O canadense Karl Andre Van Roon é descrito pela família como uma pessoa generosa (Arquivo pessoal) O que começou como um gesto de preocupação de um morador de Santos, no litoral de São Paulo, acabou conectando histórias separadas por milhares de quilômetros. Quatro anos após desaparecer, o canadense Karl Andre Van Roon, de 43 anos, foi encontrado pela família ao reconhecê-lo em uma reportagem de A Tribuna. O desfecho, no entanto, não foi o esperado e os familiares acabaram descobrindo que Karl havia morrido na Baixada Santista. Clique aqui para seguir agora o canal de A Tribuna no WhatsApp! A descoberta encerrou um período de incertezas para a família, que vive em Vancouver, no Canadá, e buscava por Karl desde que perdeu contato com ele durante uma viagem pelos Estados Unidos, em julho de 2022. O caso veio à tona novamente após os pais localizarem a reportagem, de junho de 2024, no início de março deste ano. A mãe, Heidi Van Roon, explica que a matéria foi encontrada por um conhecido da família. “O avanço aconteceu por uma combinação de redes sociais, nossa rede de contatos, nossas viagens, boas pessoas, um bom samaritano, a reportagem de A Tribuna, inteligência artificial e uma espécie de intervenção divina que conectou os pontos”, conta. Na matéria, o auxiliar administrativo Antônio Romano Neto havia relatado ter encontrado um homem debilitado que dormia no Centro de Santos. Segundo ele, tratava-se de um estrangeiro que se comunicava apenas por gestos, mas parecia compreender inglês e italiano. Quase dois anos após a publicação da matéria, na madrugada do último dia 6, a equipe de reportagem de A Tribuna foi procurada por uma brasileira que mora no Canadá e tem contato com a família de Karl. “Na reportagem, mencionava que ele poderia ser estrangeiro. Foi assim que a família conseguiu identificar que se tratava dele”, disse ela, na mensagem enviada por e-mail. “Foi a primeira vez que vimos uma foto dele em que não parecia estar bem, e isso nos preocupou muito", relata a mãe, que contou com o auxílio do marido e pai de Karl, Terry Van Roon, durante as buscas. Uma busca que atravessou continentes A família, então, entrou em contato com a reportagem de A Tribuna e, posteriormente, com autoridades brasileiras para tentar entender o que havia acontecido. Dias depois, recebeu a confirmação de que existia um registro de morte que correspondia às circunstâncias descritas. Conforme o boletim de ocorrência, ainda no mês de junho de 2024, policiais militares foram acionados para atender uma ocorrência envolvendo uma pessoa desacordada na Rua Braz Cubas. Uma equipe do Serviço de Atendimento Móvel de Urgência (Samu) foi ao local e constatou o óbito. O laudo necroscópico apontou que a causa da morte foi tromboembolismo pulmonar – condição caracterizada pela obstrução de uma artéria nos pulmões por um coágulo sanguíneo. Segundo os peritos, não havia sinais de violência. Sem documentos e sem identificação, o corpo foi registrado como desconhecido. Embora ainda aguardem a comparação oficial de impressões digitais e DNA, os familiares afirmam ter identificado Karl pelas fotografias do registro policial. Uma vida de viagens Karl nasceu em 25 de dezembro de 1982, em Surrey, na Colúmbia Britânica, no Canadá. Segundo os pais, cresceu em uma família grande e acolhedora, marcada por tradições culturais de origem alemã menonita e holandesa. “Somos canadenses de primeira geração, nascidos de refugiados europeus que fugiram da Segunda Guerra Mundial”, conta Heidi. A mãe relata que, na juventude, o filho desenvolveu um estilo de vida pouco convencional. Após terminar o Ensino Médio, passou a viajar frequentemente, muitas vezes atravessando países pedindo carona e vivendo em comunidades diferentes. Seu mantra era “a estrada provê”. “Em cada nova comunidade, assumia uma profissão diferente para se sustentar, ser generoso e fazer amizades profundas. Tudo sempre se resolvia para ele. Sempre encontrava bons empregos e conhecia algumas das pessoas mais amorosas, gentis e brilhantes do mundo”, recorda a mãe. Ao longo dos anos, Karl trabalhou em diversas profissões e viveu em vários lugares da América do Norte e da Europa, incluindo Áustria, México e Noruega. Segundo a família, Karl buscava compreender seu lugar no mundo por meio de experiências comunitárias, espiritualidade e uma vida simples. Karl com a família (Arquivo pessoal) Durante as viagens, era comum que Karl deixasse para trás seus pertences e interrompesse contato com familiares por períodos prolongados, como parte de práticas espirituais que incluíam silêncio, simplicidade extrema e serviço voluntário. O último contato confirmado da família com ele ocorreu em julho de 2022, quando Karl estava nos Estados Unidos. Na época, ele havia passado meses como voluntário em uma missão comunitária no estado de Louisiana. Depois disso, desapareceu novamente. O peso de não saber Durante quase quatro anos, os pais viveram com a angústia da incerteza. “Perder um filho desaparecido é como um luto que continua se repetindo”, descreve a mãe. “Agora, sinto que meu luto pode finalmente se organizar. Um peso enorme foi retirado dos meus ombros – o peso de não saber estava se tornando insuportável”, desabafa Heidi. Para ela, o momento da identificação foi “um choque profundo, misturado com alívio e perda”. Karl com sua irmã Deanna (Arquivo pessoal) A sensação é compartilhada pela irmã de Karl, Deanna Van Roon. “Quando soube que ele realmente havia falecido, fiquei em choque. Agora me sinto completamente de coração partido, profundamente aliviada e, ao mesmo tempo, devastada pela dor”, descreve. Deanna conta que sempre teve uma relação próxima com o irmão, mas que, ao longo dos anos, precisou aprender a lidar com seus longos períodos de silêncio. “Não tenho dúvida de que ele ‘voltou’ de alguma forma e agora está me ajudando do outro lado”, afirma. Reconstruindo os últimos passos A família ainda tenta entender como Karl chegou ao Brasil. Até agora, não há registros claros de sua viagem entre os Estados Unidos, em 2022, e Santos, em 2024. “Temos pouca conexão com o Brasil, exceto pelo fato de Karl ter uma espécie de bússola interna que o levava a lugares bonitos, encontros espirituais e pessoas amorosas. Certamente anjos e encontros divinos o ajudaram a chegar ao destino. Santos deve ser um lugar bonito, com pessoas acolhedoras, por isso Karl permaneceu ali”, diz a mãe. Segundo os pais, o filho tinha o hábito de viajar longas distâncias pedindo carona ou aceitando ajuda de pessoas que encontrava pelo caminho. Por isso, eles agora pedem que qualquer pessoa que tenha cruzado o caminho de Karl nesse período entre em contato. 'O amor torna a vida agradável' Karl costumava resumir sua filosofia de vida em frases simples. Uma delas era repetida com frequência durante suas viagens: “O amor torna a vida agradável. Seja gentil consigo mesmo e com os outros.” Agora, a família busca reconstruir a história dos últimos passos de um homem que atravessou continentes guiado pela própria busca por sentido e que terminou seus dias de forma silenciosa, em uma calçada distante de casa.