Karl Van Roon atravessou mais de 10 mil quilômetros até chegar a Santos (Arquivo pessoal) A história do canadense Karl Andre Van Roon, encontrado morto em 2024 em Santos, no litoral de São Paulo, ganhou novos desdobramentos após a repercussão do caso. A reportagem de A Tribuna apurou detalhes inéditos sobre os últimos meses de vida do estrangeiro, que percorreu mais de 10 mil quilômetros com o objetivo de provar que era possível atravessar países sem dinheiro ou documentos, guiado apenas pela ajuda de outras pessoas. Clique aqui para seguir agora o canal de A Tribuna no WhatsApp! Conforme apurado pela reportagem de A Tribuna, o canadense foi visto pela primeira vez na Baixada Santista entre o fim de 2022 e o início de 2023, depois de tentar acessar embarcações no Porto de Santos. Falando em inglês e sem revelar muitos detalhes pessoais, ele se apresentava apenas como “Karl” e dizia estar em uma missão. “Ele falou: ‘Eu estou em uma missão para ir para Jerusalém a pé, sem documentos, sem nada’. Ele queria provar que existem pessoas com o coração de Deus e que você só precisa encontrar as pessoas certas no caminho”, relatou funcionária de uma organização não governamental (ONG) que assistiu Karl durante sua estadia no Brasil e que preferiu ter sua identidade preservada. De acordo com o relato, o canadense dizia ter atravessado diversos países desde a América do Norte até a América do Sul, parte do trajeto a pé e parte com a ajuda de desconhecidos. Em determinado momento da viagem, ouviu que o Porto de Santos – o maior do Hemisfério Sul – poderia ser uma oportunidade para seguir viagem rumo a outros continentes. Tentativas de seguir viagem Já em Santos, Karl passou a frequentar a região portuária na tentativa de embarcar em navios que cruzassem o Oceano Atlântico. Sem documentos, no entanto, era impedido de seguir viagem. Sem conseguir avançar na jornada, o canadense passou a viver em situação de rua na região central da cidade da Baixada Santista. Karl era visto com frequência nas proximidades da Catedral e do Canal 3, onde recebia ajuda de comerciantes, moradores e equipes de assistência social. Órgãos públicos chegaram a oferecer suporte, incluindo a emissão de documentos para regularização no país. Karl, porém, recusava, dizendo que “não precisava de identidade para cumprir a missão”. Mudanças de comportamento Descrito como educado e discreto, Karl evitava incomodar e, muitas vezes, recusava ajuda. Com o passar do tempo, no entanto, seu comportamento mudou. Conforme noticiado por A Tribuna em junho de 2024, o canadense foi assaltado e criminosos levaram todo o dinheiro que ele havia juntado. Após isso, passou a se isolar, reduziu a comunicação e, em determinado momento, deixou de falar completamente, se expressando apenas por gestos. Também houve piora no seu estado físico. Desfecho silencioso A travessia de milhares de quilômetros, guiada pela ideia de que a bondade das pessoas seria suficiente para levá-lo até o outro lado do mundo, terminou de forma silenciosa em uma rua de Santos. Conforme o boletim de ocorrência, Karl morreu no dia 9 de junho de 2024, aos 39 anos, após ser encontrado desacordado na Rua Braz Cubas, no Centro. Equipes do Serviço de Atendimento Móvel de Urgência (Samu) constataram o óbito no local. O laudo necroscópico apontou como causa da morte tromboembolismo pulmonar – obstrução de uma artéria nos pulmões por coágulo sanguíneo. Não havia sinais de violência. Sem documentos, o corpo foi registrado como desconhecido e sepultado gratuitamente no Cemitério da Areia Branca, em 18 de junho de 2024. A identidade só foi confirmada meses depois, quando familiares, que vivem em Vancouver, no Canadá, reconheceram Karl a partir de uma reportagem publicada por A Tribuna. Uma vida em movimento Karl nasceu em 25 de dezembro de 1982, em Surrey, na Colúmbia Britânica, no Canadá. Segundo os pais, cresceu em uma família grande e acolhedora, marcada por tradições culturais de origem alemã menonita e holandesa. “Somos canadenses de primeira geração, nascidos de refugiados europeus que fugiram da Segunda Guerra Mundial”, contou Heidi Van Roon, mãe do canadense. Heidi relatou que, na juventude, o filho desenvolveu um estilo de vida pouco convencional. Após terminar o Ensino Médio, passou a viajar frequentemente, muitas vezes atravessando países pedindo carona e vivendo em comunidades diferentes. Seu mantra era “a estrada provê”. “Em cada nova comunidade, assumia uma profissão diferente para se sustentar, ser generoso e fazer amizades profundas. Tudo sempre se resolvia para ele. Sempre encontrava bons empregos e conhecia algumas das pessoas mais amorosas, gentis e brilhantes do mundo”, recordou a mãe. Ao longo dos anos, Karl trabalhou em diversas profissões e viveu em vários lugares da América do Norte e da Europa, incluindo Áustria, México e Noruega. Segundo a família, ele buscava compreender seu lugar no mundo por meio de experiências comunitárias, espiritualidade e uma vida simples. Durante as viagens, era comum que Karl deixasse para trás seus pertences e interrompesse contato com familiares por períodos prolongados, como parte de práticas espirituais que incluíam silêncio, simplicidade extrema e serviço voluntário. O último contato da família com Karl ocorreu em julho de 2022, quando ele estava nos Estados Unidos. Na época, o canadense havia passado meses como voluntário em uma missão comunitária no estado de Luisiana. Depois disso, desapareceu novamente. Último contato de Karl com a família foi em Luisiana, nos Estados Unidos. De lá, seguiu até Santos (Reprodução) Filosofia de vida Mesmo diante das dificuldades, Karl mantinha uma visão de mundo baseada na confiança e na generosidade. Uma frase que repetia com frequência resume esse pensamento: “O amor torna a vida agradável. Seja gentil consigo mesmo e com os outros”.