O primeiro canal da cidade de Santos, inaugurado em 27 de agosto de 1907 (Instituto Histórico e Geográfico de Santos) Nesta edição, a coluna Era Uma Vez... Santos convida o leitor a embarcar na segunda parte de uma fascinante viagem pelo ano de 1908, guiado por antigas fotografias do acervo do Instituto Histórico e Geográfico de Santos. Se na primeira etapa, revelada no último artigo, publicado dia 15, mergulhamos nas memórias do velho Centro Histórico, neste iremos avançar um pouco mais, rumo às áreas que começavam a ser moldadas pela crescente urbanidade santista — nos recantos do Macuco e na bucólica região da orla praiana. Tais paragens, outrora vazias, iam ganhando vida com o avanço do progresso, levado pelos trilhos dos bondes, pelas grandiosas obras da Companhia Docas e pelos elegantes canais traçados pela genialidade de Saturnino de Brito. Prepare-se para seguir conosco nesta jornada única! Canais de Saturnino O primeiro canal da cidade de Santos, inaugurado em 27 de agosto de 1907 (Instituto Histórico e Geográfico de Santos) (Instituto Histórico e Geográfico de Santos) O primeiro canal da cidade de Santos, parte do emblemático projeto liderado pelo renomado engenheiro sanitarista Francisco Rodrigues Saturnino de Brito, foi inaugurado em 27 de agosto de 1907. A cidade, ainda em clima de celebração, experimentava um novo momento estético, visível ao longo da Vila Mathias e no José Menino, onde ficava a Estação de Pré-Condicionamento. Uma das marcas visuais mais impressionantes eram as elegantes pontes que cruzavam as principais vias ao longo do trajeto do Canal 1, como as da Avenida Conselheiro Nébias, Senador Feijó, Braz Cubas, Constituição e Dr. Cochrane. Na época, as calçadas que margeavam os canais eram emolduradas por um delicado toque de verde, com grama cuidadosamente plantada, acrescentando ainda mais charme à paisagem urbana. Uma segunda foto revela o trecho mais moderno do canal, já além da Avenida Ana Costa, com a cadeia de morros ao fundo, destacando-se a Pedreira do Jabaquara ao centro. Essa pedreira desempenhava um papel importante no fornecimento de rochas para o projeto de aterramento do trecho de Outeirinhos, executado pela Companhia Docas de Santos. As pedras eram extraídas por canteiros, trabalhadores portugueses especializados, e transportadas até a faixa do cais em pequenas locomotivas que corriam de oeste a leste. À direita, o descampado mostrado na imagem corresponde à área onde hoje se encontram diversas edificações, incluindo o Teatro Municipal de Santos. Mais ao longe, em direção à pedreira, seria erguido o prédio da Santa Casa, cuja construção teve início no final da década de 1920. Entrada da Ana Costa e Hotel Parque Balneário (Instituto Histórico e Geográfico de Santos) Em 1908, época do início das operações do bonde elétrico, que marcaria um salto evolutivo para Santos, o Gonzaga começava a se preparar para se tornar a principal área santista fora do núcleo original da cidade (atual Centro Histórico). Nesse período, a Avenida Ana Costa, que mais tarde superaria a importância da Conselheiro Nébias (antigo Caminho Novo da Barra), era ainda em sua maioria de terra batida. No entanto, o calçamento de paralelepípedos de rocha começava a surgir, especialmente ao longo do leito dos trilhos dos bondes, com o objetivo de protegê-los do desgaste acentuado. Na imagem, é possível observar dois pares de trilhos, destinados aos bondes que faziam o percurso de ida e volta entre o Largo do Rosário (atual Praça Rui Barbosa, no Centro), até o José Menino e a cidade vizinha de São Vicente. A orla também começava a ser intensamente ocupada por imponentes palacetes e empreendimentos de hospedagem de médio luxo. Além do Hotel Internacional e do Palace (que estava em construção no José Menino), era no Gonzaga que se concentravam as principais casas, como o Parque Balneário. Em sua primeira versão, vista na imagem de 1908, o hotel era administrado por Mademoiselle Elisa Poli e Alberto Fomm, oferecendo na época todas as comodidades de hospedagem. Nesta época, ainda nem aventavam a construção do monumento da Praça Independência nem a plantação das palmeiras imperiais que tornariam a Ana Costa a mais bela das avenidas da Cidade. Avenida Taylor e a sede da Companhia Docas de Santos (Instituto Histórico e Geográfico de Santos) A atual Avenida Conselheiro Rodrigues Alves, no Macuco, que abriga no trecho final o complexo de oficinas e a sede administrativa da antiga Companhia Docas de Santos (posteriormente Codesp e atualmente Autoridade Portuária de Santos), foi conhecida até 1919 como Avenida Taylor. O nome homenageava o cidadão português Antonio Iglezias da Silva Taylor, natural da cidade do Porto, que doou uma faixa de terras para a abertura da via, além de vasto terreno onde se estabeleceu a sede do antigo Asilo de Órfãos (atualmente Associação Casa da Criança). Na imagem de 1908, é possível ver o prédio principal da instituição criada para acolher meninos e meninas que perderam os pais durante as inúmeras epidemias que devastaram grande parte da população nas duas últimas décadas do século 19. Um pouco mais adiante, destacam-se os imponentes casarões construídos pela Companhia Docas de Santos, destinados a abrigar os engenheiros responsáveis pelas obras do cais, além <QA0> de receber os diretores da empresa vindos do Rio de Janeiro. Mais à frente, observa-se o antigo escritório central da Companhia Docas. Atualmente, o primeiro casarão visível na imagem abriga o Museu do Porto de Santos. Outeirinho e Mortona (Instituto Histórico e Geográfico de Santos) (Instituto Histórico e Geográfico de Santos) Ainda no Bairro Macuco, uma curiosa imagem revela parte de um dos antigos Outeirinhos — pequenos morros que existiam na região ao final da atual Avenida Rodrigues Alves. Naquele ponto, a Companhia Docas de Santos estava prestes a concluir o grandioso projeto de aterramento de uma área do canal do porto, que resultaria em um acréscimo de 2.526 metros de cais linear. Esse trecho abrigava oficinas de blocos de pedra e o estaleiro da empresa, conhecido como Mortona. As obras foram finalizadas em 1909. Um detalhe interessante é a inscrição “Trecho de entrada” na imagem, provavelmente indicando o ponto de acesso à Mortona e ao futuro cais das Docas. Hoje, essa área é ocupada pela Capitania dos Portos. Sergio Willians é jornalista e pesquisador da história de Santos. Conheça seu trabalho no site Memoria Santista.