[[legacy_image_196254]] Mais de 20 anos após sofrer um episódio de terror, a personal organizer santista Shirley Cristiane Ribeiro da Silva Ferreira, de 45 anos, dá conselhos sobre superação e força para mulheres da Baixada Santista. Ela foi baleada por um ex-namorado. Clique, assine A Tribuna por apenas R\$ 1,90 e ganhe centenas de benefícios! A história de Shirley começou em 1998, quando sua vida virou de cabeça para baixo. Ela conta que estava namorando há cerca de quatro anos e meio e cursava o primeiro ano de faculdade. Naquela época, seu companheiro começou a demonstrar comportamentos abusivos. "No começo estava tudo bem. Mas, quando entrei na faculdade, não tinha tempo para estudar, porque tinha que dar atenção para ele", explica. Preocupada com o ciúme e suas prioridades, a personal organizer resolveu romper o relacionamento. Mas o término não foi bem aceito. "Ele foi no meu trabalho, estava com uma arma. Ele pediu para voltarmos e eu disse que não queria. Foi quando ele me deu dois tiros, um no braço e um próximo do coração, e deu dois nele também", relata. O ex-namorado de Shirley não resistiu, mas ela conseguiu ser socorrida a tempo. Fez cirurgia, mas permaneceu com o braço direito quebrado. Para não perder o semestre da faculdade, a então estudante treinou o braço esquerdo e voltou a estudar. "Eu falei ‘nada vai me parar’. Deus me deu uma nova chance de viver”, conta, orgulhosa. “Eu pedi muito a Deus ‘me deixe viver, eu quero fazer o bem pelo mundo, eu quero fazer o bem pelas pessoas’. E sou grata por viver e vivi todos os dias da minha vida”, diz Shirley, que a partir desse dia resolveu dedicar-se a ajudar pessoas. Ela trabalhou por 25 anos na empresa em que o caso ocorreu. Lá se qualificou para se tornar gestora, treinar e qualificar outras pessoas. E há um mês, também se dedica a cuidar de lares como personal organizer. Shirley fala sobre a importância da Lei Maria da Penha e o dever de denunciar. "Não tem que se rotular, a mulher tem que ter a força de não se submeter a nenhum tipo de violência. Não pode ter medo”, continua. "Me envolvendo em algumas palestras eu vi quantas mulheres precisam de outras”. HISTÓRIA DE AMOR O drama de Shirley teve um final feliz digno de conto de fadas. Depois do ocorrido ela voltou com o seu primeiro namorado da adolescência, “quando ele soube de tudo que aconteceu, ele terminou o namoro e me procurou”, diz. Hoje, eles estão casados há 20 anos e possuem uma filha de 17 anos. LEI MARIA DA PENHA A advogada e palestrante Thaís Perico é especialista em direitos humanos das mulheres e mestranda em políticas sociais pela Universidade Federal de São Paulo (Unifesp) UNIFESP, além de fundadora do primeiro escritório de advocacia para mulher na Baixada Santista. Ela conta que até 2017 não havia nenhum escritório com essa linha de atuação na região e a importância de atender mulheres resguardadas pela Lei Maria da Penha. "A gente entende que é essencial porque estamos lidando com uma sociedade patriarcal. O poder judicial foi feito para homens, construído por homens, pensado por homens, para atender aos interesses dos homens. Estamos lidando com desigualdade.” Thaís explica que a violência doméstica não é só física ou sexual. Que na maioria das vezes as mulheres que sofrem a violência física já apresentam sinais de abuso moral, psicológico e patrimonial."São tratadas com xingamentos, ofensas e humilhações, proibição de trabalhar, prejuízos. E é nesses casos que a Lei Maria da Penha entra em ação. Quando a gente lida só com a lei ordinária, a gente não consegue pegar as especificações que a Lei Maria da Penha nos traz. Nem todo caso previsto nela, necessariamente se encontra um artigo no Código Penal,” explica. A lei não é exclusiva apenas para quem tem um vínculo romântico com o agressor, em sua maioria, ela atende mulheres que foram vítimas de maridos, namorados, ex-namorados, mas também resguarda até vínculos familiares como pai, irmão, tio e padrasto. Além disso, a mulher não precisa morar no mesmo local que o agressor nem ser agredida fisicamente para ser protegida pela lei.