A cantora nasceu em Portugal, mas mora no Brasil desde os 8 anos (Rodrigo Franco/ Divulgação) Onde houver alma e coração, haverá fado. Em Santos, não faltará nenhum dos três nesta quinta-feira (22), a partir de 20 horas, quando Ana Lemos subir ao palco do Teatro Guarany (Praça dos Andradas, 100, Centro). Em show intitulado De Alma e Coração, a cantora, nascida em Portugal, passeia pelo gênero mais característico da ‘terrinha’ – porém, com uma proximidade maior do que se imagina com a música brasileira. Clique aqui para seguir o canal de A Tribuna no WhatsApp! “O fado tem muita semelhança com o choro e até, inclusive, com o samba. São dois estilos que falam de amor, de saudade, de tristeza e têm que ser cantados com muita emoção”, explica. As origens do fado são incertas. Há uma corrente que defende uma certidão de nascimento brasileira: um derivativo do choro; ou, até, que o gênero teria raízes africanas, no lundu originalmente praticado em Angola. Pelas semelhanças que já apontou com o samba e com o próprio choro, Ana Lemos não duvida da origem verde e amarela. Mas como não há comprovação, só hipóteses, Ana abraça a origem endógena, ou seja, ocorrida em Lisboa. “Acredito que o fado tenha vindo mesmo das ruas, de quando as mulheres ficavam ali sozinhas, sem os companheiros, quando os homens iam para o mar”. Guitarra x bandolim Seja como for, as semelhanças vão se empilhando. Tome-se, por exemplo, o bandolim, característico do choro, e tente nomear um fado sem a tradicional guitarra portuguesa: não há. Ambos os instrumentos são muito parecidos, especialmente no formato, mas também, em boa medida, na sonoridade. Esses cruzamentos de gênero estarão presentes no show de hoje, enfatizando as similaridades. Por exemplo, Ana irá apresentar um samba do cantor e compositor carioca Rodrigo Maranhão, Samba de um Minuto, sem fugir da seara do fado. Também está no programa da noite um clássico brasileiro supremo: o samba A Vida É um Moinho, de Cartola. “Se você parar para ouvir, essa música é um fado: é cantada com tristeza. Se você canta um samba sem colocar a emoção, fica uma música sem sentido. Da mesma forma o fado: sem o coração, é só uma letra. Os dois gêneros pedem a mesma intensidade, o mesmo sentimento”. Sotaque instintivo Ana Lemos mudou-se de Portugal para o Brasil com os pais e o irmão quando tinha oito anos, em 1985. Era uma época em que Portugal atravessava uma crise econômica, na esteira da Revolução dos Cravos, em 1974. A mãe já tinha tios radicados em Belém, no Pará, e o irmão do pai morava em Santos. Com essa rede de apoio, natural que viessem para o Brasil. Após dois anos em Belém, fixaram-se em Santos. “Nem ouvia música portuguesa. Gostava de Roberto Carlos”, sorri. “Na adolescência comecei a ter contato com o fado, ouvindo fadistas mais novas, que vinham ao Brasil, a Dulce Pontes. Depois vieram Ana Moura, Carminho e, claro, Amália Rodrigues”, recorda. Mas Ana não canta apenas fado. Já se apresentou até com canções de Rita Lee. E como cresceu no Brasil, sem um traço do sotaque característico. Até abrir a boca para derramar um fado... “É instintivo cantar com sotaque. Assim como é instintivo, pra conversar ou cantar MPB, tirar o sotaque”, explica. “Se leio livros de autores portugueses, como José Luiz Peixoto, José Saramago, na minha cabeça, já me peguei lendo com sotaque português”. Fado, samba, choro, sotaque: passando a régua, tudo se resume a alma e coração. “Alma para entregar tudo, cantar com alma, e me entregar de coração: tudo aquilo que amo fazer, cantar, e que preciso expressar”.