O tradicional Colégio Canadá, em Santos, completa 90 anos neste domingo (11) (Sílvio Luiz/AT) No coração do Boqueirão, em Santos, está instalado no número 163 da Rua Mato Grosso o berço educativo de nomes como o ex-governador de São Paulo Mário Covas, o renomado ator Ney Latorraca, o lendário escritor Pedro Bandeira e o ex-ministro da Educação e presidente do Banco Nacional de Desenvolvimento Econômico e Social (BNDES) Aloizio Mercadante: a Escola Estadual Canadá, que está completando 90 anos este ano. (veja, mais abaixo, fotos históricas) Clique aqui para seguir agora o canal de A Tribuna no WhatsApp! Para comemorar a data, pessoas que tiveram suas histórias marcadas pela passagem no colégio tradicional se uniram com a ideia de criar um hino em celebração aos 90 anos do Canadá. Composto pelo ex-aluno e compositor santista Ricardo Peres, a letra celebra a ‘trilha da educação’ (veja mais abaixo). “O Colégio Canadá mora no meu coração. Quando estudei lá já era uma escola de muita tradição. Naquela época, as melhores escolas eram as estaduais, e o Canadá era a melhor das melhores”, comenta Ricardo. O ex-aluno e ex-professor de matemática do Canadá, Jair Ng Toi Men, só tem lembranças boas. Agora aposentado e aproveitando seus 64 anos, Jair estudou por lá de 1971 a 1977 e retornou nos anos 2000 para lecionar. “Quando voltei, fiquei super emocionado: uma coisa é entrar como aluno, outra é voltar como professor”, relembra. “Sempre gostei do colégio, sempre amei. Falo bastante sobre as lembranças que formei ali, criei muitos amigos e conhecidos lá”. Amor pela arte No Colégio Canadá, muitos alunos tiveram seu primeiro contato com a arte e a cultura. Embora primária, essa relação acendeu uma faísca que se tornou uma chama no coração de alguns. As artes cênicas e a literatura agradeceram. Um desses ex-alunos é o ator Ney Latorraca. Santista, aos 80 anos, está aposentado dos palcos e das telas. “O Colégio Canadá é, na minha opinião, um dos melhores momentos da minha vida. Nele aprendi valores que me acompanham até hoje. Foi minha segunda casa. Tenho muito orgulho de poder falar que estudei lá. Foi no Canadá que começou minha escolha como ator, participei do meu primeiro trabalho no teatro, a peça era Pluft o Fantasminha’ de Maria Clara Machado”, relembra. O nome do núcleo era Teatro Estudantil Vicente de Carvalho (TEVC). “Me lembro do espaço onde fazíamos as peças, eu achava enorme enquanto jovem. Quando voltei depois de um tempo, vi seu verdadeiro espaço e, nesse dia, eu chorei”. O ator estudou o Ginásio (Ensino Fundamental II) e o Científico (Ensino Médio) na escola. “Tenho muita saudade desse tempo. Sou totalmente a soma do que esse colégio fez por mim, como homem e ator”. Base cultural Outro destaque é o renomado escritor santista Pedro Bandeira. Autor de obras infanto-juvenis como o clássico O Fantástico Mistério de Feiurinha (1986) e ‘A Droga da Obediência’ (1984), também foi no Canadá que teve seu primeiro contato com a Literatura. E esse contato tem um nome: a ex-bibliotecária Dona Cacilda. “Com ela aprendi até o folclore germânico, porque a biblioteca era muito bem fornida. Eu lia sempre ficção e aquilo foi me tornando um cara muito leitor. Fiz amigos lá que eram semelhantes a mim, muito leitores, e andávamos sempre juntos, íamos ao cinema e aos teatros”. Esse crescimento cultural, Bandeira viveu todo lá, já que sua família não era tão dedicada às artes. “Toda minha informação de vida veio de lá. Aos nove anos, eu não sabia o que era gravidez. Tinha uma prima e achava que ela estava gorda. Ninguém me dizia nem o que era a maravilha do que era alguém gestando um ser humano”. Bandeira também deu aulas particulares aos colegas com notas baixas: era uma forma de ganhar uma renda extra para comprar livros, ingressos de cinema e entradas e teatro. “A minha vida foi aberta realmente a partir desse colégio. Pessoas muito ricas colocavam os filhos no Canadá, pois sabiam que o ensino seria melhor, junto com pessoas que não tinham um ‘tostão’ no bolso. Os professores trabalhavam de terno e gravata, mesmo no calor de Santos”, recorda. Comemorações O pontapé inicial é uma missa de ação de graças neste domingo, na Igreja dos Passos (Rua Mato Grosso, 367), às 18h30. Neste mesmo local haverá um concerto da Orquestra Sinfônica Municipal de Santos (OSMS), dia 7 de setembro, após a missa das 18h30. Também começa agora a campanha para arrecadar alimentos, sendo o Educandário Santista a entidade beneficiada, que assiste cerca de 700 crianças. Os pontos de arrecadação: Educandário Santista (Av. Cons. Nébias, 680), Chaveiro Boqueirão (Av. Cons. Nébias, 809) e o Bazar 5 de Outubro (Av. Epitácio Pessoa, 31). -galeria 1 (1.430025) Música ao colégio O hino composto por Ricardo Peres deve ser apresentado aos alunos pela primeira vez na quinta-feira, data escolhida para celebrar o aniversário da escola. Veja um trecho da letra: “Notável pela Excelência/Dinamismo e tradição/A luz da nossa caminhada/Na trilha da educação/Formando gerações e gerações/Na docência a primazia/Lapidando campeões da vida/Nos passos da sabedoria”. A fundação Fundado em 1934, o Colégio Estadual Canadá rapidamente se consolidou como uma das instituições de ensino mais respeitadas de Santos e uma das maiores do Estado de São Paulo. O governador da época, Armando de Sales Oliveira, criou o Instituto de Educação Canadá, em 11 de agosto daquele ano. O nome lhe foi atribuído pela nacionalidade da empresa doadora do terreno onde foi construído. Durante os anos 1960, em uma época em que Santos era um centro pulsante de movimentos sindicais e de intensa atividade política, especialmente ligada à esquerda, o colégio também foi alvo das turbulências que marcaram o Brasil no período do golpe militar de 1964. O clima de repressão instaurado na Cidade afetou profundamente o Colégio Canadá, que viu suas atividades políticas, particularmente as promovidas pelos alunos por meio do Grêmio Estudantil Vicente de Carvalho, serem alvo de vigilância constante. Os registros do Departamento de Ordem Política e Social (Deops-SP) indicam que houve um monitoramento severo sobre o movimento estudantil e as ações culturais da instituição. O grêmio, além de sua forte atuação política, também era um ativo promotor da cultura. Em 2007, o edifício principal do colégio foi reconhecido como patrimônio histórico, sendo tombado pelo Conselho de Defesa do Patrimônio Cultural de Santos (Condepasa).