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Domingo

16 de Junho de 2019

Mães relatam violência obstétrica em maternidades de Santos: 'Amarraram meus braços'

Agressões físicas e uso de técnicas para 'agilizar' nascimentos estão entre procedimentos recriminados pela Organização Mundial da Saúde

Após nove meses, o que é para ser um momento feliz pode se tornar um pesadelo para gestantes. Uso de soro por indução, procedimentos para acelerar o nascimento sem necessidade e até mesmo ameaças e chacotas podem ser consideradas formas de violência obstétrica. A estimativa da Organização Mundial da Saúde (OMS) é de que uma a cada quatro mulheres tenham sido vítimas da prática. No Mês das Mães, A Tribuna On-line conversou com mulheres que passaram pela situação em maternidades da região.

A experiência de ganhar o segundo filho foi diferente do que a esperada pela artesã Rebecca Reych, de 24 anos. Internada no último dia 21 de abril, na maternidade do Hospital Guilherme Álvaro, ela enfrentou problemas enquanto ainda estava em observação. Ao seu lado, estava uma mulher que perdeu seu filho ainda na barriga, após dar entrada com perda do líquido amniótico. “Minha gravidez era de alto risco, porque tenho ansiedade e depressão. Nessa situação, internada há 24 horas, entrei em pânico”, lembra.

O ambiente ‘pesado’ contribuiu para que o parto fosse ainda mais complicado. Durante o período de observação, a jovem passou por dois exames de toque, para avaliar a dilatação. Foi na segunda tentativa que Rebecca observou que a violência estava começando. Enquanto preparavam a sala de parto, uma segunda médica entrou para realizar o procedimento, e a mãe pediu para que aguardasse a contração passar.

“Ela me empurrou na cama e já foi enfiando a mão em mim. Gritei muito alto, pois estava no meio de uma contração. Todos da sala [pacientes, acompanhantes e o marido] gritaram com a médica, chamando-a de louca. Ela tirou a mão, rindo, e saiu da sala”, relata Rebecca.

Artesã foi vítima de violência obstétrica em seu segundo parto (Foto: Rebecca Reych/Arquivo Pessoal)

A ex-gestante lembra que foi bem atendida pela equipe, até o momento em que a profissional voltou para participar do parto. “Ela entrou na sala, veio do meu lado e tentou subir em mim para forçar minha barriga com o cotovelo. Ainda tive forças para pegar o braço dela e empurrá-la contra a parede. Após isso, os médicos a tiraram da sala”. A técnica, chamada de ‘Manobra de Kristeller’, é considerada pela OMS um dos tipos de violência obstétrica.

A medida fez seu filho nascer, mas, como consequência, a paciente teve dilaceração profunda e deixou a sala de parto com hemorragia. A criança foi diretamente para a incubadora, onde ficou sob observação após apresentar uma possível fratura do braço e semiparalisia facial, sendo liberada posteriormente.

Traumas

“Era para ser um momento feliz, mas foi super tenso e nervoso”. A preparação para o parto normal foi realizada com muito estudo pela advogada Gisele Alaby, de 30 anos, que sabia exatamente o que poderia ser feito ou não no momento. Apesar disso, ela conta que um dos motivos para que tenha ficado traumatizada foi ter que “ficar brigando, literalmente, no meio do parto".

Acompanhada por uma doula e o marido, Gisele deu entrada no Hospital São Lucas, em Santos, no dia 4 de fevereiro. Após sentir que estava dando à luz, a equipe do hospital foi notificada. A advogada lembra que a primeira impressão que teve foi a de que a médica aparentava ser "bem impaciente".

Para minimizar a violência obstétrica, a advogada lutou para escolher a posição e impedir o uso da técnica da episiotomia, um corte proposital no períneo para a passagem do bebê. Já a violência psicológica foi causada pelos gritos e ameaças de uma profissional para apressar a gestante.

Três meses depois do parto natural, Gisele ainda lida com as consequências da violência obstétrica, como dores para urinar e ter relações sexuais, ocasionadas por machucados. A descoberta da irregularidade só surgiu após o diagnóstico de um ginecologista.

