(Vanessa Rodrigues/AT) Praia Grande tem se tornado referência em crescimento, inovação e transformação. O destaque fica para o aumento significativo no número de moradores, que já ultrapassa o incremento verificado nos outros municípios da Baixada Santista. O cenário, conforme destaca o prefeito Alberto Mourão (MDB), é efeito colateral de um local que fez a lição de casa e melhorou a qualidade de vida da população. No entanto, é importante estar preparado para manter a conquista, sempre com novos avanços. Em entrevista para A Tribuna, Mourão falou sobre o novo comportamento do consumidor no pós-pandemia, inclusão, tecnologia e, ainda, respondeu aos anseios dos moradores. Acompanhe. Praia Grande completa hoje 58 anos. Quais mudanças mais evidentes podem ser destacadas nesse aniversário? A gente viu um momento de mudança após a pandemia e o comportamento da sociedade acabou interferindo no dia a dia. Temos muita gente nova morando na Cidade e que está trabalhando em São Paulo. São pessoas que usam a cidade para viver, ocupar o serviço público e de infraestrutura em geral. Isso, automaticamente, gerou mais demanda de coleta de lixo e de outras áreas. Nos últimos quatro anos, tivemos um crescimento de 45 mil pessoas. Além disso, em 2020, começou gradativamente o delivery. O e-commerce foi ficando fortalecido, o mundo se organizou. Você hoje tem centenas de pessoas trabalhando como entregadoras. Elas precisam de apoio. Os pontos de apoio são uma pressão que a gente começa a perceber. Também aumentou a oferta de lixo, porque as pessoas estão comprando mais pelo e-commerce, então usam mais embalagens. Isso gera mais lixo, um lixo que felizmente pode ser reciclado, então eu vejo que a gente aumentou o volume de lixo, mas não o volume de reciclagem. Precisamos buscar um equilíbrio ambiental. Também percebemos que sempre há pessoas na Cidade durante a semana. Além disso, aumentou bastante a população de sexta-feira. Arriscaria dizer que é o dobro do que tínhamos em 2019. Diante disso, estamos percebendo que a coleta de lixo nos fins de semana precisa ser repensada, pois encontramos bastante lixo descartado aos sábados e domingos na rua e isso não é o ideal, pois se chover, vai para o bueiro, depois isso pode desaguar no mar e criar problemas de balneabilidade. Temos que interferir nisso. Ao mesmo tempo, certamente, ainda há muito a ser feito. O que a população pode esperar? A primeira medida é entender a questão do orçamento, como estão as despesas de ordem continuada, se elas são necessárias, entender que elas podem ser reduzidas sem criar desserviço à sociedade. Estou fazendo levantamento das demandas em cada secretaria, em especial nas de educação, saúde, habitação e mobilidade urbana. E a questão ambiental, que é saneamento, coleta de lixo, a limpeza urbana e na posse responsável dos animais. A geração de empregos é fundamental para que possamos absorver dentro de uma lógica. Tem a questão da infraestrutura, da abertura de novas avenidas, a marginal, a perimetral da Curva do S, que liga o Nova Mirim com a região do Santa Marina e com Quietude. Com isso, você tem uma mobilidade maior, pode ativar o segmento comercial naquela região, industrial e empresarial. A gente pensou em entrar no projeto Andaraguá para gerar 15 mil empregos, agora com a presença do reforço de energia na Baixada Santista, e com a existência de 14 cabos de fibra óptica internacional. Vamos dialogar com o setor que pode aproveitar essas duas infraestruturas para atrair novas empresas. Na atividade retroportuária, sabemos que temos ainda disponibilidade de mais de 4 milhões de áreas capazes de recepcionar atividades complementares à atividade portuária de Santos, tanto como ter a Zona de Processamento de Exportação como terminais retroportuários, para incrementar a economia e a receita. Uma das dificuldades enfrentadas pela população é o acesso à Cidade. Os moradores enfrentam congestionamentos diários para sair e entrar no em horário de pico. Há algum planejamento voltado a essa