[[legacy_image_134602]] A consagrada atriz e cantora brasileira Maria José Motta de Oliveira, a Zezé Motta, também é reconhecida por sua militância nos movimentos negro e sociais. Zezé, com 77 anos de idade, soma mais de 50 anos de carreira. Neste sábado (18), ela será a estrela do festival Som das Palafitas, do Instituto Arte no Dique, em edição especial que homenageia os 80 anos de Gilberto Gil e Caetano Veloso. A apresentação será às 20h, pelo youtube.com/Artenodiquetv. Em entrevista exclusiva para A Tribuna, em meio a histórias de sua carreira, Zezé Motta fala sobre sua relação com Gil e Caetano, consigo mesma e a sociedade. Clique, assine A Tribuna por apenas R\$ 1,90 e ganhe centenas de benefícios! De que forma Gil e Caetano te marcaram e marcam até hoje? Em setembro de 1990, estreei o show Coração Vagabundo – Zezé Canta Caetano, uma grande homenagem a ele que, junto com Gil, foram de fundamental importância para meu trabalho. Conheci-os ainda na década de 60, quando comecei no Teatro Tablado, me formando em atriz. Amo a Bahia e os baianos. Gosto de tudo, das praias, comida. Há muito tempo que não vou, mas teve uma época que eu frequentava bastante. Após o sucesso de Xica da Silva, Gil e Caetano foram referência e apoiadores para você seguir à área da música? Referências e também inspiração. Através do teatro tive a oportunidade de trabalhar em musicais, peças como Roda Viva, de Chico Buarque, Fígaro, Arena canta Zumbi e Orfeu. No início da década de 70 comecei a cantar, inicialmente em casas noturnas paulistanas e, nessa mesma década, lancei três álbuns. No ano passado você relançou o show Coração Vagabundo — Zezé Motta canta Caetano. Como foi, para você, resgatar esse momento? Trinta anos depois, estou retomando esse projeto. Minha ligação com Caetano é antiga. Em 1978, ele compôs a música Pecado Original pra eu gravar. Se Deus quiser, assim que realmente passar a pandemia, eu quero fazer uma temporada e viajar com esse show pelo Brasil. O que o público pode esperar do repertório do show em O Som das Palafitas? Além do repertório do show Coração Vagabundo – Zezé Canta Caetano, vou cantar algo também de Gil, e estão me incentivando a contar histórias minhas com eles, o que farei. Eu uso a atriz a serviço da cantora. Lembro também que, com Gil, participamos juntos de uma exposição onde eu representava Oxum e ele Oxalufã, orixá que representa o infinito. Com 77 anos e mais de 50 de carreira, você viveu vários períodos do Brasil. Comparando o Brasil de 1967, quando você estrelou a peça Roda Viva, com o de hoje, o que se transformou e o que segue sendo perpetuado? Se as pessoas te chamarem de velha e você aceitar isso, você fica velha mesmo. Por enquanto, estou lutando contra os limites. Minhas coleguinhas diziam que meu nariz era chato. Minha bunda, grande. Meu cabelo, ruim. Sem intenção de ofender, passavam a mão no meu black e diziam: “Nossa, parece um bombril, por que você não alisa isso?”. Eu me sentia realmente inferior e feia. Democracia no Brasil nunca houve e nunca haverá enquanto o racismo for o pilar do nosso País, da nossa sociedade. Sempre neguei a falácia da democracia racial e lembro que, quando começamos a falar de um movimento negro para combater o racismo no Brasil, diziam que estávamos importando um problema dos Estados Unidos. Diziam isso a mim, que sou do tempo em que negros não entravam na porta principal dos edifícios de luxo. Você tem uma atuação múltipla como artista e militante político-social. Como se vinculam essas áreas da sua vida? Uma luta muito grande, nesses anos todos as coisas estão mudando devagarzinho. A gente está vendo aí negros protagonistas de novelas. Eu mesma já fiz vários papéis importantes. A raça e a luta ficam. A arte fica, o amor fica, a resiliência fica, a esperança fica. O cansaço sai. A ansiedade sai. O medo sai e a vontade fica. A cor também fica. Você veio de uma família com veia artística. Mas como foi sua aproximação pessoal com arte? Minha mãe era costureira, trabalhando aos finais de semana em casa e durante a semana em uma confecção, e chegou a ter seu próprio ateliê de moda. Meu pai, motorista, também escrevia músicas e cantava eventualmente, na noite, quando estava de folga do trabalho. Nos mudamos, pequena ainda, para o Morro do Cantagalo, em Copacabana. Tive Marieta Severo como amiga de infância – tudo isso ajudou no despertar. Você constantemente se reinventa. Como é essa nova fase de imersão nas novas tecnologias? Potencializada com a chegada da pandemia, em que você viveu um ‘boom’ nas redes sociais. Todos nós tivemos que nos reinventar durante a pandemia. Me considerava semianalógica. O fato de ter uma secretária o tempo todo do lado me deixou meio acomodada. Não sabia nem ligar o computador, por exemplo. Com a pandemia, minha secretária está trabalhando de casa. Quando me vi sozinha, disse: “Meu Deus, e agora?”