Mãe teve braços amarrados em maternidade de Santos (Foto: Kely Crystinne/Arquivo Pessoal)

“Chorava de nervoso até descobrir. Falava que nunca mais queria ter filho na vida, porque o pós-parto era horrível. Achava que as pessoas romantizavam a recuperação do parto normal, mas só depois me liguei que aquilo não era o padrão, que eu era a exceção”, comenta.

Outro caso

Diferente de outras mães, a experiência da fisioterapeuta Kely Crystinne, em 2016, prova que a violência obstétrica também está presente no centro cirúrgico. Apesar da gravidez tranquila, os preparativos da jovem contaram com uma ruptura acidental da bolsa durante o exame de toque, e a proibição de acompanhantes durante o parto. Mas, para ela, o momento mais traumático foi após o nascimento do filho. “Amarraram os meus braços. Não pude abraçá-lo, não pude amamentá-lo diretamente depois do parto. Aquele momento do nascimento do meu primeiro filho, que tanto me preparei para ser o momento mais mágico da minha vida, foi o mais assustador possível”, relata.

O período dentro da maternidade deixou sequelas psicológicas, como fazê-la ‘sofrer’ quando vê fotos de partos ou de mulheres acompanhadas de seus esposos. “Descobri, com terapia, que eu bloqueei o meu esposo da minha vida afetiva, colocando a culpa nele por não estar comigo nesse momento difícil. Só depois de três anos estou conseguindo digerir melhor essa história e ficar bem com o meu marido”, finaliza.

Mudanças

Um despacho do Ministério da Saúde abolindo o termo “violência obstétrica” foi assinado na última sexta-feira (3) pela Coordenadoria Geral de Saúde das Mulheres. A medida contraria o posicionamento da Organização das Nações Unidas, que propõe a discussão e cria campanhas acerca do assunto.

De acordo com a pasta, “acredita-se que o profissional de saúde, quanto o de outras áreas, não tem a intenção de causar danos”, e que o posicionamento foi feito a pedido de entidades médicas.

Em contrapartida, o Ministério Público Federal recomendou que a pasta esclareça que o termo pode ser usado pela sociedade e profissionais da saúde. Além disso, requer que se abstenha de realizar ações para abolir o uso da expressão, e que tome medidas para coibir a prática.

Para a ginecologista e obstetra Mariana Paiva, a proibição do uso do termo não é tão relevante perante os casos de agressão que acontecem nas maternidades. “A discussão sobre o que é violência é importantíssima, já que até 20% das mulheres já sofreram algum tipo de violência. Hoje, a mulher tem mais informação por meio das redes sociais e não aceita mais isso na hora do parto”, comenta.

A médica explica que qualquer procedimento desnecessário, agressão verbal ou física, em que a mulher se sinta “desconfortável”, pode ser considerado como violência obstétrica. “Violências verbais da equipe, como ‘se você não colaborar seu filho vai morrer’ ou ‘na hora de fazer foi fácil’ também podem ser incluídas na prática”.

Segundo Mariana, técnicas polêmicas, como a episiotomia e a Manobra de Kristeller, podem ser consideradas formas de violência. Ainda assim, a especialista ressalta que há casos em que podem ser utilizadas, se realizadas da maneira correta. “A episiotomia pode ser preventiva para que não haja uma dilaceração ainda maior. Já a Kristeller se torna uma violência quando é feita de maneira grosseira, causando desconforto para a mãe e ao ser imposto na hora do parto”, esclarece.

Posicionamento

Em nota, o Hospital Guilherme Álvaro esclarece que segue todos os protocolos para realização de partos e preza pelo atendimento humanizado. A unidade afirma que realiza os procedimentos que forem necessários à segurança dos pacientes.

De acordo com o hospital, a equipe médica realizou com êxito o parto, seguindo todas as diretrizes definidas pelo Ministério da Saúde, e ambas (mãe e criança) tiveram alta após internação habitual (48 horas após o parto), sem intercorrências. De forma alguma houve violência obstétrica ou uso da Manobra de Kristeller.

Também explica que, diante da distócia de ombros (dificuldade na saída dos ombros do bebê), o que configura risco à saúde do bebê e da gestante, foram realizados procedimentos necessários e adequados para garantir a segurança do parto. O hospital se coloca à disposição para esclarecimentos aos pacientes e familiares.

A Tribuna On-line procurou o Hospital São Lucas, mas não obteve resposta a publicação desta reportagem.