Os oceanos estão mais quentes, mais ácidos e mais propícios a provocar eventos extremos sobre os continentes, especialmente em áreas costeiras, como as cidades do litoral brasileiro, mas com efeitos também em outras regiões. O alerta surge a partir de um novo relatório divulgado no início desta semana pela Unesco, que traz uma série de informações científicas sobre o estado atual dos oceanos, envolvendo aspectos físicos, químicos, ecológicos e socioeconômicos. Um dos principais alertas do documento envolve a elevação das temperaturas dos oceanos, e não apenas na superfície, mas em águas profundas também. Hoje, com as novas ferramentas de tecnologia, já é possível desenvolver estudos e mapeamento em 25% do fundo dos mares, por isso a certeza de que o aquecimento já atinge os oceanos em suas camadas mais profundas. Em 2023, a alta na temperatura foi de 1,45 grau, e com tendência de alta, o que deve fazer de 2024 um ano ainda mais quente. Entre as várias consequências diretas desse aquecimento estão a eliminação ou transformação da fauna e flora marinhas, a mudança no regime de ventos e correntes marítimas e a menor capacidade de absorver o gás carbônico presente na atmosfera e responsável pelas mudanças climáticas. Síntese de estudos Ronaldo Christofoletti, professor e coordenador do Instituto do Mar, da Universidade Federal de São Paulo, campus Baixada Santista (Unifesp-Baixada), explica que o relatório da Unesco é, na verdade, uma síntese de vários estudos, pesquisas e publicações de pesquisadores de todo o mundo sobre a temática dos oceanos. “É por isso que sempre surgem dados novos, porque a Ciência está fragmentada em várias partes. O estudo da Unesco junta essas partes, é uma síntese com um valor grande para que tenhamos um conhecimento mais completo sobre o tema”. Christofoletti é um dos 99 pesquisadores, de 26 países, que tiveram participação nessa compilação de dados. É o único brasileiro a figurar nessa condição e coordenou o capítulo sobre a cultura oceânica. O professor e pesquisador explica a relação entre os oceanos e as mudanças climáticas. “O gás é jogado na atmosfera e fica preso na camada de ozônio. Assim, ele retem a energia do calor que vem do sol, ou seja, a atmosfera fica quente. Atmosfera quente faz o oceano absorver mais calor, porque essa é a função dos oceanos no equilíbrio do clima. Oceano mais quente provoca o degelo das camadas polares. Aliás, em 2023 o oceano e a atmosfera ficaram mais quentes, gerando a menor quantidade de formação de gelo nos polos. A água quente faz o gelo derreter, provocando a elevação do nível do mar. Além disso, água mais quente tende a se expandir, por isso os impactos nas áreas costeiras têm sido mais extremos”. Correntes e ventos Entender o movimento dos oceanos ajuda a relacionar melhor os efeitos das mudanças sobre as cidades. Ronaldo Christofoletti aponta outro impacto do aquecimento das águas. “As correntes marítimas frias saem da Antártida, sobem pela costa da África e descem quando chegam na zona tropical, atingindo o Brasil já mais quentes por terem absorvido o calor. Oceano mais quente significa menor força das correntes, alterando as massas de ar, com interferência direta na formação dos ventos. Foi isso que ocorreu no Rio Grande do Sul”. No relatório da Unesco há menção aos danos causados por tsunamis, geralmente provocados por terremotos, que podem ser mais catastróficos diante da subida do nível do mar. Além disso, os tsunamis de fontes não sísmicas poderão se tornar cada vez mais um desafio a ser enfrentado Zonas costeiras Para as áreas costeiras dos continentes há um agravante: a deposição de lixo e a contaminação de rios que chegam ao oceano. “As áreas costeiras estão estressadas porque às vezes as águas estão mais ácidas, às vezes mais básicas, o que é péssimo para as espécies marinhas tanto da fauna como da flora”. Educação ambiental é o caminho Para o vice-presidente da Praticagem de Santos, Bruno Tavares, as mudanças vão demorar ainda a acontecer e seus efeitos só deverão ser sentidos pelas próximas gerações, por isso “é imprescindível que as crianças tenham educação ambiental como disciplina obrigatória nas escolas”. Esse é o caminho para que as futuras gerações saibam como viver no mundo que terão pela frente. Bruno acompanha de perto os temas ligados às mudanças climáticas e seus efeitos sobre os oceanos. Como prático há 12 anos, sente no dia a dia as consequências dessa transformação. “A gente que lida com o mar, já percebe a formação de ventos intensos que entram de repente, ondas mais fortes”. O vice-presidente destaca que o esforço da Praticagem tem sido intensificar os mecanismos de refinamento da previsão metereológica, evitando que os profissionais sejam pegos de surpresa com eventos extremos durante as manobras. “Queremos ter sensores e modelos matemáticos cada vez melhores para nos trazer uma previsibilidade maior”. Para Bruno Tavares, governos, empresas, universidades e sociedade precisam estar mais preocupados com o tema das mudanças climáticas. “Não há mais tempo a perder”. Cultura oceânica Ronaldo Christofoletti, professor da Unifesp, também defende a educação como forma de levar mais consciência à sociedade. “Agora todos começam a ter clareza sobre o que está acontecendo”, diz, referindo-se à Década do Oceano, estabelecida pela ONU para dar mais visibilidade ao tema com o objetivo de criar ações que minimizem os prejuízos. A década vai de 2021 a 2030. “O conhecimento está chegando e estão todos ficando impactados”. Ronaldo está em Veneza para participar da Conferência Mundial sobre Alfabetização Oceânica: Conectando Pessoas e Oceano, e pretende levar a experiência brasileira desta década, que vem mobilizando entidades e governos para introduzir esse conhecimento na educação básica.