(Sílvio Luiz/AT) Se não fosse uma ‘contravenção’ ocorrida em 1975, esta reportagem jamais teria sido escrita. Aos fatos: um então adolescente de 14 anos e dois amigos estavam pela Rua Primo Ferreira, travessa da Dom Lara, no Boqueirão, quando foram parados pela polícia. Com eles, foi encontrado um cigarro ‘proibido’. Os três foram levados para o xilindró do 3º DP, então na Av. Conselheiro Nébias. “Essa história é um turning point, uma intersecção na minha vida”, afirma Júlio Caparelli Bittencourt, conhecido na música da região como Julinho Bittencourt. Clique aqui para seguir o canal de A Tribuna no WhatsApp! O pai de Julinho, desesperado, foi tirar o filho da cadeia. “Me proibiu de sair, me tirou da rua e trancou em casa: eu só saía para ir à escola e voltava”. As horas se arrastavam. Até que surgiu a salvação: esquecido em um canto da casa na Rua Colômbia, onde a família morava, estava um violão. “Meu pai havia comprado, tentou tocar, mas nunca conseguiu. E eu aprendi sozinho”. Cinquenta anos depois, o tempo é essa tela que enquadra o passado em sua perspectiva real – sempre mais bela. “Estou com 64 anos, a canção dos Beatles, When I’m Sixty Four. Fiz uma versão dessa música quando tinha trinta e poucos. Nunca pensei que chegaria aqui”, filosofa. “Quando Paul McCartney fez a música, 64 anos era idade de velhinho. Hoje, não. Embora eu já tenha passado pela retífica”. A ‘retífica’, no caso, é o stent no coração, colocado há pouco tempo. “Fumei até os 37 anos”, justifica. Só parou por causa da filha mais velha, Beatriz, hoje com 34 anos (ele ainda tem Ana, com 30), que lhe pediu de presente, no aniversário de 7 anos, que parasse de fumar. “Tentei negociar, ofereci carro da Barbie...”, conta, aos risos. Logo torna a ficar sério: “Foi a coisa mais difícil que fiz na vida”. ‘Cantautor’ Julinho cresceu em meio a livros e discos. O pai trabalhava na Abril Cultural, como vendedor de livros. “Meus pais eram cultos. Minha mãe era dona de casa, mas ouvia muita MPB. Meu pai trabalhou com Plínio Marcos vendendo livros, frequentava a casa do Roldão (Mendes Rosa, jornalista e escritor)”. Enclausurado nessa efervescência cultural, depois de algum tempo, o violão já fazia parte de sua vida, mas como caminho para fazer música. “Sou ‘cantautor’: toco para conseguir compor e cantar. Nunca deixei de fazer música”. A medida do desejo nem sempre é a da aptidão. A harmonia entre ambos ainda necessitaria de aulas de violão, nas quais descobriu que não seria um instrumentista, e em uma vivência bastante musical na Faculdade de Jornalismo: na classe de Julinho tinha músico da Orquestra Sinfônica de Santos, guitarristas e Cláudio Zaidan, hoje na Rádio Bandeirantes, que foi parceiro dele em composições. “A gente começou a fazer música, e ganhar festivais”. Entre as conquistas, o Festival da Canção de Santos e o Festival da Primavera, organizado pelo Ilha Porchat Clube. Da Rua Colômbia, a família se mudou para um apartamento térreo em um predinho na Rua Victor Delamare. Com face para a rua, os amigos passavam, já davam bom dia, puxavam prosa, eram convidados pra dentro. Podia ser Telma de Souza. Beatriz Rota-Rossi ou Zéllus Machado. Ou ainda Luiz Dias Guimarães e Wilson Melo. No verão, a porta ficava aberta, facilitava o chega mais e o papo. E tome violão na soleira e discos na vitrola. “Era comum eu chegar em casa e ter lá oito amigos, com minha mãe, fumando e jogando baralho. Disso tenho saudade, era muito bom: coisas de uma cidade que não existe mais”. Torto Na Avenida Epitácio Pessoa, ficava o Carranca. O bar era reduto de estudantes e seu forte era a música ao vivo. Julinho começou a frenquentar o bar. Um dia, deu uma cancha. Foi o estopim: acabou convidado para ser músico da casa e logo estava tocando de terça a domingo. Quando dava, tocava ainda e outros lugares. “Eu paguei a faculdade como músico. Desde que comecei, nunca mais pedi dinheiro para o meu pai. Virou minha profissão”. No Carranca também já tocava o percussionista Roberto