[[legacy_image_285189]] Quanto amor cabe num coração? Quais sentimentos são colocados num objeto de tecido, decorado com capricho e que, durante seu feitio, une pessoas de caminhadas tão distintas e, ao mesmo tempo, tão parecidas? E que, no próximo dia 6 de agosto, na Praça Mauá, em Santos, marcarão presença numa partilha de sentimentos tão grande quanto o amor que cabe em cada um deles. A 12ª edição da Ação do Coração começa muito ante do evento. Nas oficinas, onde os mimos são feitos, as emoções se renovam. A iniciativa arrecada alimentos não perecíveis, roupas, brinquedos e corações confeccionados em tecido - símbolo da campanha - para distribuição em comunidades em situação vulnerável na Baixada Santista, Vale do Ribeira e núcleos de oito estados (São Paulo, Rio de Janeiro, Minas Gerais, Pernambuco, Alagoas, Sergipe, Espírito Santo e Paraná) e no Distrito Federal. A Tribuna acompanhou um grupo que prepara os corações, que fica no Shopping Parque Balneário, em Santos. O sorriso aberto das voluntárias deu o tom do encontro. “Aqui se juntam a nós pessoas que se identificam com essa troca de amor. E esse coração, a gente preenche com amor, colocando dentro dele todo o sentimento. De carinho com as pessoas, de saúde, a gente deseja. Quem receber, vai sentir essa nossa sintonia”, explica a bancária aposentada Iara Ribeiro da Luz . Em 2014, ela se deparou com um grupo de pessoas fazendo flores, dobrando as fitas pra decorar os corações. Achou tudo lindo e, desde então, atua como voluntária- desta vez, foi designada como coordenadora. Além da interação com as pessoas que atuam na oficina, ela conta que o espaço, aberto, é capaz de contagiar até quem está de passagem – e nem é daqui. “Em julho, mês de férias, tem muita gente de fora que vem e admira o trabalho. Dia desses, uma moça de Ribeirão Preto ficou tão encantada com o projeto que ela entrou em contato com o Alexandre (Camilo, idealizador da Ação do Coração) e falou que ia levar isso pra lá”, exemplifica. Como contagiadas foram as amigas Yasmin Dores e Isabella Gouveia Cosme. As estudantes de 21 anos contam que passavam pelo shopping, onde entregavam currículo, e resolveram entrar na oficina dos corações. A identificação foi imediata, proporcional à satisfação de participar de algo marcante. “Eu já participei quando eu era mais nova. Minha mãe, faz um bom tempinho, eu lembro que foi até a entrega na Praça Mauá. Aí depois eu nunca mais participei. Aí, a gente estava passando por aqui, aí a Isa virou pra mim e falou, ‘Vamos lá fazer coração?’ De repente assim, bateu”, explica Yasmin. A amiga complementa. “Eu vou depositar todo o meu amor no meu coraçãozinho para a pessoa que pegar. E, se eu pegar das minhas companheiras, com certeza vou ficar feliz. Vou guardar com muito carinho, porque é uma recordação de um momento feliz”. Há, ainda, quem tenha se motivado por conta de reportagens, como a dona de casa Rosa Maria Correia da Silva Veiga. Ela vem de São Vicente todos os dias para dar sua contribuição à campanha. Em troca, recebe bons momentos e faz amizades. “Estou ficando triste porque está terminando (a confecção dos corações). O bom é que a turma de São Vicente continua junta. De vez em quando, a gente marca um chopinho no shopping. Tem até um grupo de Whatsapp, das ‘novinhas’”, brinca. SolidãoOutro caminho que levou aos corações é buscar acabar com a solidão, como ensina a auxiliar de serviços gerais aposentada Pedrina Aparecida de Souza, de 64 anos. Ela, que começou a participar em 2014, contava apenas com os finais de semana livres, por conta do emprego. Então, buscava outras formas de colaborar. Mas foi na pandemia que o senso de necessidade falou mais alto. “Fui dispensada do trabalho aí eu comecei a ficar sozinha em casa, com sintomas de depressão. Conversando com uma vizinha, ela sugeriu que fôssemos à Associação (Eduardo Furkini, promotora da