[[legacy_image_283345]] “Bem-vindo seja quem venha por bem”. A frase, estampada em azulejo antigo logo na entrada, já indica que ali está um casarão diferente, centenário, em que os detalhes deixam de ser detalhes quando se conhece sua história. Mais que isso: quando se tem a oportunidade de conhecê-lo por dentro. Depois de quatro anos, o antigo casarão localizado na esquina das ruas Constituição e Sete de Setembro, no Paquetá, está pronto para ser reocupado. O endereço oficial é Rua da Constituição, 278, mas o imóvel construído em 1900 chama a atenção de quem passa em qualquer sentido daquela esquina. Erguido pela antiga Companhia Docas de Santos para ser residência de seus funcionários de alto escalão, ocupa um terreno de 1.900 m², e é todo cercado por jardins, pomar com árvores frutíferas, canteiro suspenso, uma fonte com chafariz e, no fundo, uma pequena edícula, que outrora funcionou como estábulo, já que criar animais no quintal era hábito comum àquela Santos do século passado. Em muitas fasesDesde que foi construído, muitas fases permearam seus 123 anos de existência, mas a última está sendo escrita pelo médico e empresário Mario Flávio Leme de Paes e Alcântara, que comprou o imóvel do antiquarista Rafael Moraes, cuja intenção era ter instalado ali o Instituto Cultural Edith Pires Gonçalves e um museu dedicado ao poeta Martins Fontes. A ideia não prosperou e o imóvel entrou em decadência e abandono. Por fora e por dentro. [[legacy_image_283346]] Foram quatro anos de restauração, reforma e recomposição de telhado, ladrilhos, pisos, portões, forros, portas, batentes, beiral, rodapés, maçanetas, vitrôs, janelas, corrimões e guarda-corpos. O resultado pode ser visto por fora, mas impressiona ainda mais quando se alcança seu interior, tanto na parte térrea como no primeiro piso. São 21 cômodos no total. Na parte térrea, com pé direito baixo, há seis quartos, uma despensa, uma sala, um salão e um banheiro. Originalmente, era a residência dos empregados da casa. O acesso ao piso superior se dá por uma escadaria estreita de mármore branco, original, e corrimão restaurado. Ali, há uma cozinha, copa, banheiros e vários quartos e salas, cuja restauração seguiu com rigor os detalhes originais. Mario Flávio chama a atenção para o piso de madeira reluzente, os vitrôs jateados dos quartos e os azulejos com estampas azuis, peças que precisaram ser encomendadas mas se espelham na história do casarão e no que já existia lá. Um trabalho de paciência e arte. Cada quarto e cada sala têm cores diferentes e fortes, também a exemplo dos ambientes originais. Na sala principal, um lustre de madeira desce do teto e acomoda seis lâmpadas. “Aqui, devia ficar a mesa de jantar da família”, acredita Mario Flávio. A exemplo de palacetes imponentes do início do século 20, a entrada principal se dá por uma escadaria frontal, sinuosa, de pedra. São 16 degraus para alcançar o alpendre, que ainda guarda o piso original, já desgastado mas com estampa colorida daquele tempo. Janelões com venezianas de madeira que abrem e fecham na horizontal, além de portas altas e pesadas completam o cenário arquitetônico da moradia daquela Santos antiga, onde bairros como Vila Nova, Paquetá e Vila Mathias acolhiam famílias de elite, muitas ligadas à atividade portuária e cafeeira. Em mergulho na históriaRecuperar um imóvel assim, em estágio muito avançado de degradação, não é fácil, diz a arquiteta Daniela Olivan, responsável pelo projeto desde o início. [[legacy_image_283347]] O casarão, de estilo eclético, tem nível de proteção 1, o que significa que nada pode ser mudado do desenho original, nem os jardins. Foram dois anos só para coletar informações, fotos, história, desenhos e memoriais descritivos que pudessem ajudar a compor o que foi aquele endereço no passado. “Para chegar às cores originais de portas e paredes, por exemplo, precisamos descascar camada por camada de tinta até descobrir o que estava por baixo”, lembra a arquiteta. Azulejos e portas quebradas foram encomendados, peça por peça. “E aqui destaco o empenho pessoal do Mario Flavio, que ia atrás de marceneiros e pessoas que conhecia”. Daniela diz que às obras de restauro foram acrescentados detalhes que possam servir para um futuro uso diferente de moradia, como rede elétrica para ar-condicionado e acessibilidade para pessoas com algum tipo de deficiência. O casarão, agora, está vivo de novo. Espaço de arte e cultura, a vontade do proprietárioE o que fazer com o casarão agora, que ele está restaurado e pronto para ser reocupado? O médico e empresário Mario Flávio Leme de Paes e Alcântara entende que o melhor uso seria com atividades voltadas à comunidade, e por isso já procurou a Prefeitura para avaliar o interesse em alguma parceria. Ex-presidente da Pinacoteca Benedicto Calixto, também um casarão restaurado e voltado à cultura localizado no Boqueirão, Mario Flávio enxerga no imóvel da Constituição um perfil semelhante, que poderia ser utilizado pela comunidade dos bairros da região central, carentes de espaços voltados à arte, cultura e lazer. Junto com o restauro, algumas adequações já foram feitas prevendo novos usos, diferentes de moradia: banheiros feminino e masculino, cabeamento para internet em todos os cômodos, luzes de emergência e alarme. Enquanto aguarda a volta de pessoas para dar vida ao casarão, uma providência já foi tomada: arame farpado em toda volta e um caseiro permanente, para que o estado anterior, de abandono e furtos, não mais aconteça.