Apesar da leve queda de dois pontos percentuais em relação ao primeiro trimestre do ano, o tema comprovou sua relevância para o mercado nacional. A média da América Latina é de 56%, e a global, de 58% (FreePik) A vocação do Brasil para a liderança na América Latina e em termos mundiais também se reflete quando o assunto envolve as práticas ESG — em português, ambiental, social e governança —, dentro de uma conscientização crescente da importância dessas ações no ambiente empresarial. Dados do International Business Report (IBR), relatório trimestral conduzido pela Grant Thornton, apontam que o investimento em iniciativas sustentáveis continua prioritário para 71% das empresas brasileiras de médio porte. Apesar da leve queda de dois pontos percentuais em relação ao primeiro trimestre do ano, o tema comprovou sua relevância para o mercado nacional. A média da América Latina é de 56%, e a global, de 58%. “Essa tendência reflete não apenas uma resposta às pressões externas, mas um reconhecimento crescente de que sustentabilidade e responsabilidade social são fatores fundamentais para o sucesso corporativo no século 21. E, além disso, esse dado revela um amadurecimento da mentalidade empresarial no País, que está percebendo o valor de adotar práticas sustentáveis como uma questão estratégica, e não apenas um modismo passageiro”, avalia o engenheiro e professor universitário Ivan Lima, também CEO da IRL Consult e presidente do Lide Equidade Racial. Duas formas O IBR também aponta que 77% dos empresários brasileiros têm intenção de investir na área nos próximos 12 meses, índice acima da média global, de 57%, e da América Latina, de 62%. A diretora-geral da TroianoBranding, Cecilia Troiano, entende esse resultado de duas formas. A primeira é um comportamento que revela a sociedade brasileira como um todo. A segunda é uma pressão que os empresários sofrem, hoje, para adotar práticas ESG, sair de discursos sem sustentação e ir para a prática. “Isso mostra uma real conscientização do empresariado e revela a emergência do tema, em nosso País, das pautas ESG. Mas, acima de tudo, olhando os dados globais, essa é uma pauta universal que aflige a todos, uma demanda que vem de pressões originárias de muitos lados”, comenta. Responsabilidade e crescimento Apesar de considerar que esses números representem uma conquista, Ivan Lima lembra que a liderança brasileira traz consigo uma grande responsabilidade. “Trata-se do compromisso de transformar essa consciência em ações concretas, que vão além dos relatórios e se traduzam em impactos positivos reais para a sociedade e o meio ambiente.” Reputação Presidente da Comissão de Compliance da Ordem dos Advogados do Brasil (OAB) em São Paulo, Flávia Filhorini Lepique se impressionou com os números apresentados pelo estudo trazido pelo International Business Report (IBR), relatório trimestral conduzido pela Grant Thornton. “Os números da pesquisa chamam atenção, principalmente, pela forte adesão das empresas brasileiras de médio porte a iniciativas sustentáveis e branding (gestão estratégica de uma marca, em um conjunto de ações e estratégias para torná-la mais conhecida, desejada e relevante)”, afirma. O dado que mais se destaca, segundo Flávia, é o fato de 71% dessas empresas estarem comprometidas com práticas sustentáveis, muito acima das médias global (58%) e latino-americana (56%). “Esse número é significativo porque demonstra que o Brasil, apesar de suas complexidades econômicas, está à frente em comparação com outras regiões. A alta intenção de investimento em branding (77%) também é notável, reforçando que as empresas estão valorizando cada vez mais a construção de marca, o que está intrinsecamente ligado à reputação sustentável”, analisa. Regulamentação ambiental contribui A especialista em ESG da Grant Thornton, Daniele Barreto e Silva, afirma que fatores combinados fazem com que o Brasil tenha maiores visibilidade e representatividade no cenário ESG em comparação com outros países da América Latina, onde essas questões ainda estão em fase inicial de desenvolvimento. A existência de regulamentação e políticas públicas é um deles. “O Brasil possui uma regulamentação ambiental mais desenvolvida, com leis como o Código Florestal e políticas de combate ao desmatamento, que aumentam a pressão sobre as empresas para adotar práticas sustentáveis. Além disso, a Comissão de Valores Mobiliários (CVM) vem ativamente, nos últimos dois, anos integrando as questões ESG nas suas práticas, como a Política de Finanças Sustentáveis. Ela tem o objetivo de promover o desenvolvimento de finanças sustentáveis no mercado de capitais.” A liderança do Mercado Financeiro na incorporação de práticas ESG, em especial da B3, a Bolsa de Valores de São Paulo, é outro ponto lembrado. “O Índice de Sustentabilidade Empresarial (ISE) da B3 é um exemplo de integração do tema nas avaliações de desempenho corporativo. Essa foi uma iniciativa pioneira na América Latina e configura o quarto índice de sustentabilidade do mundo. Temos também o Banco Nacional de Desenvolvimento Econômico e Social (BNDES), com o foco de integrar a agenda econômica, social, ambiental e climática; além dos movimentos do Banco Central do Brasil e Conselho Monetário Nacional, e as regulamentações para bancos que fortalecem e direcionam a pauta de gestão de riscos ESG”, discorre. A quantidade significativa de investimentos e muitos investidores, lembra Daniele, exigem que as empresas brasileiras sigam critérios ESG para garantir práticas responsáveis e sustentáveis. A reboque, estão as empresas multinacionais. “O País sedia várias subsidiárias de grandes empresas multinacionais que, por exigências globais, devem seguir padrões ESG para atender os critérios mais exigentes, como os da União Europeia. Isso influencia positivamente na adoção dessas práticas em toda a cadeia de fornecedores e no mercado local.” O interesse do consumidor é outro fator importante. “O brasileiro tem mais senso crítico e consciência quando se trata de demanda por produtos e serviços que respeitem os critérios ESG, o que motiva as empresas a adotarem essas práticas para se manterem competitivas”, afirma a especialista em ESG da Grant Thornton. Para o relatório do próximo trimestre, a especialista em ESG da Grant Thornton, Daniele Barreto e Silva, vislumbra crescimento. “Segundo levantamento da Bloomberg Intelligence, os investimentos classificados como ESG já representam mais de um terço do total de ativos sob gestão e podem chegar a US\$ 53 trilhões (cerca de R\$ 273 trilhões) até 2025. Indo nessa mesma linha, considera-se que o investimento em iniciativas de sustentabilidade deve crescer nos próximos meses, especialmente em função do agravamento de questões climáticas.”