[[legacy_image_192154]] A menos de três meses das eleições de outubro, há o temor de que o pleito deste ano desencadeie ondas de violência e traga graves consequências à democracia brasileira. Episódios de intolerância política, como ataques a eventos políticos em Minas Gerais e no Rio de Janeiro, chegaram ao ápice no último final de semana, após o assassinato do guarda municipal Marcelo Arruda, em Foz do Iguaçu (PR). Clique, assine A Tribuna por apenas R\$ 1,90 e ganhe centenas de benefícios! Integrante do Partido dos Trabalhadores (PT), ele foi morto em sua festa de aniversário pelo agente penal federal Jorge José Guaranho, que nas redes sociais se diz bolsonarista e está internado em estado grave – o crime chocou o País e a Polícia Civil paranaense já ouviu 18 pessoas para descobrir se o crime ocorreu por intolerância política. Acentuado desde as eleições de 2018, o ambiente tóxico na política tem contagiado o cotidiano das pessoas, estremecendo relações entre amigos de longa data e membros da mesma família. De lados opostos quando o tema é a escolha do candidato a presidente, não é incomum que a discussão fique mais acirrada ou, em alguns casos, resulte em rompimento na relação ou mesmo agressão física. A Tribuna ouviu psicólogas e analistas políticos para entender os riscos que o Brasil corre no processo eleitoral. Para a psicóloga Thalita Lacerda Nobre, as pessoas têm tratado do assunto de forma muito passional. “A discussão política sempre existiu e é importante que prossiga, mas o que a gente tem visto é que as pessoas não têm se preparado para escutar opiniões divergentes. Se virar um diálogo onde ninguém está escutando, o melhor é não discutir. É por isso que a gente vive numa democracia, porque precisa se aceitar a diferença”. A convicção de que somente os seus ideais são corretos pode ser um sinal de fanatismo. “Em casos extremos, é como se esse alguém não conseguisse enxergar a humanidade que existe no outro, que defende ideias contrárias. O fanático defende suas causas com tanto fervor que nem sempre elas conferem com a realidade. Discursos de ódio, preconceito, dificuldade de escuta, falta de empatia e respeito em relação ao outro, opiniões extremistas e situações de incoerência são sinais de que o comportamento pode estar passando para a via do fanatismo”, analisa a psicóloga Jéssica Tedesco. Terreno pantanoso O crescimento e relevância que as redes sociais atingiram nos últimos anos, influenciando eleições presidenciais, não só no Brasil, como nos Estados Unidos, tornou o ambiente digital um local estratégico para a divulgação de candidatos e campanhas. Por outro lado, a dificuldade em controlar o volume e a veracidade das informações, além da identidade dos perfis, também fez das plataformas virtuais um território hostil. “A gente tem visto as pessoas se fechando em bolhas, ficando num lugar um pouco mais tranquilo, quando só escuta os iguais”, diz Thalita Nobre. “A internet vira uma terra selvagem, porque é um ambiente onde as pessoas podem se esconder por meio de um perfil. Isso pode ser danoso no curto e médio prazos, porque à medida que elas vão tendo como fonte de informação só aquilo que as interessa, vão perdendo também tolerância às diferenças, com tendência a achar que só quem faz parte da bolha dela está certo”. Essa conexão com os iguais no mundo virtual, segundo Jéssica Tedesco, também é mais fácil de ser vivenciada do que a realidade. “A internet faz você enxergar o mundo do jeito que gostaria. Podemos bloquear e silenciar o diferente, mas no mundo real não podemos fazer isso com tanta facilidade. Isso aumenta ainda mais a intolerância e a dificuldade de lidar com a diferença que sempre irá existir. Pode prejudicar muito as relações interpessoais, pois a pessoa vai se fechando cada vez mais”. Reduzir a tensão Para que essa guerra política não afete as relações e a saúde física e mental, as psicólogas recomendam ponderação e cabeça fria. “Se cada um perceber que