[[legacy_image_214330]] O maestro santista Gilberto Mendes, um dos principais nomes da música contemporânea de vanguarda, faria 100 anos hoje. Pioneiro em música aleatória (termo criado pelo compositor francês Pierre Boulez para nomear trabalhos com mais liberdades de ordem e repetição) e também em música concreta (eletrônica, produzida a partir de edição de áudio unida a fragmentos de sons naturais e/ou industriais), ele é homenageado em uma série de eventos na Cidade (veja lista mais abaixo). Mendes morreu em 1º de janeiro de 2016, aos 93 anos. Clique, assine A Tribuna por apenas R\$ 1,90 e ganhe centenas de benefícios! Sua obra mais famosa é Moteto em Ré Menor, de 1967, conhecida como Beba Coca Cola, que foi feita para vozes de coral e poema de Décio Pignatari (ensaísta paulista que morreu em 2012). Na obra, ficam em destaque sua diversidade sonora, o humor e a crítica social. Também se destacou ao longo de sua vida a obra Santos Football Music, de 1969, que recriou uma partida de futebol em forma de orquestra e até hoje é reconhecida como exemplo do aspecto teatral na produção de Mendes. Entre os feitos de Mendes, está a criação Festival de Música Nova de Santos, em 1962, palco para músicos e compositores mostrarem suas obras. “Gilberto foi meu mentor a partir de 2006. Peguei o telefone dele num banco de dados da Unicamp (Universidade Estadual de Campinas) e liguei num domingo à noite. Ele introduziu as técnicas mais contemporâneas da composição. Abriu minha cabeça para horizontes musicais mais largados dos quais estava acostumado”, conta o maestro santista João Rocha, de 38 anos, um dos poucos negros no cenário da música clássica e que hoje mora nos Estados Unidos. O maestro compôs a Sinfonietta Concertante, em homenagem ao Mês da Consciência Negra, para a Orquestra Sinfônica da Universidade de São Paulo (USP), celebrando os compositores negros brasileiros. Rocha conviveu dez anos com Gilberto Mendes e destaca seu legado. “Ele trouxe para o Brasil a música aleatória, o teatro musical, técnicas de vanguarda”. Pessoalmente, ele era “carinhoso e engraçado”, diz. “Seu senso de humor era algo muito curioso. Foi um dos primeiros intelectuais com quem tive contato. Eu passava horas escutando-o. Chegava em sua casa por volta das 15 horas e saía de lá às 19 horas. Em 90% desse tempo, era ele falando e eu ouvindo”, lembra Rocha. HomenagensHoje, um trecho da obra de Gilberto mendes será reproduzido no Teatro Municipal Braz Cubas, com a Orquestra Municipal de Santos (OSMS) e o Coral Municipal de Santos. Sob regência de Nailse Machado, o coral vai apresentar composições de Gilberto Mendes e canções que marcaram sua vida, tais como Anjo Esquerdo, Ave Maria, Inspiração, Salada de Frutas e Mamãe Eu Quero Votar. “Gilberto, como sabemos, é um amante das artes em sua totalidade. Um amante da música, do cinema, da literatura, e uma das peças que faremos na homenagem, Inspiração, com letra de Mário de Andrade, Gilberto se comoveu com as palavras do poema, que é uma declaração de amor à cidade de São Paulo. O emocionante é que Gilberto confessa que, mesmo não concordando com muitas das ideias de Mário de Andrade, ele o admira por sua inteligência e o acha realmente ‘delicioso’”, conta Nailse Machado. Ela conta que essa peça é justamente para homenagear tanto Gilberto quanto a Semana de Arte Moderna de 1922. “Essa sua veia multifacetada artisticamente explica seu amor pelo canto, que envolve essas duas artes, a poesia e a música, porque Gilberto foi um cronista do seu tempo, do nosso tempo. Ele escreveu sobre as Diretas Já, sobre tragédias como as da Vila Socó, entre vários acontecimentos que o marcavam, que o emocionavam”, diz a regente. O maestro, arranjador e escritor Júlio Medaglia era amigo de Mendes e afirmou que ele era muito diversificado. “Ele soube fazer uma crônica da música de vanguarda do seu tempo”. Segundo Medaglia, que integra a programação do centenário em homenagem ao centenário de nascimento, Mendes não foi um sectário. “Ele soube fazer crônicas de diferentes épocas. Na constante mudança que foi o século 20, ele se transformou com a mesma velocidade e diversidade, abordando todas essas modificações como ninguém”. ProgramaçãoTeatro Municipal Braz Cubas (Av. Pinheiro Machado, 48)Quinta (13)- 20h: Concerto em homenagem ao centenário de Gilberto Mendes Teatro Guarany (praça dos Andradas, 100)Sexta (14)- 18h30: Lançamento do livro Gilberto Mendes, notas bibliográficas, de Flávio Viegas. Bate-papo: Flávio Viegas Amoreira, Manuel da Costa Pinto, José Eduardo Martins, Márcio Barreto e Zé Tahan. Sábado (15)18h: Lançamento do livro Poéticas do Agora (Editora Imaginário Coletivo), organização de Márcio Barreto- 18h30: A música dos séculos (palestra), com Júlio Medaglia.- 20h30: Percutindo Mundos: O imponderável estado do mar (música). Domingo (16)- 18h: Livro: É sal é sol é sul de nouveau... Pois- 19h: As canções de Gilberto Mendes (concerto), com Rubens Russomanno Ricciardi- 20h: Ouvivendo Gilberto, com Antonio Eduardo (piano) e Ensemble Gilberto Mendes