questão? Eu já fiz uma ordem de serviço à Secretaria Municipal de Transporte e Trânsito para que, em conjunto, mapeie todos os gargalos que estrangulam o sistema de trânsito e interferem no transporte coletivo, criando um tempo maior de deslocamento. A gente sabe que tem uma ordem de serviço para acompanhar o trabalho final, de elaboração do projeto executivo do viaduto da Curva do S, que liga a Via Expressa Sul com a Rodovia Padre Manuel da Nóbrega, para atender aquelas 65 mil pessoas que moram na região do Trevo, com Melvi, Samambaia, Esmeralda e Ribeiró-polis. Esses quatro bairros têm um peso grande na população de Praia Grande, 20% moram ali, e a gente tem congestionamentos enormes todo dia. Esse viaduto já é esperado há muitos anos. A última informação é que está na fase final de projeto. A gente vai cobrar um cronograma de início dessas obras. Vamos conversar com a nova concessionária das rodovias da Baixada Santista, que são a Padre Manuel, a Cônego Domênico Rangoni, para entender como a gente vai enfrentar esse gargalo desde a Avenida Ayrton Senna e na entrada da embocadura da Imigrantes. Ali a gente tem que buscar uma terceira faixa na saída e uma na chegada para criarmos um sistema de rolagem mais eficiente. É um diálogo que nós vamos ter com a Ecovias, com as duas concessionárias, para acharmos uma saída alternativa que eu possa levar ao Governo do Estado, como o aditamento do contrato de ambas para poder fazer essas obras complementares para mitigar os gargalos. O alto valor do IPTU é outra reclamação dos moradores. Há a possibilidade de redução ou medidas como escalonamento, assim como em outras cidades? Neste momento, não terá aumento de imposto, mas não há possibilidade de reduzir, senão a gente vai ter que cortar despesas e não queremos diminuir investimentos de saúde e educação. Vamos trabalhar para trocar essa matriz econômica. Quando você crescer a economia, é óbvio que você pode fazer essa mudança. Então, a gente precisa chegar nos próximos anos com um crescimento econômico que nos permita reduzir o IPTU. O esforço vai ser nesse caminho. A Praia Grande recebe uma demanda grande de turistas durante o verão. Existe algum projeto para ampliar a quantidade de banheiros na orla, assim como a instalação de chuveiros? Em relação aos banheiros, eles foram estabelecidos dentro de uma lógica. A gente tem 18 banheiros, acho que uma quantidade maior do que em muitas das praias da região. Só que eu não posso construir uma barreira. Eu tenho quiosque, banheiros, escolas de surfe e espaços kids. Daqui a pouco tem uma parede fechando a praia. Então, não há condições de fazer novos banheiros, sob pena de a gente acabar com o nosso urbanismo. Quanto ao chuveiro, o grande problema é que eu tenho mais de 22 quilômetros de praia e 2 milhões de pessoas na cidade na temporada. Eu acho legítimo lavar os pés. Mas se a gente olhar algumas cidades, vamos ver que o chuveiro acabou atraindo a população em situação de rua. (Vanessa Rodrigues/AT) A segurança pública é sempre prioridade entre os anseios da população. Existe algum projeto, em parceria com o Governo do Estado, para aumentar o efetivo policial de forma definitiva, não apenas na Operação Verão? A segurança pública é uma obrigação do Estado. A gente vai continuar lutando para que a proporcionalidade do efetivo da Polícia Militar seja sempre no mínimo 20% maior que o efetivo da Guarda Municipal. Eu acho que a gente está defasado em 100 nomes. Vamos continuar lutando para que o governo coloque o efetivo no full. Até porque a cidade tem uma população maior do que o plano estabelecido. Nós avançamos bastante na Polícia Civil, conseguimos a reestruturação, estamos recebendo novos componentes. No meu governo, a gente conseguiu trazer a seccional, a DIG, aumentar o efetivo de delegados. A Guarda Municipal, a partir do dia 1º de janeiro, voltou a fazer o patrulhamento de rua, de forma que só nessa caminhada foram mais de 120 guardas que retornaram para o patrulhamento, uma determinação que sempre tive, e voltei