o DNA da cidade litorânea, simbolizando subliminarmente sua primeira fonte de vida. Munido de estilete e uma chapa de papelão, Rica recortou as linhas rabiscadas de sua idealização, extraindo dela a genialidade de uma leitura simples.

Certo de sua proposta, iniciou, então, um périplo em busca de quem acreditasse no projeto e pudesse materializa-lo. Como o objetivo era basicamente fazer uso de aço na composição da obra, bateu na porta da Companhia Siderúrgica Paulista (Cosipa), uma das maiores produtoras do metal. Rica apresentou o plano à diretoria da empresa (já privatizada e controlada pela Usiminas) que, encantada, garantiu a matéria-prima.

Mas ainda faltavam os recursos acessórios, obtidos a custo. Somaram-se à empreitada, ao final, o Grupo Tribuna, a Dersa (administradora da Via Anchieta à época), a Universidade de São Paulo (USP) e a Associação de Engenheiros e Arquitetos de Santos, entre outros. A ideia era erguê-lo perto da junção das avenidas Nossa Senhora de Fátima e Martins Fontes, nas proximidades do lugar que os santistas chamavam de Marilu (por conta de um posto de gasolina com esse nome que ali existiu).

Porém, a Dersa ofereceu uma área 700 metros antes deste ponto, na área central da Via Anchieta, entre os bairros Chico de Paula e Alemoa. Rica ficou entusiasmado. Dali era possível enxergar sua futura obra de longe, a pelo menos 1,5 km de distância. Tal escolha foi acertada, pois ela tornou o Peixe uma referência aos santistas na volta para casa. Até hoje, muitos dizem que quando veem o monumento, sentem-se seguros e acolhidos à terra natal.

Mãos à obra

Rica inspecionou pessoalmente a forja das 21 tubulações de aço Cosarcor 400 que comporiam as duas hastes, além da boca, do monumento. O material utilizado apresentava coloração marrom escura, tal qual um grão de café torrado. Isso se dá por conta da composição química das chapas, com cromo e cobre. O aço patinado (que se assemelha a uma peça enferrujada) foi a opção do artista em função da necessidade de resistir ao tráfego intenso local e à corrosão natural provocada pela atmosfera peculiar da Baixada Santista.

O Peixe seria, enfim, montado como um quebra-cabeças gigante. Todo o processo de implantação, que durou pouco mais de um ano, envolveu cerca de 100 trabalhadores e maquinário pesado, como os dois guindastes utilizados para elevar as peças de aço. O monumento, enfim, foi inaugurado em 15 de dezembro de 1999. Para torna-lo ainda mais destacado, os patrocinadores mandaram instalar um sistema de iluminação especial, contendo 61 lâmpadas de vapor metálico, de 70 watts cada, que mantinha iluminado o monumento em toda a sua extensão. E, como o formato das lâmpadas era arredondado, a maior concentração de luz incidia sobre cada parte focada da escultura, permitindo que ela fosse avistada a quilômetros de distância.

Os altos e baixos de um símbolo

Assim como acontece praticamente com todas as obras de arte urbanas do País, o Peixe também sofreu com o descaso daqueles quem deveriam cuidar de sua manutenção. A Cosipa mudaria definitivamente sua marca para Usiminas, a Dersa daria lugar à Ecovias e a Prefeitura de Santos não assumiria a tarefa de cuidar da obra. O abandono resultou na deterioração da peça e Rica foi à público denunciar tal situação.

Em 2007, com recursos da Lei de Incentivo Fiscal Federal (Lei Rouanet), o Peixe teve nova oportunidade. Um amplo programa de recuperação da estrutura foi viabilizado, contemplando hidrojateamento, pintura e reposição de novo sistema de iluminação (o original havia sido furtado), com apoio da Philips, que lá instalou 15 nichos contendo 19 projetores com lâmpadas Mastercolor CDM-R de 70 watts. Infelizmente, o resultado cênico do Peixe não sobreviveu por muito tempo. Acabou novamente vandalizado. Em 2015, junto com os primeiros passos do programa de revitalização do sistema viário da entrada de Santos, a obra de Rica, tornada logomarca do projeto, voltou à pauta de discussão. Primeiramente se pensou em tira-la do local, arrastando-a para mais perto da Avenida Nossa Senhora de Fátima. Porém, em razão de questões técnicas, a Ecovias decidiu por mantê-la no mesmo lugar.

O que vem por aí

Agora, a ideia é restaurar novamente o Peixe, dotando-o de novo sistema de iluminação e câmeras de monitoramento. Quem sabe, desta vez, a obra de arte de Ricardo Campos Mota ganhe o sossego que merece para cumprir seu papel de confortar o coração dos santistas quando estiverem voltando para casa.

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