[[legacy_image_270073]] Ao longo da vida e da carreira, ela passou por algumas provas de fogo. Hoje, aos 78 anos, Wanderléa deseja continuar emocionando o público com seu canto. E o faz, agora, de uma maneira inusitada a quem aprendeu a conhecê-la como a Ternurinha do rock: Wanderléa Canta Choros é o seu novo álbum. Clique, assine A Tribuna por apenas R\$ 1,90 e ganhe centenas de benefícios! “Me traz muita alegria voltar às minhas lembranças de infância, quando cantava na rádio Mayrink Veiga, boleros, e, principalmente, choros”, revela a cantora. Isso foi nos anos 50, quando ela ainda nem sonhava em ser a estrela daquelas tardes de domingo, ao lado de Roberto e Erasmo Carlos, no programa Jovem Guarda. Ou seja, a origem musical de um dos ícones do rock brasileiro é na mais pura MPB. “Cantava alguns chorinhos, tentava decorar as letras, letras corridas, palavras que eu nem costumava usar, uma poética e uma agilidade para cantar... Eu sentia que tinha facilidade de cantar uma música mais brejeira, brasileira”. Wanderléa nem imaginava, mas justamente a facilidade em cantar essa música “brejeira, brasileira” a levaria para os domínios do rock. Aos 9 anos, ela ganhou um concurso que lhe rendeu um contrato de gravação com a então Columbia – depois CBS. “Eu era muito criança, meu pai não deixou eu cumprir o contrato, ele achou que ia dificultar meus estudos”. Era 1954 e esse contrato foi para o fundo da gaveta. E esperou a sua hora. Música jovemO calendário pula para 1962. Wanderléa estava com 18 anos e o canto ia bem, obrigado: ela já havia até sido crooner da Orquestra de Astor Silva, que se consolidou como uma das big bands do Brasil durante os anos 1950. Nessa época, os ritmos jovens e importados dos Estados Unidos, como o twist e o rock, estavam em alta. A CBS já estava fechando com Roberto Carlos e outros artistas da nova geração. Mas faltava uma moça cantando rock. Foi então que lembraram do contrato daquela menina, já amarelado dentro da gaveta. A primeira música gravada foi Meu Anjo da Guarda. O resto é história. “Achava bobinha, ‘meu anjo da guarda/eu quero saber...’, eu já cantava coisas mais sérias, embora fosse bem jovem”, sorri. “Mas eu achava o rock divertido, porque gostava de performance, sempre gostei de dançar, de mexer o corpo. O rock me pegou por esse lado”. EncantadosA música brasileira tem sofrido grandes e sucessivas perdas nos últimos meses. Gal Costa, Rita Lee e o seu irmão de coração, Erasmo Carlos. Wanderléa preferiu não ir ao enterro deles. “Para mim, eles estão vivos, dentro do meu coração. A qualquer hora, vamos nos reencontrar”. Essa crença tão forte é fruto das perdas que a vida lhe impôs. A mais recente, ano passado, quando perdeu o irmão mais velho. Em 1982, o filho Leonardo, com o marido Lalo Califórnia, de apenas 2 anos, caiu na piscina e se afogou. “Fico imaginando que eles estão encantados, em um outro mundo, e que nós vamos nos transformar, que a energia, de alguma forma, vai se reencontrar em outro espaço, outro contexto”, enfatiza. SonhosO sucesso da Jovem Guarda propiciou à cantora investir em projetos que evidenciavam a sua inspiração para além do rock. Assim é o álbum de 1972, ...Maravilhosa, que tem, sim, rock, mas flerta ainda com samba, swing, choro e até valsa. Ou o de 1977, Vamos que Eu Já Vou, produzido por Egberto Gismonti, com influências de soul, blues, e até xaxado. É nesse contexto, de uma obra rica e plural, que a chegada de Wanderléa Canta Choros não surpreende. Com tanto já feito, tenta-se imaginar o que ainda falta fazer. A própria cantora enumera: “Muitos projetos. Estamos bolando, eu e meu companheiro de vida, o Lalo Califórnia, um trabalho com músicas autorais, fora do contexto do que está rolando na mídia. Tem as cantoras do rádio, projetos de cantar blues...”. Os sonhos são poucos, mas magnânimos. A saúde está no topo, não só para acompanhar a vida e as descobertas das netas, mas continuar levando o seu canto para o mundo. “É uma missão (cantar) e alegrar esse público que me acompanhar durante todos esses anos”. O álbum Wanderléa Canta Choros está à venda a partir de hoje na loja do Sesc Santos (Rua Conselheiro Ribas, 136) ou no portal do sesc, a R\$ 25,00. A cantora se apresenta nesta sexta (26), no teatro da unidade santista, mas os ingressos estão esgotados.