Pesquisa IPAT mostra que 21,9% dos entrevistados que receberam vídeos ou textos sobre a eleição de Santos repassaram conteúdo sem checar veracidade (Freepik) O início da campanha eleitoral, na última sexta-feira (16), coincide com outro fenômeno do período: a ampliação do fluxo de divulgação, por meio de redes sociais e aplicativos de mensagens, de informações - nem sempre verídicas - a respeito de candidatos ou partidos. A despreocupação de uma parcela do eleitorado com o tipo de dado compartilhado chamou a atenção na última pesquisa realizada pelo Instituto de Pesquisas A Tribuna (IPAT) sobre a disputa eleitoral em Santos, divulgada no domingo (11). Clique aqui para seguir agora o novo canal de A Tribuna no WhatsApp! Uma das questões feitas aos eleitores no levantamento era: “o sr. (a) já recebeu vídeos ou textos nas redes sociais com informações sobre possíveis candidatos a prefeito de Santos?”. No levantamento, 14,4% dos entrevistados disseram que sim, contra outros 85,1% que responderam que não. Aos que responderam afirmativamente à questão acima, foi feita outra: “o sr. (a) acreditou neles passou adiante essas informações sem checar se eram verdadeiras?” Aqui, 21,9% dos entrevistados disseram que sim, enquanto 68,4% responderam negativamente. O fato de pouco mais de um quinto dos que recebem vídeos ou textos simplesmente repassá-los sem nenhum tipo de verificação acende um alerta entre especialistas em educação midiática - conjunto de habilidades que o indivíduo deve desenvolver para conseguir acessar, criar, consumir e participar do ambiente midiático de forma crítica. “A gente vive a era da pós-verdade, com as emoções, ideologias e convicções pessoais se sobrepondo à verdade dos fatos. Isso acaba sendo muito perigoso, porque faz com que a gente acabe se fechando em bolhas informacionais”, afirma a gestora do Instituto Devir Educom e idealizadora do projeto Memórias em Rede, Andressa Luzirão. Ela vê um risco à democracia, agravado pela polarização vivida nos debates políticos e nos ambientes digitais. “Se a gente não tem o discernimento de tentar furar essas bolhas das nossas visões e convicções, o chamado viés de convicção, acabamos confirmando um conteúdo já enviesado, de acordo com as nossas convicções, crenças pessoais, ideologias e visões de mundo”, acrescenta. Educação desde cedo Andressa entende que a educação midiática deve ser aplicada desde cedo nas escolas. “A gente precisa trazer essa perspectiva desde o começo da vida. Claro, respeitando o tempo e a forma de se expressar para cada faixa etária, mas a gente deve formar esse ‘leitor das entrelinhas’, algo que acho que falta muito atualmente”, explica a especialista, citando um estudo recente da Organização para a Cooperação e Desenvolvimento Econômico (OCDE), divulgado em julho e que aponta o Brasil como um dos países mais vulneráveis à desinformação. A Austrália foi a nação com maior habilidade em identificar falsos conteúdos, com quase 90% de êxito nos questionários aplicados. De acordo com a OCDE, a percepção geral da pesquisa foi de que 60% das pessoas conseguem distinguir o que é informação verdadeira e falsa. No Brasil, essa média ficou em 54%. “É importante ampliar o repertório desse sujeito, No caso do eleitor, é sempre bom colocar um ponto de interrogação naquele conteúdo que chegou a ele. Formando para cidadania, esse ‘leitor das entrelinhas’ cada vez mais vai desenvolver essa criticidade para saber discernir se aquele conteúdo tem algum teor ali de manipulação”, complementa. A presidente do Instituto Palavra Aberta, Patrícia Blanco, entende que o índice apontado pelo IPAT, com 21,9% de pessoas dizendo que repassam informações sem checar a veracidade delas, é de fato alarmante. O instituto que ela dirige promove e incentiva as liberdades democráticas, em especial a liberdade de expressão e a livre iniciativa. “Quase uma em cada cinco pessoas compartilha informações sem a devida checagem, sem verificar de fato se essa é uma informação verídica ou não. Trata-se de algo muito prejudicial para a democracia e também para o universo da informação”, analisa. Para ela, quando se percebe que as notícias estão sendo disseminadas a todo momento, em tempo real, sem a devida checagem tampouco fontes definidas, esse compartilhamento descontrolado pode gerar impacto muito sério na liberdade de escolha do cidadão. “Saber identificar a veracidade aquele dado ou informação que recebeu, seja num grupo de WhatsApp ou a partir de uma plataforma de redes sociais, é fundamental para que o cidadão possa, de fato, fazer uma escolha informada sobre o processo eleitoral, sobre em quem vai votar. Um dos primeiros passos antes de compartilhar é respirar, dar uma parada e se perguntar se isso é verdade ou o motivo dessa informação ter chegado até a pessoa”. Parte do processo Patrícia ressalta que, em um universo cada vez mais moderno em termos tecnológicos, com todos passando a ser produtores de conteúdo, a informação disputa espaço na nossa atenção. Dessa forma, há o desafio de se fazer algo diferente e chamativo para que a gente preste atenção. “São mensagens alarmistas, que causam surpresa, indignação, atacam e afetam no psicológico. Por isso, nossa reação imediata é passar para frente o mais rápido possível. Se é, por exemplo, uma cura milagrosa para uma doença que está afetando a sociedade como um todo, qual é a minha reação? Eu quero enviar a mensagem ao maior número de pessoas possível. Se é uma notícia de um escândalo de uma autoridade, tenho que avisar as pessoas. A desinformação pega a gente no contrapé. Faz com que sejamos um agente nesse compartilhamento excessivo de conteúdo”. (AF) A pesquisa O IPAT entrevistou 793 eleitores com 16 anos ou mais, pessoalmente, em Santos, nos dias 7 e 8 deste mês. A margem de erro é de 3,5 pontos percentuais para mais ou para menos. Encomendada por A Tribuna, a pesquisa foi registrada na Justiça Eleitoral e protocolada sob o número SP-08009/ 2024. O nível de confiança é de 95%.