[[legacy_image_347935]] Aos olhos de quem for fazer uma visita, pode parecer apenas a limpeza de um terreno baldio para a construção de um playground para crianças como qualquer outro. Mas o enredo muda de figura quando se conversa com Priscilla Pereira da Silva, de 30 anos, moradora do Sítio Conceiçãozinha, uma comunidade de 12 mil moradores vizinha ao Porto de Santos, na periferia de Vicente de Carvalho, em Guarujá. Clique aqui para seguir agora o novo canal de A Tribuna no WhatsApp! Capacitada pelo Instituto Elos por meio do programa Guerreiros sem Armas, e depois por outros programas e intercâmbio internacional, Priscilla aprendeu que é possível mobilizar a comunidade para a realização de sonhos coletivos, ouvindo “as vozes de todo mundo e tirando o melhor de cada um”. A Praça dos Sonhos foi o primeiro desses projetos coletivos. Onde havia mato, sujeira e abrigo para usuários de drogas, hoje é o parque com playground do jeito que os moradores escolheram. E foram eles próprios que o construíram, por meio do envolvimento de todos e ajuda de comerciantes e empresas. Nesta entrevista, Priscilla fala sobre a autoestima das pessoas que vivem em comunidades carentes e dos valores e riquezas que existem nesses territórios. E sobre como valorizar o que cada um tem de melhor. Você se descobriu como uma agente de transformação da realidade quando participou do projeto Guerreiros sem Armas, do Instituto Elos? Exato. No Guerreiros sem Armas, jovens são selecionados no mundo inteiro para uma capacitação de um ano, com uma imersão de um mês, onde a gente aprende as tecnologias sociais do instituto e sua filosofia. Eu e outros jovens fomos capacitados e aprendemos a aplicar essa metodologia na nossa comunidade, no nosso território. E o que é a Filosofia Elos? É uma metodologia do Instituto Elos que busca criar um cenário de abundância, reconhecer os talentos e recursos disponíveis para transformar uma realidade. São sete passos que, inclusive, usamos no Jogo Oasis, um jogo de tabuleiro para realização de sonhos coletivos: o olhar, o afeto, o sonho, o cuidado, o milagre, a celebração e a revolução. E como é voltar para a sua comunidade, cheia de carências e demandas, e colocar em prática um conhecimento novo, que você não tinha, nunca usou, mas que agora terá que usar para mobilizar as pessoas na busca por soluções? A capacitação é uma mudança de vida. Não tem como um jovem entrar no Guerreiros sem Armas e sair a mesma pessoa. Ele sempre sairá uma versão melhor do que era. Então, a gente aprende que não é só uma capacitação, é uma filosofia de vida. Antes, eu era uma pessoa muito negativa, reclamava de tudo. Hoje, tenho um olhar apreciativo sobre as coisas. Quando as pessoas veem que você veio mudada dessa capacitação, inspirada e cheia de paixão para transformar uma realidade, acaba inspirando outras pessoas. As pessoas começam a colar junto, vir com você... A gente aprende a olhar as coisas de outra forma, valorizar as relações de afeto dentro da comunidade, as histórias, e colocar as pessoas da comunidade como protagonistas. Elas se sentem importantes, pertencentes ao lugar. E esse é o momento de juntar todas elas e falar sobre os sonhos coletivos... Ninguém nunca pergunta para essas pessoas quais são seus sonhos. Então, fazer o jogo com essa metodologia é totalmente diferenciado. Quando a gente pergunta quais são os sonhos delas, elas param para pensar, e isso contagia, sabe? Se um dia ela sonhou com alguma coisa, acabou ficando esquecido, mas a partir desse momento ela resgata isso e descobre que pode voltar a sonhar. E qual era o sonho da comunidade do Sítio Conceiçãozinha? Primeiro, a gente passa pelo olhar e pelo afeto. Falar sobre o sonho é um momento muito divertido. A gente faz um cortejo na comunidade, vai conversando com as pessoas, cantando e perguntando qual o sonho de cada um. Depois de coletados todos os sonhos, colocamos em uma grande árvore e ali começamos a ver quais foram os mais citados. Um dos sonhos mais fortes aqui da