ação), onde ajudaria a separar os alimentos, brinquedo, fazer várias coisas. Foi ótimo porque me tirou daquela solidão”, resume. De quebra, ainda aprendeu a lidar com o jeito agitado de Alexandre Camilo. “Ele é aceleradíssimo (risos). Já dona Regina (mãe de Alexandre e Eduardo) é uma calmaria. Às vezes ajudam a puxar o barco, porque sabe a presença de quem representa tudo aquilo traz um ânimo diferente. As pessoas têm que participar pra saber como é”, resume. GratidãoAlexandre Camilo não esconde a satisfação com o empenho dos voluntários da Ação do Coração. Ele enaltece o empenho de todos, numa soma de esforços e sentimentos que preenche até os corações mais machucados pela vida. “O trabalho voluntário é essencial para qualquer ser humano. Mas, especialmente, as fazem um trabalho incrível na Ação do Coração. Porque há um acolhimento e um trabalho com escuta, quando um voluntário se propõe a ensinar o outro a costurar. O próprio trabalho manual já leva a pessoa para dentro de si. E, ao ensinar uma criança ou um trabalhador como pegar na agulha ou colar, colocar seus melhores sentimentos num coração, esse trabalho de doação é incrível. Porque, quando uma pessoa está fazendo bem para alguém, ela é a primeira beneficiada”, define o idealizador da Ação. ProgramaçãoA Ação do Coração atinge sua 12a edição no próximo dia 6 de agosto, domingo, das 10h às 17h, na Praça Mauá. A organização espera reunir mais de 120 mil corações de tecido na Praça Mauá. Além do Shopping Parque Balneário, outras oficinas estão em andamento (Supercentro Boqueirão e Festa Inverno Criativo, no Valongo. A Ação conta ainda com a parceria de oito unidades da Fundação Casa 26 hospitais. O tema da edição deste ano é Viva Plenamente o Dom da Vida Com Amor, com foco na saúde mental. “Neste tempo em que vivemos, é preciso cada vez mais falar sobre a saúde mental, tão comprometida pelo quanto somos exigidos no dia-a-dia e pela fragilidade das relações que temos construído”, ressalta Camilo. Este ano haverá um grupo de seis profissionais das áreas de programação neurolinguística e hipnoterapia para atender o público presente à Praça Mauá com técnicas para alívio de dor, tensão e desgaste emocional. A iniciativa, batizada de Escuta Com O Coração, será coordenada pela master trainer Daniela Vieira dos Santos. A estrutura do evento deve contar, pelo segundo ano consecutivo, com a Rua Pets, com serviços e cuidados para animais domésticos, e a Rua Kids, um espaço de lazer para as crianças, ambos gratuitos. Outros eventos acontecerão antes mesmo do próximo domingo. I Movimento Inter-religioso Pela Cidadania, que congrega representantes de diversas correntes religiosas, participa da “Oração do Coração”, na Praça Mauá, às 11 horas – o ato celebra o Dia da Ação do Coração, instituído pela Lei Municipal 2.884, de 19 de dezembro de 2012. Já na quinta-feira (3), o Cine Roxy realiza a “Sessão do Coração” nas salas Roxy 5 (Santos, 19 horas) e Brisamar Roxy 6 (São Vicente, 20 horas). Em ambas, os ingressos poderão ser trocados por um brinquedo em bom estado ou 1 kg de alimento não perecível nos respectivos cinemas, a partir das 18h. HistóricoEm nove edições presenciais e duas online (2020 e 2021, devido à pandemia da Covid-19) a Ação do Coração reuniu mais de 235 mil pessoas e distribuiu mais de 1,1 milhão de corações confeccionados por seus voluntários, além de mais de 206 toneladas de alimentos, 50 mil brinquedos e 260 mil peças de roupas. Há três anos, o aplicativo oficial da campanha, disponível para celulares do sistema Android e IPhone, também recebe as doações. A campanha foi criada por Alexandre Camilo em memória do irmão, o ator Eduardo Furkini (1979-2011) após terem presenciado juntos uma ação semelhante em uma viagem à Europa e projetarem realizá-la um dia no Brasil. Fundada em 2011, a Associação Eduardo Furkini é a realizadora da iniciativa desde então.