a fazer para melhorar. Gradativamente, a gente quer dialogar com o Estado a possibilidade de criar a Operação Delegada. Determinei à Secretaria Municipal de Segurança que estabelecesse um programa permanente de análise dos riscos de ocorrência. A gente quer que eles sejam digitalizados e, a partir disso, teremos informações privilegiadas Queremos trabalhar com mais ciência, pesquisa, informação e ampliar as câmeras instaladas em duas mil unidades, prioritariamente nos locais mais aglomerados e onde as pessoas compram sucata. O Censo de 2022 apontou que Praia Grande apresenta a maior quantidade de novos moradores em toda a Baixada. Como a cidade tem acompanhado esse crescimento? Se você não se antecipa, você vai baixando a qualidade de vida daqueles que moram aqui. Essa é a minha preocupação. Eu acho que a gente tem que crescer mais economicamente para acompanhar o aumento populacional. Mas isso também é efeito colateral de uma cidade que fez a lição de casa. Infelizmente, isso tem provocado uma corrida maior do que a capacidade que a gente tem para ofertar a melhoria desse serviço. Vamos correr contra o tempo nos próximos quatro anos para resgatar o que ocorreu no pós-pandemia, para atingir e manter a qualidade de vida conquistada. Ainda dentro desse tema, como tem sido a relação com o funcionalismo público? A sociedade é que paga os impostos, ela é o nosso patrão. Servidor são todos os políticos, agentes políticos em cargo de confiança e o contratado em cargo estatutário. Todos servem para a sociedade. Por isso que se chama servidor público. A sociedade não serve a nós, nós servimos à sociedade. Temos que abrir essa consciência e é uma das minhas preocupações, fazer eles entenderem que quanto mais nós prestarmos um serviço de qualidade, com baixo custo, mais a sociedade vai pagar os impostos sem reclamar e mais a gente vai arrecadar para o crescimento econômico, podendo remunerar melhor. É a única equação. Não existe outra. Foram criadas duas novas secretarias, a de Projetos Especiais e Estratégicos e a de Diversidade e Inclusão. Qual o objetivo dessas secretarias e quais temas serão contemplados? Nem sempre é só fazer. É conscientizar. Quando você fala de diversidade e inclusão, a diversidade logo é carimbada de LGBTQIA+, mas não é só isso, porque você tem a exclusão do negro, da mulher, a questão do idoso, que também tem uma segregação social, os PCDs. Quando você cria a secretaria, é para dialogar com as outras no sentido de entender como incluir cada vez mais o processo dessas pessoas e dialogar com a atividade comercial. O comércio pode fazer mais na questão da inclusão dentro da empregabilidade. A secretaria vai vir para lembrar que todos somos iguais. Quando você tem muitos projetos estratégicos, especiais, eles não se encaixam numa única secretaria. Um dos exemplos que talvez nós temos que recuperar é o Andaraguá. Ele ficou perdido na mão do empresariado e nós não cuidamos dele. Perdemos anos por não estarmos mais perto. A secretaria terá esse papel. Como a Prefeitura pretende se aproximar da população por meio da tecnologia? A gente vai avançar bastante no sistema que possa avaliar o atendimento do serviço público. Cada vez que uma pessoa utilizar um dos equipamentos, vai deixar o seu telefone, receber uma mensagem e poderá dar nota de como foi atendido para termos um feedback de como está se comportando a estrutura da máquina, como podemos reduzir os gargalos. Também queremos potencializar os gastos públicos, usando inteligência artificial (IA) para fazer auditoria nos processos de compra. Usar a tecnologia também para confirmar a presença nas consultas. Posso dizer que, com a falta, estou jogando 50% da minha capacidade produtiva na lata do lixo. Outra tecnologia é a central de entrega de remédio. Hoje, a gente tem 42 farmácias. Você tem que ter farmacêutico em todas. Quando falta farmacêutico, fecha a unidade. Se ele está de férias ou licença, fecha e as pessoas ficam sem o remédio. A gente quer fazer essa central para mudar isso.