[[legacy_image_19310]] Não precisa muita atenção para reparar que as paredes de Santos têm servido de tela para muitos artistas. Basta ver o colorido que tem invadido a cidade. São traços realistas, modernistas, minimalistas, abstratos, enfim, é a mensagem das cores que surgem através de mentes e mãos de artistas que têm colocado o seu talento e sensibilidade literalmente à mostra. Entramos no mundo deles, para entender melhor seus pensamentos. Clique e Assine A Tribuna por R\$ 1,90 e ganhe acesso ao Portal, GloboPlay grátis e descontos em lojas, restaurantes e serviços! O muralista paulistano Eduardo Kobra esteve em outubro deste ano por aqui. Veio para a inauguração do painel 'Coração Santista', de 800 metros quadrados, que está no Santos Convention Center. Ele diz que hoje, depois de centenas de murais pintados pelo mundo, acredita que por colocar verdade no que pinta, as portas se abrem. "As minhas obras surgem dentro do meu coração, daquilo que eu acredito, de inspiração. Muitas vezes são até pensamentos ou orações, e só deixo fluir", explica. Gabriela de Miranda Santos nasceu e trabalha aqui. Ela assina suas obras como Gabi Mirandas, e em seu instagram a artista registra até o passo a passo dos locais onde atua. "Desde os 15 comecei a comercializar artes em quadros e camisetas pra amigos, com 18 anos fiz meu primeiro mural, e mesmo começando a ter mais trabalhos ainda achava que era hobby. Só quando conclui a faculdade de arquitetura, em 2016, que me joguei na arte, onde sigo até hoje!", explica Gabi. A artista conta que tem seus traços em muitos lugares: "Rota Santista, TUcasa, Mr. Dantas, La Brigoderia, Jeep Colorado de Praia Grande, Surftrunk, também tenho trabalhos na praça Palmares e orla de Santos, onde pintei uma obra para o projeto Muretas da Cidade, está ao lado do canal 1". Carlos Roberto, o "Catts" é de Praia Grande mas seus murais estão por toda a baixada. O projeto "Arte na Rua" já coloriu várias escolas da baixada e o Jardim Botânico de Santos: "Em 2014 fiz meu primeiro painel em São Vicente, e no mesmo dia recebi o convite pra pintar no mercado municipal da cidade. Fiz alguns escolas infantis, o que me levou a dar aulas de arte, e em seguida ser convidado a trabalhar na Secretaria de Cultura da cidade", conta ele. O paraibano Willis Cavalcante, conhecido apenas como Willis, está na baixada há 30 anos. Ele tem 52 anos e desde os 12 trabalha com arte. "O trabalho que fiz em Santos e provavelmente muita gente já viu é a fachada do Conselho Tutelar. O que eu gosto é de passar positividade e alegria através do meu trabalho", diz o artista. Ele conta que o que mais gosta é de pintar crianças e mulheres, de preferência com muitas cores. Catts, que pinta escolas, conta que a preferência é por sentimentos bons, e Gabi trabalha nos detalhes e versatilidade. "Por transitar em diversas superfícies, me dão várias atribuições: Artista visual, artista plástica, pintora, mas se precisasse definir, sou mais Muralista, pois tenho grande foco na arte em murais." Inspiração Kobra não abre mão da liberdade para criar nos trabalhos que faz. "A criatividade é infinita, a gente sempre pode fazer algo diferente. Eu procuro sempre pintar 'com meu próprio pincel', e criar as minhas próprias pinturas dentro do meu caminho". Ele diz que cada artista de rua tem o seu propósito, seu objetivo. "Uns utilizam o spray, o compressor, o rolinho, técnicas diferentes, colocam mensagens, nomes, grafites, murais, e é difícil saber o que move cada um deles. Até o risco de ser preso faz parte de algumas realidades das ruas", conta Kobra. Há também quem busque identidade com o cliente, explica Gabi. É preciso sensibilidade para conseguir enxergar com os olhos de outra pessoa, para que o resultado seja o que o cliente imaginou". Já Catts, chama atenção para as reações: "A sensação é muito gratificante. Não só de ter a imagem ali na parede reproduzida, mas observar a reação das pessoas ao ver o resultado". O amor pelo trabalho e pelas tintas faz com que Willis mantenha cursos gratuitos para quem quiser aprender as técnicas que ele usa. Ele costuma ensinar também as etapas: "Primeiro tem a pesquisa do local, analisar o que pode ser criado, aí vamos para o desenho no papel, coloco as cores, e tudo que pode ser feito. Minha esposa me ajuda muito nas ideias também, até que partimos para a realização do trabalho". Pintura perfeita A mesma pergunta encerrou as entrevistas dos quatro participantes: "Se você pudesse desenhar qualquer coisa, e a parede fosse o nosso planeta inteiro, e o que pintasse, pudesse se tornar real. O que você desenharia?" Vamos às respostas: [[legacy_image_19311]] Catts É uma pergunta pra gente parar e refletir. Talvez algo que remeta a sentimentos bons, e que faça as pessoas perceberem a importância de um sorriso, de fazer bem ao próximo. Se a pintura se tornasse real, teríamos um mundo com bem mais harmonia. [[legacy_image_19312]] Willis Eu certamente iria fazer algo relacionado à igualdade social. E seria ótimo se realmente se tornasse realidade. Gostaria muito que não houvesse tanta desigualdade social e preconceito. Tiraria do meu painel tudo que é ruim, e só restaria beleza e bondade". [[legacy_image_19313]] Kobra Eu pintaria um painel onde as pessoas não fossem julgadas pela cor da sua pele, pessoas juntas, unidas. Talvez compartilhando a comida, bens materiais, respeitando os caminhos que cada um decidiu seguir. Um painel mostrando toda a beleza do mundo, das culturas, tradições, natureza. Sem dúvida, um painel com menos desigualdade e violência. E até parece utopia, mas acho até possível, principalmente se houver fé. [[legacy_image_19314]] Gabi "Eu acho que a arte é um respiro na vida de muita gente, no cinza das cidades, na correria do dia dia. Ela acaba pedindo um tempo, uma pausa pro observador digerir o trabalho. Acho que essa é uma das minhas maiores missões da carreira. Em cada trabalho trazer esse minuto de questionamento. Não tenho exatamente uma arte dos sonhos, mas desejo novos desafios, murais mais altos, mais distantes, supeficies novas, e poder fazer isso até onde puder. Não é igual viver?"