Das 11 mil fatias preparadas para distribuição, cerca de 700 costumam sobrar e acabam doadas em Santos (Sílvio Luiz/AT) Massa fofinha, doce de leite cremoso, marshmallow branquinho e uma porção de amor, devoção e fé. Esses são os ingredientes para fazer as 11 mil fatias do tradicional bolo de Santo Antônio que serão vendidas nesta quinta-feira (13) na Basílica Menor de Santo Antônio do Embaré, em Santos. Nos últimos dias, mais de 40 voluntárias se dedicaram à produção do doce que há cerca de 45 anos serve de ‘instrumento’ para a popular tarefa de distribuir as medalhinhas do santo casamenteiro a quem procura um grande amor. Clique aqui para seguir agora o canal de A Tribuna no WhatsApp! Para o bolo ser servido nesta quinta, o trabalho começa cinco dias antes, a partir da fabricação da calda, que é feita à base de açúcar, canela, cravo, casca de maçã, uva passa e ameixa. Tudo é apurado e, depois de pronto, refrigerado para poder molhar a massa do bolo. O passo seguinte é bater o doce de leite. Ao todo, 700 quilos precisam ser batidos para que o recheio fique menos denso ao ser espalhado no bolo. Em seguida, são recebidas 300 placas da massa assada, que será molhada com a calda e dividida ao meio para receber as 3 mil medalhinhas e o doce de leite. Por último, o bolo é coberto e decorado com uma mistura que leva 60 litros de clara de ovo, açúcar e uma mistura emulsificante, que vira uma espécie de marshmallow. Para ser vendido, é cortado e colocado em embalagens individuais e, logo depois, levado a uma sala refrigerada, onde fica até ser entregue aos fiéis. Produção a mil Quem comanda toda essa produção há cerca de 45 anos é Zélia Carreira Coelho. Ela, que tem 86 anos, conta que tudo começou a partir de uma tradição entre um grupo de amigas. Todo 13 de junho, Dia de Santo Antônio, elas tinham o costume de, cada uma, chamar mais 13 colegas. Todas precisavam levar um bolo ou doce para vender em frente à paróquia. Tempos depois, Zélia foi convidada para fazer parte da liga de Santo Antônio na comunidade. Nas reuniões, via que uma das senhoras que participava trazia bolos de chocolate para o café e se juntou para fazer mais e vendê-los. “Alguns deles já tinham medalhinhas. Depois, passamos a doar esses bolos. Cada pessoa da comunidade trazia um para ajudar. Um dia, uma senhora chamada Margarida trouxe um bolo branco enfeitado de chocolate e colocou uma bandeirinha escrito Bolo de Santo Antônio. Nasceu a tradição”. Ela conta que a dificuldade sempre foi assar a massa, pois a paróquia não possui fornos suficientes. Por isso, pediram as placas da massa assada e pronta para rechear e decorar. Já as medalhas são compradas pelas voluntárias ao longo do ano e depois envolvidas em papel filme para serem colocadas na massa. Em cada placa de bolo, são distribuídas 12 medalhas. Sobras Nesta quinta, os bolos são vendidos e somente as fatias que sobram acabam doadas a entidades ligadas à Igreja. Todo ano sobram em média 700 fatias, que depois são distribuídas, conforme explica o frei Paulo Henrique Romero. É ele quem passa para Zélia o pedido de quantas fatias devem ser produzidas todos os anos. “É um esforço que é feito pela graça de Deus. É uma alegria estar aqui e isso que me move para realizar este trabalho ao longo de todos estes anos”, afirma Zélia. Quem também se dedica há mais de três décadas a este trabalho é a Nice Lopes Alonso, de 78 anos, que fazia parte de um grupo de oração da comunidade quando foi convocada para fazer parte da equipe. “É uma satisfação fazer esse trabalho junto com as meninas. Embora haja o cansaço, Deus recompensa”, comenta a voluntária. Amor A história com a medalhinha de Santo Antônio vai além do tradicional bolo. Zélia conta que, quando jovem, também foi pedida em casamento e deu início a uma história de amor que até hoje, ao ser contada, emociona quem a escuta. “Comecei a namorar meu marido com 16 anos, mas nunca tive o sonho de casar. Na época, ele tinha 27 anos. Quando fiz 17, ele me deu a medalha porque eu era devota de Santo Antônio e aceitei me casar com ele”, conta ela, segurando o objeto de lembrança, que hoje fica guardando em uma caixinha que leva em sua bolsa para todos os lugares. Zélia explica que fez um pedido a Deus para que o homem que fosse seu marido tivesse muitas qualidades como José. “Meu marido era justo, responsável, amoroso e com ele permaneci casada por 47 anos, até que fiquei viúva. Tudo isso pela intercessão de Santo Antônio, que sempre nos guiou e norteou”. Significado Por que Santo Antônio é conhecido como o santo casamenteiro? Frei Paulo Henrique Romero explica que, antigamente, para as moças se casarem, eram oferecidos dotes e o santo ficou conhecido por ajudar as mulheres que eram pobres. No entanto, depois da morte dele, mulheres e homens solteiros reverberaram a tradição de rogar a Santo Antônio pedindo pelo casamento. “Esse bolo virou uma tradição aqui na comunidade. Existe a crença de que quem compra o bolo e encontra a medalhinha vai se casar. Eu realmente já assisti a quatro casamentos de mulheres que encontraram a medalha”. Nascido em São José do Rio Preto (SP), o frei conta que, desde pequeno, toda a sua família era devota do santo. Hoje, o destino o levou a administrar a paróquia que leva o nome de Santo Antônio, de quem tem referências desde antes de se confirmar sua vocação sacerdotal. “Ver a comunidade se reunindo para fazer este trabalho é uma alegria imensa”. Serviço Os bolos são vendidos na secretaria paroquial, que fica na Basílica, por R\$ 10 a fatia. Hoje, interessados ainda poderão comprar o bolo, que será vendido em uma tenda em frente à Igreja, na Avenida Bartolomeu de Gusmão, 32, Embaré, Santos, das 8h às 19h.