Fernando Barroso Ratto, valoroso esportista do Saldanha da Gama, entregou à campanha Ouro para a Vitória todas as medalhas conquistadas em diversas modalidades (Reprodução) Santos, 12 de agosto de 1932. O salão da Associação Comercial de Santos (ACS) estava repleto de cidadãos santistas empenhados em fazer a campanha do ouro dar certo na cidade. Lançada na Capital dias antes, a meta era arrecadar donativos e peças de ouro e prata para apoiar a causa revolucionária paulista. Às 10 horas daquele dia, o prefeito de Santos, Aristides Bastos Machado, junto com outras autoridades, inaugurou oficialmente o Departamento do Ouro da Vitória. Clique aqui para seguir agora o novo canal de A Tribuna no WhatsApp! Em breves palavras, o presidente da comissão executiva, padre João Baptista de Carvalho, declarou aberta a nova seção de trabalhos na ACS, destinada a receber donativos em ouro e outros metais preciosos. Em seguida, dirigindo-se ao povo reunido em frente à sede, explicou a importância patriótica da campanha, que começava com grandes expectativas. O padre destacou a importância de participação de pessoas de todas as classes sociais na campanha Ouro para a Vitória, doando joias e objetos preciosos em apoio à causa revolucionária. Carvalho elogiou os gestos de desprendimento e patriotismo até então demonstrados pelos cidadãos, ressaltando o valor moral dessas contribuições. Seu discurso também fez uma comparação histórica com a resistência de países como Bélgica e França durante a Primeira Guerra Mundial, destacando a importância da resistência moral e material para alcançar a vitória. Ele lembrou que a guerra não se resumia apenas aos soldados na trincheira, mas também envolvia o esforço contínuo das populações, da administração do Estado, do comércio e da indústria. O padre conclamou os santistas a manterem a moral elevada, a resistirem e a persistirem, utilizando todos os recursos disponíveis, tanto materiais quanto morais. Sublinhou que a luta pela liberdade e pela justiça exigia dedicação e sacrifício de todos, destacando o papel vital das mulheres e das famílias no apoio à causa. Sua fala calorosa e eloquente foi muito aplaudida. O evento foi ainda abrilhantado pelas bandas de música do Corpo de Bombeiros e dos alunos do Instituto Dona Escolástica Rosa. O grupo dos Escoteiros Católicos também participou, realizando uma passeata pela cidade e retornando em frente à Associação Comercial. Doações de clubes Nos dias que se seguiram, quilos de ouro, prata, bronze e outros metais eram doados ao esforço de guerra, sendo recolhidos na ACS. Os clubes esportivos, culturais e sociais de Santos e região eram os maiores contribuintes à causa. O Vasco da Gama, por exemplo, fez uma doação notável ao oferecer todos os troféus e medalhas que havia conquistado até aquele momento. O valioso conjunto incluía medalhas de ouro de 24 quilates, medalhas de prata com bordas em ouro, medalhas de prata e bronze, além de 39 troféus e 17 peças de bronze. O Internacional de Regatas se desfez de 338 medalhas, sendo 26 de ouro, 131 de prata e 80 de bronze. Entre as de ouro, destacavam-se uma com três brilhantes, conquistada em 1911 e doada pelo Café Paulista, sete do Campeonato de Remo do Estado de São Paulo e três da Taça Câmara Municipal de Santos. A lista dos clubes era grande, incluindo agremiações de todos os portes, desde Santos Futebol Clube, Saldanha da Gama, Tumiaru de São Vicente, Portuguesa, Hespanha (Jabaquara), Regatas Santista, Atlético Santista, até os menores, como o Clube da Esquina, dos Armazéns Gerais, Águia Futebol Clube, Esporte Clube Senador Feijó, São Bento e Itapema, entre outros. Grupos carnavalescos, como o Tricanas de Coimbra, Bloco das Misses e Sapeca Choro, também participaram. Artistas e atletas O número de atletas de diversas modalidades esportivas e artistas de vários segmentos culturais que aderiram à campanha foi grande. Todos doaram suas medalhas e troféus conquistados ao longo de suas carreiras. Para o registro oficial, eram montados cenários com bandeiras, fotos dos doadores e outros objetos, tornando o gesto conhecido pelo público. Quase todos os remadores dos clubes de regatas participaram da missão, assim como atletas do futebol. No campo cultural, poetas e músicos também deram sua contribuição. Muitos artistas plásticos doaram quadros e outras peças artísticas, que foram leiloadas para arrecadar fundos para o esforço de guerra. Um exemplo de amor à causa paulista foi o do atleta Fernando Barroso Ratto, do Saldanha da Gama, que entregou à campanha Ouro para a Vitória todas as suas medalhas de ouro, prata e bronze conquistadas em diversas modalidades. Metade da meta batida Ao término da arrecadação, em setembro de 1932, Santos já havia registrado mais de 7 mil contribuintes, resultando em aproximadamente 60 kg de ouro, equivalentes a 0,5 grama por pessoa (naquele período, a cidade tinha cerca de 120 mil residentes). A meta inicial era de 1 kg por pessoa, mas o número alcançado foi considerado um grande sucesso. Convertendo para o valor atual do ouro (R\$ 423,55 na última semana), o montante arrecadado em 1932 seria equivalente a R\$ 25 milhões. Uma baita contribuição de Santos à causa. Destinação Todas as peças de ouro, prata e bronze eram derretidas e vendidas. Com o dinheiro obtido, os paulistas compraram capacetes, armas, balas de canhão, alimentos, medicamentos e roupas. O doador recebia um anel gravado com o símbolo da revolução ou um diploma que atestava seu compromisso com a causa. Santa Casa Nem todo o ouro arrecadado foi utilizado no esforço de guerra. Com a rendição de São Paulo, em 1º de outubro de 1932, parte do ouro coletado em Santos foi destinada à Santa Casa de Misericórdia. Esses recursos foram usados para construir um pavilhão a tuberculosos em Campos do Jordão, concluído em 1935. Nesse caso, o ouro, fruto do sacrifício e da colaboração da comunidade, serviu a uma causa de paz e esperança. Nada mais justo na terra da caridade e da liberdade. Sergio Willians é jornalista e pesquisador da história de Santos. Conheça seu trabalho no site.