. Pedi ajuda para um amigo que é meu produtor, que mora mais perto de mim. É impressionante, é um caminho sem volta. Quando você acha que está dominando, descobre mais novidades. Como você se relaciona com o seu novo público? Como é estar em um local de ‘referência’, influenciadora? Quando você se interessa por isso, acaba virando um comprometimento, um hábito. É como se eu tivesse uma coluna nas redes sociais. Quando um assunto me chama atenção e acho que é importante, me vem aquele sentimento de que não posso guardar aquilo só para mim. Vem aquela vontade de compartilhar. Na sua juventude, quem eram suas referências? Você sentia falta de representatividade? Angela Maria, Marlene, Nora Ney, que eu amava ouvir no rádio. Ruth de Souza, a nossa grande dama do teatro brasileiro, partiu. Minha comadre Marília Pêra, minha amiga, irmã, conselheira. Meu amigo, irmão, parceiro, Luiz Melodia. Mês passado você lançou Desprotegidos Pela Sorte. Uma música forte, de denúncia. Como foi participar dessa canção? A canção é uma parceria entre Ronaldo Bastos, César Lacerda e Leo Pereda, e fala sobre as ruínas do agora, de um Brasil assolado. Quando eu recebi a letra, pensei ‘como vai ser? não vou dar conta disso...’. Quando ouvi que era um ritmo rap, senti uma certa leveza. A letra é muito forte, muito verdadeira, muito o que a gente está vivendo mesmo, fala da desigualdade, da miséria, da fome, é um absurdo a gente imaginar que tem gente no país sem comida. Tem muitas questões com esse governo, que não fomenta a questão da cultura. Enquanto houver discriminação no Brasil, a gente não pode desistir, nem sair dessa luta. Já em Dentro, também lançada este ano, você fala sobre o autocuidado. Como você se relaciona hoje com sua autoestima, com seu autocuidado? Com o passar dos anos, tem ficado mais fácil reconhecer suas potências e olhar com carinho para ‘dentro’? Não penso que tenho 77 anos. Às vezes, sinto uma dor aqui, outra ali, logo tomo um remedinho e foi! Já quero saber logo da minha agenda do dia seguinte. Não paro de trabalhar. Fiz anos de análise e tive todas as crises que uma mulher pode ter. Agora cansei, desencanei. Falando sobre o futuro, em uma entrevista você brincou que “aos 80 anos vai parar”. Mas, até os 80 anos, tem algo específico que você almeja realizar? Quais são seus planos para os próximos anos? Eu tive a crise dos 40, dos 50, dos 60. Me afetava quando as pessoas diziam: nossa você tinha um corpão quando era jovem. Depois cheguei aos 70 e cansei. A partir daí mais nenhum comentário me atingia. Vou ficar sofrendo porque estou com 70 anos? Estou viva, com saúde, produzindo! Mal penso na idade que tenho. Eu me cuido, com muito carinho. Uso muito creme, do dedão do pé aos fios de cabelo. E cuido muito da minha alimentação, faço caminhadas… adoro! Na minha família, as mulheres têm tendência a ganhar peso com a idade, por isso me cuido muito. E não é pela estética, é uma questão de saúde. Com o tempo, tive que mudar a minha alimentação. Eu fui criada comendo toucinho com farinha, isso não me faria bem hoje. Bebo muita água também. Desejo almejar muitas coisas. Chegar em uma certa idade é algo vitorioso, mas é também ficar órfã. Órfã de amigos da infância, de colegas do ginásio colegial, do curso de teatro, do inglês, órfã de lugares que você frequentou, órfã de um mundo e de uma geração inteira, que você viu e que não existe mais. Não estou falando de saudosismo e nem deixando de encarar o novo, as evoluções, o século 21. Saúdo a praticidade, a tecnologia e tudo de novo e melhor que a vida nos apresenta. Por fim, há algum papel ou alguma parceria musical que você sonha em fazer e ainda não teve a oportunidade de realizar? Onde Zezé Motta sonha estar? A idade vai chegando, a gente vai ficando preocupada, mas ao mesmo tempo a gente fica menos ansiosa. Acabou-se aquele mito que a partir da menopausa a mulher não tem mais desejo… eu quero continuar trabalhando, estou na expectativa de um grande amor.