Branko Brkic é criador da campanha Escolha a Verdade para o Dia Mundial do Jornalismo, editor-chefe do Daily Maverick e líder do Project Kontinuum. Qual é a importância de uma campanha global que defende a verificação de fatos e a integridade jornalística, especialmente em um contexto de crescente proliferação de notícias falsas? É da maior importância para as democracias globais e para a ordem baseada em regras que o mundo trabalhou tanto para construir no rescaldo da Segunda Guerra Mundial. Como veículos de notícias sérios podem combater, de fato, a desinformação sem perder a confiança do público? É uma questão difícil, talvez uma das mais urgentes no nosso jornalismo cotidiano. Devemos proteger nossos métodos de influências corruptoras, ser incansáveis em nossos esforços para nos mantermos relevantes e fiéis aos nossos valores fundamentais. Na sua opinião, a campanha para defender a verdade dos fatos deveria ser uma iniciativa permanente, especialmente durante períodos eleitorais, como as próximas eleições no Brasil? É crucial que não limitemos nossas atividades a um único dia ou semana. Esta é uma questão no cerne da nossa razão de existir — e devemos ativamente fazer campanha em defesa da verdade todos os dias, de todas as semanas, de todos os meses. Quais países, até agora, enfrentaram os maiores desafios ao lidar com a disseminação de notícias falsas, e como a imprensa nessas regiões conseguiu abordar isso? É, de fato, um fenômeno global — e muito difícil de abordar regionalmente, dadas as enormes dimensão e complexidade dos esforços de desinformação. Gigantes globais, como Estados Unidos, Reino Unido e Brasil, tiveram seus processos democráticos interrompidos, e decisões importantes, em níveis nacional e regional, foram tomadas com base em notícias falsas que corromperam todo o ecossistema de informação. Parte integral foram os ataques à mídia de notícias — que ainda luta para recuperar a confiança e reassumir seu papel influente. Como você avalia o papel das redes sociais na disseminação de notícias falsas, e o que essas plataformas poderiam fazer para auxiliar o jornalismo sério nessa batalha? As plataformas de redes sociais são, infelizmente, o principal vetor de desinformação, e sua gestão é diretamente responsável pelo caos atual. Para que o sistema de informação global retorne a algo próximo do normal, elas devem ser responsabilizadas no mesmo nível que a mídia de notícias tradicional. Em um contexto eleitoral, como o que o Brasil em breve enfrentará, quais são os maiores riscos de desinformação, e qual é o papel da imprensa em manter o debate público informado e transparente? A mídia de notícias deve estar plenamente consciente do caos que se aproxima, especialmente à medida que a IA (inteligência artificial) generativa está amadurecendo. O jornalismo deve permanecer uma ilha de verdade, confiança e credibilidade no que certamente será um oceano de desinformação. Como jornalistas e organizações de imprensa podem proteger a liberdade de expressão enquanto combatem a disseminação de informações falsas e manipuladas? Para fazer qualquer coisa, devemos primeiro entender a profundidade da nossa própria crise, a gravidade da tempestade de informações falsas em que já estamos imersos e a natureza histórica deste momento. Estamos literalmente em uma encruzilhada — e podemos já estar em um curso distópico. Esta é uma emergência global, e é hora de começarmos a tratá-la como tal. E lembrem-se sempre de que juntos somos mais fortes, muito mais fortes. Quantos jornais e de quantos países aderiram a esta campanha? Mais de 800 organizações de notícias, associações de mídia e agências de apoio de mais de 100 países já se inscreveram formalmente. Muitos outros estão compartilhando nossa campanha.