EDIÇÃO DIGITAL

Sábado

16 de Novembro de 2019

Jovem acusa padre de cometer abuso sexual em Guarujá: 'Ele falava que Deus concorda com isso'

O estudante Lucas Grudzien, morador do Bairro Morrinhos, diz que foi vítima do clérigo quando tinha 14 anos

Durante a entrevista, ele treme, chora, se revolta. Faz pausas e respira profundamente ao contar detalhes de uma história de abuso sexual. O estudante Lucas Grudzien, de 22 anos, morador do Bairro Morrinhos, em Guarujá, acusa um padre pelo crime. Tudo teria começado quando ele era coroinha na Paróquia Senhor Bom Jesus, na Vila Zilda. Tinha 14 anos. 

De uma família católica praticante, Lucas frequentava a igreja desde a infância. Tinha o sonho de seguir carreira religiosa, que começou a desmoronar em maio de 2012. Naquela época, a paróquia recebeu um novo padre: Edson Felipe Monteiro Gonzalez, então com 28 anos. Padre Felipe convidou Lucas para trabalhar ao lado dele, no arquivo da paróquia, além de ajudar nas missas. 

O que seria um prêmio para o então adolescente e uma renda a mais (R$ 350,00 mensais), logo se transformou, disse Lucas. “Durante as missas, na parte de trás da igreja, ele começou a se aproximar de mim. Um dia ele me perguntou se eu já tinha beijado alguém. Eu falei que não.” 

Não demorou muito e o padre pediu para Lucas ficar na igreja além do horário de trabalho, conta o estudante. Felipe morava na casa paroquial da igreja. “Eu falei que tinha aula (ele estudava à noite), mas ele ligou para a minha mãe para pedir autorização (pausa, respira e treme). É difícil compreender direito o que aconteceu. Eu deveria ter feito alguma coisa, não deixado... ele era uma autoridade, tinha mais poder do que meus pais.”

Lucas relatou que foi ensinado a jamais contrariar o padre. “Sempre tinha que chamar de senhor, mesmo quando o ato acontecia”, diz. “Nesse (primeiro) dia ele colocou um filme. Pediu para eu sentar no sofá com ele e deitar a cabeça no colo dele. Levantou minha blusa e começou a passar a mão.”

A partir daí, o adolescente conta que, duas vezes por semana, o padre abusava sexualmente dele. “Eu chegava em casa com a cueca com sangue (por causa da penetração), deixava no banheiro. Um dia, minha mãe viu e falei que era alguma coisa que eu comi. Contei para o padre, e ele mandou eu começar a lavar minha cueca.”

O padre, afirma Lucas, tinha uma caixa com camisinhas. Usava no início, mas depois passou a dispensar o preservativo. “Ele falava: ‘Deus sabe e concorda com o que a gente está fazendo.’”. O pároco o teria proibido de se confessar com outro religioso. Segundo o estudante, Felipe ouvia a confissão de Lucas sobre o ato sexual e ele mesmo o absolvia.

Lucas mudou de comportamento. Os pais perceberam. Em novembro de 2013, resolveu contar ao pai tudo o que aconteceu e largou o trabalho na igreja. A família procurou o Ministério Público Estadual (MPE), que abriu inquérito criminal contra o padre.

A mãe de Lucas, Claudete Aparecida Grudzien, de 41 anos, se desespera. “Foi muito grave, com um menino tão novo, criado com tanto carinho. Você deposita a confiança num padre e acontece isso.”

Advogadas 

As advogadas de Lucas, Andressa Fraga e Dilene Miranda, estranham a demora do inquérito criminal, arquivado em 2018. Para elas, o procedimento teve falhas, como a falta de perícia adequada no computador e no celular do padre.

As advogadas pretendem entrar com nova ação na Justiça pedindo o resgate de mensagens trocadas entre o padre e Lucas para as operadoras dos celulares e para o Facebook. E não descartam pedir a reabertura do inquérito. 

Padre foi afastado

Conforme nota enviada para A Tribuna pela Chancelaria da Diocese de Santos, “informamos que o bispo diocesano de Santos, D. Tarcísio Scaramussa, SDB, ao saber da denúncia, iniciou, imediatamente, a investigação prévia, em 2 de outubro de 2016, de acordo com as normas canônicas (Cânon 1717 § 1 e 2), e decretou o afastamento cautelar do padre do exercício do ministério sacerdotal. Toda a documentação relativa à investigação prévia foi enviada à Congregação para a Doutrina da Fé, em Roma, no dia 1º de novembro de 2016.

A Congregação para a Doutrina da Fé decidiu dar sequência, com um processo penal administrativo, e encarregou ao bispo diocesano o ofício de instaurá-lo, conforme as normas do Direito Canônico (Cânon 1720). A conclusão do Processo Administrativo resultou na penalidade canônica de afastamento do exercício público do ministério sagrado por cinco anos (conforme Cân. 1336 § 1 n.2), quando, então, a Congregação para a Doutrina da Fé decidirá sobre os encaminhamentos seguintes e qual será a decisão final.

O inquérito policial instaurado pelo Ministério Público foi arquivado, sem oferecimento de denúncia. (...) Durante todo o tempo, desde a investigação prévia, o bispo diocesano esteve à disposição da família e de suas advogadas para esclarecer quaisquer eventuais dúvidas.

Atualmente, pe. Edson Felipe Monteiro Gonzalez realiza trabalhos técnicos, junto ao Depim (Departamento do Patrimônio Imobiliário da Diocese). O trabalho que realiza é pertinente com sua formação de arquiteto. Recebe côngrua, conforme prescrito pelo Código de Direito Canônico (Cân. 1350, § 1). Ele está afastado do exercício público do ministério sacerdotal e não exerce nenhuma atividade correspondente a este ministério”.

Tudo sobre: