A Escola Estadual Parque dos Sonhos, em Cubatão, foi eleita a melhor do mundo (Sílvio Luiz/ AT) O Governo de São Paulo anunciou novo projeto educacional inspirado na experiência da Escola Estadual Parque dos Sonhos, em Cubatão, na Baixada Santista, a qual foi considerada a melhor do mundo. A proposta é usar o modelo de ensino desenvolvido na unidade como referência para ampliar práticas educacionais baseadas em cultura de paz, participação da comunidade escolar e projetos que valorizam talentos dos estudantes. Clique aqui para seguir agora o canal de A Tribuna no WhatsApp! A Escola Estadual Parque dos Sonhos ganhou notoriedade após passar por profunda transformação ao longo dos últimos anos. Antes marcada por violência, evasão e deterioração do patrimônio, a unidade de ensino se tornou exemplo de mudança educacional e chegou a receber reconhecimento internacional. O projeto tem como base justamente esse processo de transformação, considerado um dos casos de sucesso da educação pública paulista. Da crise à transformação Entre 2014 e 2015, a Escola Estadual Parque dos Sonhos carregava um apelido que refletia o cenário vivido naquele momento: “Parque dos Pesadelos”. Segundo o diretor do colégio, Regis Marques, quase ninguém queria estudar ou trabalhar lá. A escola, localizada no bairro Jardim Nova República, conhecido como Bolsão 9, enfrentava invasões frequentes, furtos, evasão escolar e episódios de violência. O ambiente era de abandono e descrença. Fundada em 2013 e em funcionamento a partir de 2014, a escola passou a fazer parte do Programa de Ensino Integral em 2015. Mesmo assim, a mudança não aconteceu de forma imediata. Entre 2015 e 2016, metade dos estudantes deixou o colégio. Foi nesse contexto que Regis Marques assumiu a direção da escola, após vir da capital paulista. “Eu cheguei porque acreditava na educação como forma de transformação social e cultural. Para mim, a educação é revolucionária”. Mudança começou pela escuta O primeiro passo da nova gestão foi definir qual seria o papel da escola dentro da comunidade. A proposta era que o espaço se tornasse um ponto de “radiação de paz e não violência”. “Tudo o que a gente fizesse ali teria que fomentar uma cultura de paz”, explica o diretor. A estratégia começou com escuta ativa. A direção passou a ouvir estudantes, professores e famílias para entender quem eram aquelas pessoas, quais eram seus sonhos e quais caminhos poderiam ser construídos juntos. Ao mesmo tempo, foi estabelecida uma meta ousada: transformar a escola na melhor do Estado em cinco anos. Naquele momento, cerca de 80% dos alunos estavam abaixo do nível básico de aprendizagem. Mesmo com as dificuldades, a escola começou a criar projetos educacionais com os recursos disponíveis. Oficinas de costura, artesanato, dança e outras atividades foram os primeiros passos dessa mudança. Em 2017, a escola passou a integrar os anos iniciais e finais no mesmo período, tornando-se a primeira unidade de ensino integral com esse formato. Projetos, comunidade e resultados Sem recursos financeiros adicionais, muitas iniciativas nasceram da mobilização da própria comunidade escolar. A patinação artística começou com apenas nove patins de plástico emprestados. Hoje, cerca de 80 alunos participam da atividade. O vôlei também teve início de forma improvisada, com seis estudantes e uma bola furada que era enchida diariamente. Atualmente, o projeto esportivo conta com parceria privada e já conquistou títulos estaduais nos Jogos Escolares. Segundo Regis Marques, uma mudança importante foi a forma como professores passaram a olhar para os estudantes: “Quando o professor passa a olhar o aluno pelas qualidades, ele passa a enxergar como aquele estudante pode se transformar”. Os resultados apareceram ao longo dos anos. Entre 2016 e 2019, o número de alunos passou de 116 para 480, um crescimento de cerca de 400% nas matrículas. A evasão escolar foi zerada e as ocorrências diminuíram aproximadamente 80%. Os indicadores educacionais também avançaram. O índice da escola passou de 2,27 em 2016 para 3,6 em 2019. Após a queda provocada pela pandemia, voltou a crescer e chegou a 4,5 em 2024. Hoje, a unidade atende cerca de 1.200 alunos em ensino integral, além de turmas de Ensino Médio e Educação de Jovens e Adultos. “A universidade pública é deles. Eles precisam ocupar esse espaço”, afirma o diretor.