Fenômeno ainda pouco difundido no Brasil e mais restrito aos profissionais da saúde, a fadiga por compaixão também vem atingindo professores, tanto da rede pública como privada. A fadiga por compaixão é um estresse gradual que atinge quem lida diariamente com o sofrimento alheio e precisa cuidar dessas pessoas, por isso se associa mais frequentemente aos profissionais da saúde. O problema afeta professores e se agrava com o burnout, que é a exaustão extrema que compromete a saúde física e emocional. O quadro se intensificou após a pandemia, no retorno às atividades presenciais, quando alunos, seus familiares e os próprios professores precisaram lidar com situações traumáticas e que impactaram o equilíbrio emocional. Clique aqui para seguir agora o canal de A Tribuna no WhatsApp! O tema foi levantado no painel “Saúde emocional em pauta: como cuidar de quem ensina e aprende?”, uma das mais de 50 mesas de debates e atrações da 3ª edição do Festival LED - Luz na Educação, realizado pela TV Globo e Fundação Roberto Marinho no Museu do Amanhã, no Rio de Janeiro, com especialistas e convidados de todo o Brasil e mais de 4 mil participantes em dois dias de programação. Carol Campos, fundadora e diretora do Vozes da Educação, destaca que antes da pandemia o quadro emocional dos professores já era preocupante por conta da sobrecarga de trabalho e por terem que lidar com os problemas trazidos pelos alunos na relação com os pais, suas carências emocionais e até as violências que acontecem dentro de casa. “Para as mulheres, a sobrecarga é maior porque elas representam 80% dos professores do País. Então, precisam lidar com a sala de aula e com o excesso de trabalho e tarefas que já vêm de casa”, disse a médica e apresentadora da Globo Thelma Assis, moderadora do painel. “É nato das mulheres o cuidar, proteger, dar conta de tudo. É preciso ampliar esse conceito para: damos conta de tudo, mas precisamos de uma rede de apoio, também precisamos de cuidado e atenção”, disse Elisama Santos, escritora, psicanalista, autora do livro Educação Não Violenta. Sinais Carol Campos chama a atenção para os sinais que professores e as próprias escolas devem ficar atentos e que indicam a fadiga extrema. “É aquele professor que acha que nada vai mudar, que não adianta implantar nada novo, que não se envolve mais em projetos diferentes, que cumpre o básico e pronto”. Outro ponto levantado pelas participantes do painel foi a quantidade de alunos com algum tipo de síndrome ou patologia, como TEA (transtorno do espectro autista), TDAH (transtorno do déficit de atenção com hiperatividade), ansiedade e depressão. “As escolas não devem ficar questionando esse ou aquele laudo. Há especialistas para isso. Precisamos dar suporte aos professores para lidar com essas crianças em sala de aula e garantir o aprendizado delas”, disse Elisa. “São comportamentos desafiadores e nem todos os professores sabem lidar”, completou Carol. A cantora e influenciadora digital Juliette, ex-BBB, que também integrou o painel, deu destaque para a condição desafiadora das meninas pobres, de periferia, se manterem na escola. “Eu vim de uma família de Marias que não foi à escola. Minha avó precisou trabalhar desde cedo, minha mãe também, e a escola foi tirada delas. Eu seria mais uma Maria como elas, mas a mim foi dado o direito de estudar e consegui terminar a faculdade”. Juliette lamentou a perda de seguidores sempre que se posiciona em questões mais estruturantes para o Brasil em suas redes sociais. “Quando falo de educação eu perco seguidores. Quando falo de políticas públicas para questões sociais eu perco seguidores. Quando falo de preconceito e misoginia eu perco seguidores. Mas vou continuar falando de tudo isso, sim”. Resgatar o brincar é essencial, diz pediatra “Dizem que as crianças não vêm com manual de instruções, mas o manual está dentro dos olhos dela, basta que os pais prestem atenção e se conectem a elas permanentemente”. A fala é do pediatra, escritor e mestre em Saúde Pública Daniel Becker, que apresentou o tema “Por uma educação afetiva desde os primeiros passos”, mediado pela jornalista a apresentadora da Globo Aline Midlej. Daniel, que também é consultor do Ministério da Saúde para temas ligados à infância, destacou a importância de pais e escola olharem para a primeira infância, que abrange os primeiros seis anos, com mais atenção. “Quase todas as experiências e vivências dessa fase se refletem no resto da vida, sejam elas positivas ou negativas”, disse. “Nessa fase, as crianças fazem mais de um milhão de sinapses por segundo”. Daniel Becker critica o fato de alguns pais entregarem celulares para crianças nessa faixa etária, muitas vezes como forma de mantê-las quietas. “Há um estudo que aponta que 25% dessas crianças já têm celulares. O músculo do brincar está ficando atrofiado”. Sobre isso, ele aconselhou os pais a procurarem algumas comunidades de pais que já estão se formando para se fortalecerem na decisão de não entregar celular tão cedo. Entre os problemas decorrentes do excesso de telas estão as questões posturas, miopia, sedentarismo, obesidade, fraqueza muscular, agressividade, agitação, irritabilidade, mau humor, isolamento, perda de habilidades de relacionamento, dificuldade de aprendizagem, entre outros. O pediatra aconselha os pais e reservarem espaços e tempo para interagirem com os filhos em todas as fases da vida, em especial na primeira infância. “Se todos tivessem essa consciência, tenho certeza que parte dos problemas que as pessoas carregam pela vida não existiriam”.