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Sexta-feira

10 de Julho de 2020

'A imprensa brasileira tem feito um trabalho de primeiríssima qualidade', diz Caio Túlio Costa

Jornalista e doutor em Comunicação falou sobre os desafios dos veículos profissionais

Jornalista, professor e doutor em Comunicação pela Escola de Comunicação e Artes da USP, Caio Túlio Costa trabalhou por 21 anos na Folha de S.Paulo e foi um dos criadores do que seria, mais tarde, o UOL. Foi, também, o primeiro ombudsman do jornal. Atualmente, dedica-se à Torabit, uma plataforma de monitoramento digital que começou a operar comercialmente em 2017.

Nesta segunda-feira (1º), Dia da Imprensa, Caio fala nesta entrevista sobre o atual momento da imprensa brasileira, e o desafio dos veículos profissionais em manterem o modelo de negócios com a qualidade que o público busca. 

A comunicação, o jornalismo parecem estar em uma fase de bastante protagonismo, não só por conta da pandemia e da necessidade das pessoas buscarem informação, como pelo momento político do Brasil. Você também tem essa impressão? Que leitura você faz deste momento da imprensa brasileira?

Acho que estamos vivendo uma situação híper complexa. De um lado, você tem uma imprensa que vem sendo atacada, principalmente por parte do Poder Executivo e de seus apoiadores, pelo desafio de fazer uma cobertura correta, profissional, empenhada em mostrar os vários lados de tudo isso, em uma situação de crise do modelo de negócio jornalístico mundial e crise econômica. Então, os desafios para a imprensa profissional, neste momento, são brutais. Ao mesmo tempo em que ela tem que enfrentar também uma brigada de manifestações nas mídias sociais, onde o jornalismo brasileiro não se sente muito em casa.

Como assim, não se sente em casa?

Você tem alguns veículos que não estão mais nas redes sociais, como a Folha de S. Paulo, por exemplo, que saiu do Facebook. Então, olha que situação complexa! A crise do modelo de negócio diminuiu o tamanho das redações, diminuiu os salários médios dos jornalistas e aumentou a responsabilidade e a demanda por um jornalismo profissional e responsável. Então, é a crise perfeita! Mas ao mesmo tempo, temos visto um trabalho heroico das redações, no sentido de expor as contradições em relação às questões sanitárias, entender o que está acontecendo de fato no Brasil com a covid-19. Se não fosse a imprensa profissional, nós não estaríamos tão bem informados sobre a situação real do País. Eu diria que é um trabalho heroico, até porque os profissionais da imprensa, assim como os da Saúde, também estão se expondo fortemente ao risco da contaminação, todos os dias, para levar informação correta ao público.

Um dos aspectos positivos de toda essa crise, e que parece até contraditório, é que houve um aumento da procura pela informação responsável, dos canais profissionais. Estamos vivendo isso aqui no Grupo Tribuna, e imagino que outros veículos também estejam percebendo. Você acredita que o saldo, então, possa ser positivo?

Sim, eu acho que vai haver uma revalorização do jornalismo e do jornalista profissional. Os recordes de audiência dos veículos on-line e até dos jornais impressos mostram exatamente isso. Agora o fato é que toda a indústria do jornalismo foi pega de calça curta com a história da pandemia.

Como assim?

Ela foi pega no momento importante de um processo de crise sistêmica do seu modelo. Então, ao mesmo tempo<CW0> em que essa indústria estava tentando ficar mais digital, ela estava cortando na carne por conta da discrepância das receitas. As receitas publicitárias no on-line são infinitamente menores que na TV e nos impressos. Então, o fato é que no meio desse processo veio a pandemia, e os veículos estão tendo que se virar para dar conta do recado, porque a população está recorrendo mais a esses veículos. Ela sabe que é ali que está a credibilidade, é ali que está o profissionalismo. Olha o desafio aí instalado!

Houve um momento em que muitas pessoas se satisfaziam em se informar apenas lendo os títulos na timeline das redes sociais, como o Facebook, por exemplo. Era um território de muitas fake news, inclusive. Você acha que esse momento passou e que vai surgir daí um leitor mais consciente sobre a importância da informação checada e responsável?

