[[legacy_image_266236]] Tudo começou com um violão, aos seis anos, presente de aniversário da avó materna. Cinquenta e um anos depois, a cantora e compositora – e violonista – Adriana Calcanhotto chega ao centro de convenções de Santos, hoje, às 21h30, para apresentar o espetáculo Gal: Coisas Sagradas Permanecem. “Não pedi (o violão, aos seis anos), levei um susto muito grande, embora estivesse acostumada com instrumentos na minha casa, porque os conjuntos musicais em que meu pai tocava ensaiavam lá na garagem”, relembra. Clique, assine A Tribuna por apenas R\$ 1,90 e ganhe centenas de benefícios! O violão-surpresa já era um indício; o pai, Carlos Calcanhoto, baterista de jazz e bossa nova, outra indicação; ainda por cima, a mãe, Morgana Assumpção, era bailarina. Impossível que a arte não fizesse parte da vida dessa gaúcha de Porto Alegre desde tenra idade. “O violão que eu queria muito foi aos 15 anos – eu já estava compondo –, e ganhei da minha mãe”. Fechado o círculo? Nem tanto. Se a influência doméstica ajudou a definir a futura artista, são as influências externas que moldam como será essa artista. Nesse rol, surge o nome da cantora que hoje Adriana, com reverência e orgulho, leva ao palco. “Só Louco tocava na trilha sonora de uma novela que minha vó assistia, O Casarão (1976). Volta, de Lupicínio Rodrigues (na voz de Gal), me marcou quando jovem”, recorda. RepertórioNão por acaso, essas canções estão incluídas no show. Aliás, a escolha do repertório foi um capítulo à parte na delicada operação de remontar Gal Costa no palco: afinal, como condensar em duas horas uma carreira monumental, que atravessou cinco décadas, com mais de mil gravações registradas no Ecad? “Pra gente partir de alguma coisa, o Marcus Preto (que foi produtor de Gal e está à frente do show) sugeriu canções escritas para Gal”, diz Adriana. Por essa janela, entram músicas como Caras e Bocas (Caetano Veloso) e Meu Nome É Gal (Erasmo e Roberto Carlos). Outro tempero do repertório veio do caudal de canções que marcaram a própria Adriana durante sua vida, como as já citadas Só Louco e Volta. Por fim, as duas canções compostas por Adriana, gravadas por Gal, Esquadros e Livro do Amor. “Gente que já foi ao show, diz que os pilares da música que ela fez estão representados. Isso me deixa muito feliz”. [[legacy_image_266237]] Homenagem e protestoA turnê teve início em ‘sua casa’, Porto Alegre, 27 de abril. Nesse espetáculo, causou furor ao ficar com os seios à mostra, repetindo gesto de Gal Costa em um show de 1994, no Teatro Imperador, no Rio, durante a música Brasil, de Cazuza. Na ocasião, Gal justificou, afirmando que aquele era um ato político. Quase trinta anos depois, Adriana reputa o caráter de homenagem na repetição do gesto, para lembrar “as ousadias todas de Gal”. Porém, a mera homenagem, partindo de um artista, por ser uma escolha, sempre há de caracterizar um ato político. Como diz a letra, “Brasil, mostra a tua cara”: qual a cara do País? “O Brasil que estamos vivendo, acho que é o resultado do que ela estava berrando lá atrás. A gente descuidou de várias coisas e viveu a consequência disso. Agora, precisamos trabalhar para construir de novo coisas que foram destruídas”. Tudo é meioAo contrário de Gal Costa, que sempre soube que seria cantora, e apesar de todo o estímulo dentro de casa, Adriana viveu o dilema adolescente sobre o que faria no futuro. “Passei por todas aquelas dúvidas: (se seria) veterinária, astronauta, tenista, designer...”, sorri. Hoje, os dilemas engavetados (ao menos os adolescentes...), a certeza de que a arte é um meio, jamais um fim. “Para mim, tudo é meio. Como diz Antonio Cícero (compositor, na canção O Meu Sim), ‘talvez o fim não seja nada e a estrada seja tudo’, é o mais parecido comigo”. Se a arte é um meio, a vida é sua principal obra. Em cada momento, um novo verso, uma nova canção. “A arte e o amor são as coisas mais revolucionárias: é por essas duas coisas que a gente muda. E a gente mudando, muda o mundo”. Após o início, em Porto Alegre, a turnê já passou por Curitiba, Rio de Janeiro, Belo Horizonte, São Paulo. A última parada, depois de Santos, será Salvador – terra de Gal. Serviço: Adriana Calcanhotto, no show Gal: Coisas Sagradas Permanecem, Centro de Convenções de Santos (Praça Gago Coutinho, 29). Hoje, a partir das 21h30. Ingressos, entre R\$ 50,00 e R\$ 240,00, à venda pela internet.