Cirurgião usa óculos de realidade virtual para operar paciente com endometriose em Santos (Reprodução/Hospital Ana Costa) O Hospital Ana Costa, em Santos, foi o primeiro no mundo a usar óculos de realidade virtual em uma cirurgia ginecológica. Esta é, também, a primeira vez que o aparelho é usado em um procedimento cirúrgico de grande porte: o equipamento foi utilizado na operação de uma paciente que sofria de endometriose grave — a doença chegou a afetar parte do intestino da mulher de 33 anos. Clique aqui para seguir agora o canal de A Tribuna no WhatsApp! A cirurgia de aproximadamente duas horas foi realizada pelo ginecologista e obstetra Guilherme Karam, que afirmou que o óculos permitiu uma visão mais detalhada e precisa da área afetada pela doença. Com a tecnologia, foi possível remover com mais eficácia o tecido endometrial. Ele explicou para A Tribuna que o equipamento também é uma espécie de headset (fone de ouvido) que oferece realidade mista para o usuário, ou seja: ele proporciona a realidade aumentada do ambiente ao mesmo tempo em que permite incorporar outros elementos virtuais no campo visual. “É possível trabalhar com eles de forma variada. Na aplicação para a cirurgia, você consegue incorporar para o cirurgião todas as tecnologias hoje vigentes. Então a gente consegue ter acesso a textos, imagens, modelos e protótipos 3D que podem ajudar na reconstrução de casos clínicos de imagem”, esclarece Karam. O equipamento proporciona uma imagem de alta qualidade, sem restrição de campo, como se fosse em uma tela, durante o procedimento. Com as diversas tecnologias integradas, é possível que o usuário visualize o que está acontecendo ao seu redor ao mesmo tempo que monta um campo de realidade ampliada. Após a cirurgia, a paciente está bem e segue em acompanhamento pela equipe médica. Ela, que teve a fertilidade comprometida pela endometriose, tem o sonho de engravidar e vê no procedimento uma esperança de se tornar mãe em breve. Antes de detalhar a revolução que o uso do óculos de realidade virtual pode proporcionar na medicina, há uma pergunta importante a ser feita. O que é endometriose? A endometriose é uma doença ginecológica crônica que pode causar uma reação inflamatória também crônica. Ela ocorre quando o tecido endometrial, que reveste o útero, migra para outras partes do corpo, como ovários, trompas, bexiga, ligamentos e intestino. Além disso, é uma das principais causas de infertilidade na mulher. Segundo Karam, com exceção do câncer de mama, a doença é o maior problema de saúde pública quando se fala de saúde feminina: são quase 8 milhões de mulheres com endometriose em idade reprodutiva no Brasil. Para efeitos de comparação, são 1,2 milhões de pessoas com Alzheimer no país. Equipe médica apoia cirurgião com óculos de realidade virtual em operação em paciente com endometriose em Santos (Reprodução/Hospital Ana Costa) Vantagens para médico e paciente O modelo utilizado pelo cirurgião foi o Apple Vision Pro. Com os óculos, todas as informações levantadas previamente pela equipe médica — Karam explica que, antes dos procedimentos, uma junta médica faz um estudo de caso de cada paciente; e essas informações são validadas a todo momento durante o processo cirúrgico — ficam disponíveis no campo de visão do cirurgião. “Eu consigo, ao mesmo tempo, ter acesso às diversas outras imagens; acesso à internet, à comunicação a distância e, inclusive, a dispositivos que tenham possibilidade de possuir inteligência artificial”, diz o médico. Isso, por sua vez, traz melhorias tanto para pacientes quanto para médicos. O uso dos óculos permite que o cirurgião opere com uma postura melhor, e deixe o procedimento menos cansativo. Com isso ele ainda atua com mais precisão e não precisa interromper para consultar informações, explica Karam. Com a diminuição do tempo de cirurgia, há também benefícios para o paciente. “Essa diminuição do tempo cirúrgico pode agregar uma melhor recuperação, menor internação e menor necessidade do uso do analgésico. Ou seja, vamos ampliar as vantagens que a cirurgia minimamente invasiva já trouxe para o paciente”, afirma. Equipe prepara instrumentos para cirurgia que contou com óculos de realidade virtual para operar paciente com endometriose em Santos (Reprodução/Hospital Ana Costa) Base para o futuro Segundo Karam, a cirurgia da paciente com endometriose deve dar origem a um artigo acadêmico de estudo de caso. Com isso, a expectativa é que o procedimento seja documentado na ciência para servir de comparação com outros casos e comprovar se a percepção dos médicos está certa e se, de fato, o uso dessas tecnologias traz vantagens — e quais são elas — para o paciente. É preciso lembrar que o caminho até a comprovação científica é longo, mas os benefícios já estão sendo observados. “Tem dado um valor tremendo não só para a dinâmica da cirurgia, mas para ter muito mais acurácia e informações precisas. Isso aumenta a segurança do paciente, quando você tem informações mais concisas e menos chances de ter erros de avaliação”, diz o ginecologista. Realidade palpável O uso deste tipo de tecnologia ajuda os médicos a aprimorarem a técnica de cirurgias minimamente invasivas. Pode parecer contraditório que procedimentos de grande porte, como a operação de endometriose, possa ser algo considerado pouco invasivo. Mas esta é a realidade cada vez mais palpável por conta dos avanços dos últimos 20 anos. A cirurgia de endometriose, por exemplo, antes envolvia cortes que iam da parte superior do tórax até abaixo do umbigo da paciente. Hoje, é possível realizá-lo com pequenas incisões. Até mesmo operações para retirada de tumores podem ser minimamente invasivas com o apoio tecnológico. Estamos naquela fronteira entre a ciência e a tecnologia e entender o quando isso vai evoluir”, afirma Karam. “Não temos dúvida do impacto que vai haver, mas a gente ainda não tem a real dimensão do quanto isso vai mudar a sociedade do futuro”, finaliza.