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Quarta-feira

21 de Agosto de 2019

Moradoras de Cubatão recebem menção honrosa em concurso culinário da ONU

Receitas com alimentos alternativos participaram de projeto que visa homenagear mulheres na culinária e agricultura da América Latina

Enxergar possibilidades diferentes dentro do universo culinário fez com que duas mulheres da região ganhassem uma premiação de nível mundial. É com ingredientes regionais, presentes na Mata Atlântica, que as moradoras do bairro Água Fria, em Cubatão, Viviane Gomes e Terezinha da Silva, receberam menção honrosa no concurso culinário promovido por uma agência das Organização das Nações Unidas (ONU).

Viviane e Teresinha fazem parte do Núcleo de Economia Solidária e Desenvolvimento Local (Nesdel), iniciativa que estimula a culinária local por meio do projeto Serra do Mar, realizado pela Companhia de Desenvolvimento Habitacional e Urbano do Estado de São Paulo (CDHU). As duas participantes concorreram no concurso culinário “Saberes e Sabores”, realizado pela Food and Agricutlure Organization (FAO).

Pratos são premiados pelo uso criativo e benefícios relacionados à saúde (Foto: Divulgação/ComCom)

O programa tem como objetivo valorizar o trabalho de mulheres com iniciativas agrícolas e a produção sustentável de alimentos saudáveis e nutritivos. Os pratos participantes são receitas originais de países da América Latina como a Argentina, Chile, Colômbia e o próprio Brasil. As moradoras de Cubatão estão entre as dez finalistas do concurso com as receitas de Vinagrete de raiz de Lírio do Brejo e Miolo de Jaca.

Origens

Com família indígena, Terezinha aprendeu a cozinhar com alimentos da floresta ainda na infância (Foto: Divulgação/ ComCom)

A cozinha sempre foi um ambiente familiar para a aposentada Lidelce Terezinha da Silva, de 67 anos.  Moradora do bairro Água Fria há 25 anos, ela aprendeu a cozinhar já na infância, observando as mulheres da família. “Aprendi a cozinhar com a minha avó e minha mãe ainda no fogão de lenha. Ficava com meus irmãos ao redor do fogão vendo elas cozinharem, mas eu fui a única a me atrever a mexer com as panelas”, conta. 

Nascida em Pirajuí, no interior do estado, Teresinha é descendente de indígenas e veio morar em Cubatão há mais de 40 anos. Ela e sua mãe colhiam alimentos nos cafezais, onde aprendeu a identificar o que poderia ser aproveitado como comida ou não. A idosa lembra que pisava sem querer em algumas plantas e sua mãe, brava, falava para pegar o “mato” já que daria uma “salada boa”.

A receita de miolo de jaca surgiu de uma experiência inusitada. Ela viu na sobra de alimentos uma possibilidade de criar um prato novo e tentou prepará-lo até mesmo frito e com acompanhamentos diferentes. O alimento é preparado por meio de uma marinada e cozido em uma panela de pressão. A receita pode ser adaptada e, segundo a aposentada, gera surpresa em quem experimenta.

“Ficou tão gostoso quando provei, que resolvi levar para a criançada do bairro e as vizinhas experimentarem. O pessoal gostou e me perguntava se era carne porque a textura lembra a do cupim”, relata.

Finalista no concurso, Viviane conta que trabalho na área ambiental ajuda na cozinha (Foto: Arquivo pessoal/ Viviane Gomes)

Viviane Gomes, de 37 anos, nasceu e cresceu no Água Fria. Bisneta de uma indígena, sua relação com a culinária surgiu ainda na infância. “Não tínhamos muita coisa para fazer no bairro, então eu e minhas irmãs brincávamos de cozinhar no fogão à lenha. Fazíamos arroz e outras comidas e costumávamos usar plantas que minha mãe utilizava”, lembra.

O prato escolhido, a vinagrete de raiz de Lírio do Brejo, foi uma recriação de uma receita vista na televisão. Foi no projeto Compartilhando Saberes e Sabores que Viviane mostrou a receita para as demais participantes e teve o prato inscrito na competição.

Agente ambiental no projeto Cota Viva da CDHU, Viviane explica que o conhecimento de plantas nativas fez com que virasse participante. “Me surpreendi e fiquei muito honrada em saber que a receita teve esse reconhecimento”, explica.

Culinária regional

Receitas premiadas utilizavam alimentos que poderiam ser encontrados na natureza e consumidos pela comunidade (Foto: Divulgação/ComCom)

A Coordenadora do Nesdel, Susana Alves, diz que os encontros do Compartilhando Saberes e Sabores buscam incentivar o uso de ingredientes locais, por meio do resgate da cultura alimentar das participantes da mesma comunidade ou de regiões diferentes. Nos encontros, as participantes buscam partilhar memórias envolvidas com o prato.

“Elas ensinam suas técnicas de preparo, seus segredinhos das receitas, e nos contam qual relação que a receita tem com a sua história de vida: como, onde e com quem aprenderam ou em que contexto inventaram”, esclarece.

A menção honrosa para as duas moradoras da Água Fria serve como incentivo para fortalecer a identidade local. “Os moradores passam a conhecer e a querer explorar as possibilidades dos usos culinários de alimentos disponíveis no seu entorno, a Mata Atlântica. Conhecer a importância alimentícia de algumas plantas também é um incentivo à preservação”, exemplifica.