[[legacy_image_226907]] Não é sobre ter professores especializados ou previamente qualificados. Muito menos sobre ter uma escola devidamente preparada para atender alunos com algum tipo de deficiência física, mental, intelectual ou sensorial. Falar sobre inclusão na educação passa, antes de tudo, pelo fim da massificação e a certeza de que todos são especiais justamente por não serem iguais. É ter a comunicação como ferramenta e descobrir que o “diferente” pode ser o responsável pelo início do processo de mudança. Clique, assine A Tribuna por apenas R\$ 1,90 e ganhe centenas de benefícios! A análise é resultado de uma conversa de A Tribuna com o coordenador de formação doInstituto Rodrigo Mendes(IRM), Luiz Henrique de Paula Conceição. O IRM é uma organização sem fins lucrativos com a missão de colaborar para que toda pessoa com deficiência tenha uma educação de qualidade na escola comum. O instituto conta com um centro de estudos voltado à produção de conhecimento sobre educação inclusiva. De acordo com o coordenador do IRM, a educação inclusiva é uma perspectiva, e não se limita à educação especial. Ele reitera que o foco devem ser os grupos vulneráveis, de forma que eles tenham direito à participação. Política Nacional Não é à toa que, em 2008, foi criada a Política Nacional de Educação Especial na Perspectiva da Educação Inclusiva. Foi a partir desse momento que os alunos com deficiência passaram a ter seu lugar garantido nas escolas regulares. E, consequentemente, os docentes foram convidados a olhá-los além dos laudos. “Isso significa manter essa criança dentro da sala comum com os apoios que forem pertinentes para aluno e professor. Há mais de dez anos, as escolas disponibilizam salas com recursos multifuncionais, onde acontece o atendimento educacional especializado”, diz Conceição, reiterando que educação inclusiva significa integração de todos os indivíduos. Já a educação especial está relacionada às pessoas com algum tipo de deficiência. Na visão do coordenador, o trabalho da escola deve consistir em encontrar meios e modos para que os estudantes alcancem o conhecimento socialmente produzido, ou seja, ao planejar as aulas, o professor já deve buscar ferramentas capazes de tornar o conteúdo palpável a todos os grupos. É o pensar fora da caixa, criando outros formatos e jeitos de ensinar essas crianças e adolescentes, oferecendo algum suporte, conforme o interesse do estudante. É ter o heterogêneo como norma da escola, menciona o coordenador. “Se o tema, por exemplo, for continentes, apresentar um globo terrestre tátil facilitará a aprendizagem daqueles que precisam ver e sentir para entender melhor. E nem sempre são apenas os alunos com deficiência que necessitam disso. Quando se amplia o repertório dos professores, eles ensinam melhor toda a turma”. Desafios Para Conceição, o desafio está justamente em desassociar a educação do grupo homogêneo formado por homens brancos, héteros, ricos ou de classe média. Segundo ele, o discurso de que no passado se ensinava melhor está totalmente voltado a essa massificação, já que o grupo era parecido e formado por menos pessoas. A entrada do aluno com deficiência, por exemplo, causa um desequilíbrio. “Diante disso, o pensamento deve ser ‘o que podemos fazer de diferente?’ A questão não está na criança e no adolescente, mas em mim, em como mudo meu jeito para fazer com que eles aprendam. Essa é a virada que a gente propõe, o quanto conseguimos reduzir esses impedimentos de aprendizagem. Como estabelecer comunicação com esse aluno. A relação do docente com ele é relação humana mediada por comunicação”. E a premissa básica desse relacionamento é o rompimento de barreiras e até mesmo o fim do preconceito, no sentido de não estigmatizar o estudante por andar de cadeira de rodas ou ter Transtorno do Espectro Autista (TEA). Conceição defende a teoria de que “não sabemos até onde esses alunos vão”. Mais do que isso, não há receita pronta sobre como lidar ou ensiná-los. Estranheza “Há pessoas com Síndrome de Down fazendo doutorado. Cabe ao educador explorar o máximo do potencial do aluno. Ele vai até onde conseguir, não podemos estabelecer um parâmetro. As pessoas com deficiência estão ocupando a cidade e isso vai causando uma certa estranheza e essa estranheza faz com que todos fiquem curiosos para entender como é essa pessoa. Infelizmente, criamos um modo de educação interessado na massa. Não podemos procurar o que ele não tem, mas, sim, o que ele tem”. Conceição faz um alerta para que a educação de um modo geral seja repensada, sobretudo diante do alto índice de evasão escolar por alunos do Ensino Médio. A falta de interesse nas aulas é um dos principais motivos para os jovens desistirem do ambiente escolar. Dados do Inep mostram que a taxa de abandono no Ensino Médio na rede pública mais do que dobrou. O percentual foi de 2,3% em 2020 para 5,6% em 2021. Acolhimento e inserção no contexto social Mãe de Isabele, de 12 anos, diagnosticada com Transtorno do Espectro Autista, Marcela Pino encontrou no Colégio Santa Cecília, em Santos, o acolhimento e o entendimento necessários para que a filha desenvolvesse habilidades e se sentisse inserida no contexto social geral. Há cerca de seis anos, família e escola caminham juntas encontrando os melhores métodos de aprendizado para a menina, que se destaca pela facilidade com outros idiomas, como inglês e espanhol. “Eu via que o potencial dela era grande, embora tivesse limitações. Então, preferi que estivesse numa escola comum vivendo com crianças neurotípicas, com a mesma abordagem e método, para conseguir superar as dificuldades. As necessidades do aluno acabam ditando os passos e ferramentas a serem utilizadas”. Com a frase “tratar os iguais como desiguais na medida da sua desigualdade”, a advogada acompanha a visão do coordenador do IRM sobre a importância de a escola saber lidar com a individualidade de cada aluno, independentemente da sua condição física e psicológica. Ao mesmo tempo, esse entendimento também deve existir dentro de casa. Ainda dando os primeiros passos no universo da educação inclusiva, Lana Braga fez uma longa pesquisa antes de escolher a instituição de ensino para o seu filho Nicolas, de 1 ano e 10 meses e portador de Síndrome de Down. O pequeno Nico irá para a escola em 2023, quando já terá completado 2 anos. E o ponto determinante para que a Villare, localizada em São Caetano do Sul, ficasse em primeiro lugar na lista dos pais para matrícula de Nico foi um processo de inclusão respeitoso e com oportunidades iguais para todos os alunos. “Por terem um método de ensino Montessoriano, priorizam a integração, sem que fiquem sentados em mesas com grupos específicos. As atividades são realizadas sempre em conjunto. Queríamos um lugar no qual o Nico não fosse o único a ser tratado de forma diferente, porque, na verdade, todos somos diferentes e precisamos de respeito às nossas particularidades”.