comunidade era ter um espaço para as crianças brincarem. Aqui não tinha nada. Onde as crianças brincavam? Elas brincavam na maré, no trilho do trem, e havia muitas fatalidades aqui. Há uma vulnerabilidade muito grande com as crianças na rua. Há muitos riscos, inclusive com os caminhões que passam aqui. Ter esse espaço para brincar, com playground e parque, foi o sonho mais citado, e o meu papel era de ser a facilitadora para o que eles decidissem. E esse espaço foi cedido para fazer o parque? Olha, a própria comunidade escolheu que seria aqui. Esse lugar dava muita vergonha para a comunidade, com muito lixo, mato e sendo usado por usuários de drogas. A comunidade escolheu esse espaço para ser transformado. E como conseguir recursos para viabilizar o sonho? O Jogo Oasis ensina que os talentos e os recursos estão disponíveis dentro da comunidade. Por isso, a gente aprende a olhar a comunidade de uma forma mais abundante. As pessoas têm mania de olhar para a favela e enxergar só escassez, mas temos vários talentos dentro da comunidade, como pintores, pedreiros, marceneiros, jardineiros, e são essas pessoas que colocam a mão na massa. Aqui tem árvores frutíferas, ervas medicinais, flores... No Guerreiros sem Armas eu também aprendi a captar recursos. Então, fomos buscar nas empresas e comércios que estão aqui mesmo. Nós convidamos para que fizessem parte, para que jogassem o jogo com a gente. E para onde foram os usuários de drogas que ficavam aqui? Eles estão por aí, mas nós tínhamos um combinado que, quando acontecesse alguma intervenção urbana nesse espaço, eles sairiam. E saíram. E eles respeitam os combinados. Aqui não pode entrar fumando, bebendo ou usando drogas. Está na placa. Você disse que o sétimo passo no jogo de tabuleiro é a revolução. A revolução é o último passo do jogo e o primeiro de uma outra etapa. A gente decidiu como seria o cuidado a partir de agora. Temos, inclusive, uma guardiã da comunidade, a dona Val, que cuida desse espaço, que fecha o portão às 22 horas e abre às 9 da manhã. Tudo isso foi decidido pela comunidade. E aqui, agora, fica cheio de criança? Você não tem ideia de quanta criança vem aqui o dia inteiro! A dona Val já conhece todas elas e, às vezes, chama atenção porque sabe em qual horário deveriam estar na escola. Se estão no parque quando deveriam estar na escola, ela vai lá questionar (risos). Começou com um parque com playground, mas, a partir dessa transformação, a comunidade descobriu que é capaz de se mobilizar para outras coisas, não? Com certeza. Dentro desse processo da filosofia Elos, temos também um projeto socioambiental chamado Ecocomunidade, estruturado dentro de um espaço que é nosso centro comunitário. Ali, temos vários cursos para a comunidade. Além da educação ambiental, trabalhamos o conceito de responsabilidade compartilhada, gestão dos resíduos e oficinas de desenvolvimento sustentável. Nessas oficinas, continuamos sonhando e, agora, sabemos que somos capazes. Um dos grupos está trabalhando a questão da ciclovia, outro quer aulas de artesanato, outro é de zoonoses e saúde, e outro é de capacitação e emprego. Todos já tiveram conquistas. Todos se sentem pertencentes e já são capazes de se mobilizar e ir atrás de realizar os sonhos. Você diria que um dos pontos fortes de todo esse processo é a própria comunidade também se enxergar com mais autoestima? Certamente. Quando elas (pessoas) se sentem valorizadas e capazes, percebem que sempre têm algo a contribuir. E a gente começa a enxergar os outros dessa forma também, valorizados e capazes. Sentar com essas pessoas, ouvi-las, ver o que têm a dizer e fazê-las perceber que as histórias delas têm importância... É isso. Se você valoriza cada uma dessas pessoas, você está valorizando o coletivo de toda a comunidade. Eu fico feliz porque a mudança está surgindo aqui de dentro mesmo, e isso vai contagiar lá fora também. Você pensa em se candidatar a algum cargo eletivo? Não penso, não. Quero continuar lutando deste lado do jogo mesmo.