Com a tecnologia, nos últimos anos, a lista dos pontos de encontro dos solteiros em busca de um amor cresceu. À pracinha da cidade de antigamente, aos bares e baladas mais modernos, somam-se agora os aplicativos e plataformas na internet. Com essa nova possibilidade de encontrar a paixão, também surgiu um novo perigo no caminho: o golpe do amor. Clique aqui para seguir agora o canal de A Tribuna no WhatsApp! Nesses casos, criminosos com perfis falsos acabam explorando a vulnerabilidade das vítimas, marcando encontros que podem resultar em sequestros seguidos de extorsão e até violência física. De acordo com o delegado divisional do setor de sequestros da Polícia Civil do Estado de São Paulo, Fábio Nelson Fernandes, geralmente esse tipo de golpe acaba vitimando homens com idade entre 25 e 55 anos, que estejam em busca de relacionamentos héteros ou homoafetivos. Os perfis falsos nos aplicativos costumam apresentar fotos de pessoas atraentes, com fotos sensuais e que aparentam ter uma boa condição financeira. Depois de estabelecida uma relação por meio do aplicativo, o caso pode evoluir para encontros presenciais, nos quais as vítimas podem ser alvo de violência física, roubo ou até mesmo sequestro, conforme o delegado. Veja ao lado um caso de golpe do amor que aconteceu recentemente. Cuidados Na hora de procurar um relacionamento amoroso por meio de aplicativos, Fernando orienta a realizar uma videochamada com a pessoa antes de se encontrar pessoalmente: esta pode ser uma forma de confirmar a veracidade das fotos publicadas no perfil. “É muito importante ver o rosto. Se a pessoa não quiser mostrar, desconfie.” Outro ponto a se atentar é se a pessoa apresenta um padrão socioeconômico compatível com a região em que ela solicita o encontro ou diz que mora. “Outra orientação é sempre marcar o encontro em locais públicos, como shoppings e restaurantes, e passar o contato da pessoa para algum familiar ou amigo de confiança. Caso algo aconteça, já podemos ter meios para iniciar uma linha de investigação”, comenta. Felipe Pires de Campos é advogado e presidente da comissão de Direito Penal da Ordem dos Advogados do Brasil (OAB) de Santos, dá outras dicas. A primeira: fique atento a perfis que tenham pouca informação, pode ser um sinal de que a conta é fake. “O correto é sempre verificar todos os dados do usuário antes de marcar algum encontro presencial. Tentar confirmar se a conta do usuário foi criada recentemente, e se possui conta em outras redes sociais, pois geralmente o golpista não utiliza várias”. Outro cuidado destacado por Campos é verificar a veracidade das fotos utilizadas, o que pode ser feito em consultas na internet em sites abertos ou em uma busca reversa de imagens no Google, para descobrir se são de algum banco de imagens. “O ideal também é nunca fornecer dados e informações pessoais, pois o golpista poderá utilizá-los para algum tipo de chantagem”, alerta. Mesmo com todos os cuidados, se decidir pelo encontro, o ideal é sempre informar para uma pessoa de confiança. “Até mesmo deixar a localização do celular ativa e liberada para essa pessoa, pode ajudar nesses casos”, afirma Campos. Sequestro e transferências No dia 6 de junho, um homem foi sequestrado em São Paulo após marcar um encontro com uma suposta mulher que havia conhecido em um aplicativo de relacionamento. Ele foi mantido em cativeiro e teve o celular e a carteira roubados, além de ser obrigado a fazer transferências bancárias. Ele conseguiu fugir do cativeiro e pediu ajuda a uma equipe de patrulhamento da Polícia Militar que estava pelo bairro Jaraguá, na Capital. Três homens, de 20, 26 e 51 anos, foram presos em flagrante nos bairros Jaraguá e Brasilândia, na Zona Norte de São Paulo. Com eles, foram encontradas 200 porções de drogas, entre maconha, haxixe e cocaína. Outros membros do grupo ainda seguem sendo procurados. O caso foi registrado como roubo de veículo, extorsão de pessoa, tráfico de drogas, localização e apreensão de veículo e objeto no 72º Distrito Policial (DP) de São Paulo. Atuação da polícia O delegado divisional do setor de sequestros da Polícia Civil do Estado de São Paulo, Fábio Nelson Fernandes explica que esse fenômeno do Golpe do Amor surgiu no início de 2022, ano em que foram atendidos 115 casos dessa natureza pela divisão de sequestros. Em 2023, os casos caíram para 49 e, neste ano, até agora houve o registro de seis. “Há uma redução expressiva desses números, pois as pessoas estão mais cientes. Também conseguimos prender 168 pessoas que atuavam como lideranças em organizações criminosas que cometem esse tipo de crime e foram desarticuladas”. Fernandes ainda afirma que o sequestro é um crime hediondo e possui um tratamento legal grave. Para ele, esse fator também pode ter contribuído para impactar na redução do crime. Mais agressivos O delegado afirma que, hoje em dia os casos de golpe de amor tendem a resultar em sequestros em que os criminosos usam dos avanços tecnológicos para realizar movimentações financeiras por transação bancária. Diferente do modelo que se apresentava antigamente, hoje a manutenção do cativeiro tende a durar de dois a três dias e eventualmente ocorre ligações para a família, segundo Fernandes. “Em sua maioria, esses criminosos são extremamente agressivos, pois em casos de resistências, acabam ocorrendo homicídios”, relata o delegado.