[[legacy_image_245248]] Sobreviver. Uma palavra que tem muitos sentidos, amplos matizes. Mas para Takashi Morita, 98 anos, Kunihiko Bonkohara, 82 anos, e Junko Watanabe, 80 anos, concentrada em um ponto sensível do tempo, ela ganha um contorno de horror e drama. Clique, assine A Tribuna por apenas R\$ 1,90 e ganhe centenas de benefícios! As vidas dos três cruzaram com um dos piores momentos da História da humanidade: eles estavam em Hiroshima, no Japão, no dia 6 de agosto de 1945, quando os Estados Unidos lançaram sobre a cidade uma bomba atômica, no apagar das luzes da 2a Guerra Mundial. As memórias dos três naquele dia serão partilhadas hoje, a partir das 20 horas, no palco do Teatro Procópio Ferreira (Av. Dom Pedro I, 350, em Guarujá), na peça Os Três Sobreviventes de Hiroshima, que mergulha nas vivências pessoais e resgata da frieza dos livros sobre o episódio a emoção extrema de encarar a face da morte. “Eles têm uma missão: prometeram a eles mesmos transmitir isso adiante; eles passam por cima de seus traumas. Nesse sentido, não é uma simples peça teatral, é um acordo. Temos fé que a humanidade pode acordar”, relata o produtor e diretor Rogério Nagai. Estudos sobre imigraçãoO espetáculo nasceu ainda em 2012, a partir de um projeto da Secretaria de Cultura de São Paulo de estudar e aprofundar o tema da imigração japonesa, pelo teatro. Seriam 10 temas, em 10 espetáculos. “Percebi que havia pouca coisa sobre a guerra no Japão. Havia Pearl Harbour (o ataque camicase japonês à base americana, em 1942) e o ataque nuclear norte-americano”, recorda. Com ascendência japonesa – sua avó era de Hiroshima, mas imigrou antes da guerra –, Nagai viu ali uma chance de resgatar as próprias raízes. Contudo, ele nunca imaginou que encontraria sobreviventes diretos da tragédia, vivos. “A ideia original era montar com filhos e netos de sobreviventes”. Hoje, no Brasil, segundo ele, ainda vivem 70 testemunhas do ataque nuclear. Atualmente, a peça tem apoio do Governo de São Paulo, via Programa de Ação Cultural (ProAc), e viajará por sete cidades do Estado – Guarujá é a primeira. A vida no palcoO enredo, claro, gira em torno daquela manhã de 6 de agosto de 1945, mas prima sobretudo por desvelar o seres humanos por trás da bomba. Nesse sentido, os sobreviventes relembram a infância, os costumes, a rotina na época; relatam ainda a vinda ao Brasil, a reconstrução da vida por aqui. “Você chora, reflete, ri, pois há situações muito engraçadas no Brasil”. É a humanização da História no palco. Uma história que também é escrita na subjetividade de cada um. Como foi o caso de um espectador, que após uma sessão foi conversar com Rogério com os olhos mareados. Estava com a mulher e a filha e começou dizendo da emoção de perceber que as agruras dele eram nada, perto do que aqueles três seres haviam experimentado. “Ele tinha descoberto um câncer duas semanas antes e o médico havia lhe dado um ano de vida”, recorda Rogério. “Ele disse que o espetáculo tinha dado força para que fosse operado, fizesse o tratamento e superasse a doença. Mais de um ano depois, ele voltou para ver outras apresentações. É, talvez, quem mais tenha assistido ao espetáculo”. HolocaustoO projeto visa expandir a consciência sobre a importância da paz entre os povos. E deu tão certo, que Rogério já tem outro espetáculo na mesma linha, mas se debruçando sobre sobreviventes do Holocausto nos campos de concentração. “A gente se propõe a fazer um trabalho tão doloroso, sem apelo econômico... é um ativismo. A arte tem um papel transformador”. Sem apelo econômico mesmo: o espetáculo desta noite tem entrada franca, mas os ingressos devem ser retirados antecipadamente em www.sympla.com.br e na bilheteria do teatro, uma hora antes do seu início.