Biela. Os dois viraram amigos e companheiros de banda, no trio Jornal do Brasil (que ainda tinha Luiz Cláudio de Santos no baixo, nessa época). O que eles nem suspeitavam é que logo se tornariam sócios. A ideia partiria de Alfredo, um primo de Julinho. De tanto vê-los tocar na noite, sem ‘residência fixa’, um dia disparou: ‘vamos abrir um bar’. “Como assim? A gente estava com um convite para tocar em Paris”. Venceu o bar, perdeu Paris: em 23 de agosto de 1984, abria as portas na Avenida Siqueira Campos o Torto Bar. “Na primeira noite, apareceram por lá quase 700 pessoas. Parou o Canal 4, de madrugada foi polícia”, recorda. “A gente embarcou na ideia, sem imaginar que o Torto faria tanto sucesso. Mudou a trajetória da minha vida”. Durante 33 anos, o Torto foi um dos principais endereços da música em Santos. Colecionou histórias. Um bar que recebia todo mundo de portas abertas, sem poréns ou nariz torto de preconceito. “Tinha um garçom que trabalhava de vestido de seda”, resume. “Vi muita música boa lá, Chumbinho, Chico Gomes, o João Maria com a banda Blasfêmia, gente da Cidade, e outros, como Arrigo Barnabé, Eliete Negreiros, Bocato...”. A lista segue. Um templo da música, inspirou músicos: um dos frequentadores era Alexandre Magno, o Chorão. Na época, Renato Pelado era o baterista do Jornal do Brasil. Chorão assistia ao show e vaticinava: ‘vou roubar o Pelado!’. “Se for pra roubar, rouba bem, eu retrucava”, risos. “Ele roubou, e eu fiquei superfeliz e orgulhoso daquilo ter feito um grande sucesso”. Sacanagem de Deus O tempo passa, as perspectivas mudam. “Não aguento mais. Não brinco mais. Não quero mais”. A noite perdeu o brilho. “É muito difícil ser dono de casa noturna: é uma vida de pediatra”. Era 2002: Julinho deixou o Torto. Foi trabalhar como jornalista em São Paulo, depois em Brasília. Aliás, o segundo álbum, Terra-Mar, foi inspirado na capital federal, onde morou por seis anos. “Me apaixonei pela cidade, tem uma canção em que digo que quero trazer Brasília para a beira do mar”. Mas o seu mar, a sua terra, sempre foram a música. O primeiro álbum, Caiçara, produzido para os 450 anos de Santos, em 1996, tinha até uma parceria com Renato Teixeira. Destaca-se a canção Velho Gaúcho, que Julinho compôs muitos anos antes para o avô que nunca conheceu. “Junto à parede sobre o cavalo/Deixaste a gente só/Como se os móveis, como se o tempo/Os lábios de minha avó”, diz a letra. “Uma vez, um cara me falou: ‘leva essa fita para o Pelão (produtor de Nelson Cavaquinho, Adoniran Barbosa, Cartola), lá na TV Cultura. Vou falar com ele (para te receber)’. Cheguei na antessala dele e falei com a secretária: quero falar com seo Pelão”, recorda. Ela perguntou o que aquele garoto de 19 anos queria com o ‘seo Pelão’. “Entregar uma fita”. “Pode deixar aí”. “Não tem como falar com ele?”, “Ele é muito ocupado. Deixa aí que a gente entrega”, e apontou um balde cheio de fitas cassete até à boca. Se fosse hoje, Julinho ligaria, marcaria horário. Mas reconhece: “sempre tive vergonha de bater em porta de gravadora, apresentar meu trabalho, fazer lobby...”. Para, pensa: “tenho vergonha de me autopromover”. Porém, um desejo permanece: o de viver da música, de suas composições. Com três álbuns, um EP e um compacto, calcula umas 60 canções gravadas, fora as incontáveis na gaveta e no coração. Uma das mais recentes Padre Júlio, no EP Gaia Gaia, de 2023, emocionou o padre Júlio Lancelotti, que mantém na Capital um projeto para cuidar de pessoas em situação de rua. Essas pequenas vitórias, as filhas – “maravilhosas” –, fazem de Julinho uma pessoa feliz. “Se você chega numa certa idade, a depender da vida que se tem, e é o meu caso, você se sente tranquilo, em paz. Sem ansiedade de acordar e querer fazer alguma coisa, conquistar alguma coisa”, pensa. “Só que a grande sacanagem de Deus é que ele entrega isso quando o vigor físico está começando a ir embora”, abre um sorriso. Sacanagens à parte, Julinho reafirma: é feliz e está em paz. Será que dá música?