As pesquisas têm mostrado que o nível de credibilidade da população brasileira em relação aos produtos tradicionais está acima de 50%, seja de jornais, TV, rádio e sites de notícias. E que em relação às redes sociais está em torno de 12%. Então, é por isso que vários sites estão batendo recordes de audiência todos os dias. Nada mais que o real para mostrar essa transformação.

Temos visto uma relação muito conflituosa entre a imprensa e o Planalto, com ataques ferozes do próprio presidente e seus seguidores a jornalistas. Você teme que isso possa caminhar para um cenário de ruptura maior, com adoção de medidas mais drásticas por parte do Governo?

Eu acho que nós já estamos caminhando para um momento desses, em termos de desejo de controle. Essa é a via que está sendo trilhada e não só no Brasil. Veja que nos Estados Unidos, os jornalistas sofrem na relação com o (Donald) Trump. Algo bem parecido com o que o Bolsonaro faz aqui no Brasil. Mas enfim, eu acho que existe, sim, um desejo brutal, antiquado, ultrapassado de tentar controlar os meios de comunicação. O PT tentou fazer isso, o Bolsonaro está tentando fazer isso, a liberdade de expressão só vale pra ele. O momento é crítico nesse aspecto e que vem somar mais um ingrediente na crise de que falávamos.

Temos visto alguns modelos de negócios nos veículos de comunicação que aproximam muito a área comercial da área jornalística. Você acha que essa proximidade é perigosa para a credibilidade dos veículos porque pode confundir o público sobre o que é notícia e o que é publicidade?

A publicidade nativa (forma de fazer publicidade que usa o recursos do jornalismo para produzir textos publicitários), de certa forma, não é novidade. Esse recurso sempre foi muito usado, principalmente nas décadas de 80, 90. Esses recursos foram se sofisticando com uma narrativa nova, nessa publicidade nativa que chamamos agora, e que está bem presente nos meios digitais. Eu acho que existem maneiras corretas e incorretas de fazer isso.

E qual é a maneira incorreta?

É quando você esconde do seu leitor que aquilo é uma propaganda. E a maneira correta é deixar esse produto bem claro pro leitor de que se trata de publicidade. Mesmo assim, o leitor desavisado pode não perceber mesmo assim. Neste momento em que a busca por novas receitas é absolutamente necessária para a sobrevivência, a recomendação aos veículos é que deixe isso muito claro para o leitor de que se trata de publicidade.

Sempre há uma comparação do Brasil com outros países em todas as áreas, Educação, Economia, Cultura, Comportamento. Que momento a imprensa brasileira está vivendo em relação ao mundo?

Eu acho que a comparação possível é a da qualidade da nossa imprensa tradicional com a imprensa tradicional dos outros países. E nós temos uma imprensa de altíssimo nível. Veja, vamos pegar o caso de A Tribuna. Há mais de 100 anos vocês fazem jornalismo aí. Só qualidade sustenta um grupo de comunicação por mais de 100 anos. A produção jornalística brasileira é de primeiro mundo, pra usar um termo fora de moda. Então, apesar de todas as crises que vive a imprensa brasileira, a qualidade do que produzimos aqui é de primeiríssima, extremamente bem feito.

O veículo de comunicação, hoje, tem que fazer um bom jornalismo, ter publicidade, manter uma equipe enxuta e inovar a todo tempo. Quem está fazendo bem essa lição de casa?

Difícil responder. Sou muito cético. A Rede Globo, por exemplo, está tentando se transformar em uma empresa de tecnologia, o que é um bom caminho também. Nos Estados Unidos, quem está fazendo isso é o Washington Post, que vende sua tecnologia para outros grupos. 

Que recado dar aos jovens jornalistas, que às vezes parecem desestimulados com a profissão diante de todo esse momento de crise?

Isso passa. O contexto social e político pode provocar um pouco de desânimo, é claro, mas as pessoas estão se encontrando na internet, no ambiente digital, fazendo coisas bem feitas. Não vejo com preocupação isso não. Isso passa.

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