cada população específica, dentro do grande Brasil que a gente vive, vai pensar de uma forma diferente e de acordo com a sua cultura e seu contexto histórico e social, a gente seria mais empático. Procure não entrar em briga, não ficar comentando nas redes sociais. Tente se informar, ouvir o outro lado, sem entrar em embate”, aconselha Nobre. Fugir dos conflitos virtuais e relaxar também é fundamental. “Nas eleições de 2018, foram frequentes as queixas que envolviam algum nível de sofrimento relacionado ao cenário político. Caso a pessoa sinta necessidade, pode buscar ajuda profissional para conversar e ser acolhida em sua angústia. Outra dica importante é se desligar das redes sociais quando se sentir bombardeado pelas informações. Às vezes, é preciso fazer o que chamamos de detox digital. É sempre positivo separar um tempo para se dedicar a atividades relaxantes e de lazer, nutrindo bons vínculos”, aponta Tedesco. Alerta para instabilidade políticaAs reiteradas declarações do presidente Jair Bolsonaro (PL) sobre a idoneidade das eleições têm contribuído para o clima de tensão e incerteza que paira sobre o Brasil, de acordo com cientistas políticos ouvidos por A Tribuna. Para eles, é difícil afirmar se o País corre risco de passar por uma nova ruptura democrática, caso o atual mandatário não se reeleja, já que uma situação extrema como essa não dependeria apenas de um hipotético apoio das Forças Armadas. Uma escalada da violência nos próximos meses, no entanto, não é descartada diante do ambiente hostil que vem se avolumando desde as eleições de 2018. “O cenário é de preocupação, porque o presidente tem feito declarações que sugerem algum tipo de descumprimento do resultado eleitoral”, diz o cientista político Alcindo Gonçalves. “Há algumas possibilidades mais extremas, como provocar situações que façam com que a eleição não ocorra no primeiro domingo de outubro, por exemplo. Mas, qual seria a reação da sociedade civil, do Congresso, do Poder Judiciário e do empresariado a um cenário como esse? As Forças Armadas apoiariam o presidente numa aventura golpista?”, indaga Gonçalves. Tensão no horizonteMestre em ciência política, Clara Versiani dos Anjos lembra que a tensão política já estava no horizonte há alguns anos. “Isso não era uma coisa imprevista. Inclusive em 2018, com o atentado contra o presidente, depois a prisão do Lula, a soltura e toda aquela movimentação, o clima foi se acirrando”, aponta ela, que considera improvável um golpe do Estado. “Em 1964, o golpe foi militar, mas a ditadura, civil-militar, porque teve apoio de grandes empresários, multinacionais, setores da classe média e da mídia, com respaldo dos Estados Unidos. Todas as autocracias precisam de uma base que vá além dos militares, ainda mais num país desse tamanho”. Cenário de estabilidade?Apesar de dizer que o pleito pode causar “cenas de violência explícita”, Gonçalves espera que o resultado das urnas seja respeitado. Ele também acredita que a redução de impostos, que fez cair o preço dos combustíveis, e a chamada PEC Camicase, que aumenta os gastos com benefícios sociais até o final do ano, pode tornar a candidatura de Bolsonaro mais competitiva, diminuindo a tensão nos próximos meses. “Se o cenário continuar como está, com o Lula disparado, ameaçando ganhar no primeiro turno do pleito presidencial, o desespero pode tomar conta e a situação se agravar”, pondera. Para Clara, o Brasil precisa reencontrar o rumo, pois nos primeiros anos da redemocratização, houve um esforço coletivo, com a Assembleia Constituinte, que mobilizou um conjunto grande e variado de forças. “Foi uma época de efervescência de ideias, com a própria criação de partidos como o PT e o PSDB. Isso se desfez, porque surgiu a democracia de coalizão, que levou todos os governos a se tornarem reféns do Centrão. Isso passou para a população um desencanto com a política. Não acontece só aqui, esse ressentimento tem alimentado movimentos mais extremistas”.