“Pensar além das dores”, em uma luta frequente contra a violência, o preconceito e a desigualdade. É o significado da data desta quinta, 25 de julho, Dia Nacional de Tereza de Benguela e da Mulher Negra. Clique aqui para seguir agora o canal de A Tribuna no WhatsApp! Neste dia, com a lembrança da líder quilombola Tereza de Benguela, se homenageiam cerca de 60,6 milhões de mulheres negras e pardas, que representam 28,6% da população do País, segundo o Governo Federal. O objetivo é fomentar debates públicos, promover cultura e mostrar a realidade delas. “A gente pensa em mulheres negras e pensa em violências, mas, e o que elas construíram?”, diz a psicóloga Livia Marques, do Rio de Janeiro. A data, salienta, “não é só sobre falar de dor, mas de a gente falar sobre alegria e de estar junto”. Ansiedade, vergonha, percepção de inferioridade, exigir muito de si mesmo e inibição emocional são parte dos efeitos do racismo na vida de pessoas pretas, segundo a psicóloga. “É estar de guarda alta o tempo inteiro, em constante atenção. A sociedade, às vezes, faz com que a gente, infelizmente, venha a adoecer.” Para Livia, é importante que se crie um censo comunitário de mulheres negras, para “poder ter histórias em que a gente está se potencializando, tendo referências do nosso povo para a gente” e “em que você percebe compartilhamento de histórias, em que você se humaniza”. “Eu penso em todo o caminho que as nossas ancestrais, que as nossas (mulheres) mais velhas, mulheres com muito mais experiência, têm pavimentado para a gente”, comenta. Uma delas, destaca a psicóloga, é Tereza de Benguela (veja destaque), que “traz para a gente a importância da nossa liderança, do nosso mulherismo, da nossa presença nesses espaços de tantas decisões, em que a gente tem voz e tem lugar”. Educação e identidade A Pesquisa Nacional por Amostra de Domicílios (Pnad), do Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística (IBGE), mostra que apenas 14,7% da população de mulheres negras com 25 anos ou mais tinham Ensino Superior completo. Como consequência da baixa instrução, resta às demais o trabalho informal ou de baixa remuneração. A biomédica e professora voluntária da ONG Educafro, Núcleo Valongo, Bianca Camilo Soares, afirma que “a educação é a base para dissolvermos este problema”. A instituição trabalha para promover a inserção e a permanência do jovem negro na universidade por meio de seu curso pré-vestibular comunitário. “O nosso sonho é que a Educafro não exista mais e que o jovem negro não precise de uma Educafro para entrar em uma universidade.” A entidade também promove a cultura africana em suas aulas, para o aluno se entender negro. Bianca relata que alunas se transformavam à medida que conheciam a própria cultura. “Eu as via entrando de cabelo liso e fazendo transição capilar no final do ano, se posicionando e se enxergando como mulheres negras.” Liderança e resistência Rainha do Quilombo do Quariterê no século 17, Tereza de Benguela é reconhecida por seu exemplo de liderança, resistência e luta contra a escravidão. Ela assumiu a liderança do quilombo logo após a morte do marido, José Piolho, por volta de 1750, e o fez por duas décadas. Sob a liderança dela, o Quilombo do Quariterê, ou Quilombo do Piolho, reuniu por volta de 100 pessoas, entre negros e indígenas, que trabalhavam com agricultura e produção têxtil e comercializavam o excedente. A comunidade se organizava no Vale do Guaporé, em Vila Bela da Santíssima Trindade, onde hoje está a fronteira do Mato Grosso com a Bolívia. Tereza de Benguela é reconhecida por seu exemplo de liderança, resistência e luta contra a escravidão (Reprodução) A história de Tereza de Benguela é muito debatida devido à falta de registros históricos de sua biografia. Especula-se que tenha sido capturada em Angola e traficada pelo porto de Benguela, e teria adotado esse sobrenome para marcar sua procedência. Sem registros de sua aparência, o movimento negro associa a imagem de Benguela à pintura Mulher Negra Sentada de Frente (foto), do artista suíço, Félix E. Vollutton. Em 1994, Tereza foi homenageada pela escola de samba Unidos do Viradouro, no Rio de Janeiro. Oficina, sarau, cinema e missa marcam celebrações Em alusão ao Dia Nacional de Tereza de Benguela e da Mulher Negra, a Educafro Valongo comemora o Julho das Pretas. Fará oficina cultural no sábado (27), às 19 horas, sarau no domingo (28), às 14 horas, e exibição do curta metragem Kbela, seguido de roda de conversa, na segunda-feira (29), às 19 horas. Santa Bakhita, um exemplo (Alexsander Ferraz / AT) A programação será no núcleo do Educafro no Valongo, instalado no Santuário Santo Antônio do Valongo (Largo Marques de Monte Alegre, 13). O santuário promoverá nesta quinta (25), às 19 horas, missa em ação de graças pelo Dia Internacional da Mulher Negra, Latino-Americana e Caribenha. “É a primeira vez que estamos celebrando esta missa”, diz o reitor, padre Denilson de Freitas da Silva. Para ele, é preciso “uma luta contra o racismo e reconhecer que tantas mulheres tiveram seu lugar de destaque e contribuições para a sociedade”. A missa celebrará a história e as contribuições de mulheres do Brasil e do mundo à Igreja Católica. “Uma contribuição muito próxima de nós é Santa Josefina Bakhita. Ela tornou-se santa por um milagre que ocorreu aqui na Cidade.” (FA)