[[legacy_image_36469]] O cinema é uma fábrica de mitos, e poucas dessas narrativas fantásticas são tão intrigantes quanto a da maldição que transforma suas vítimas em um ser monstruoso, metade humano, metade lobo. Claro que histórias com lobisomens sempre existiram, principalmente no folclore europeu, mas foi Hollywood quem inventou o monstro com a forma e os clichês que se tornaram padrão na cultura contemporânea. Clique e Assine A Tribuna por apenas R\$ 1,90 e ganhe acesso completo ao Portal e dezenas de descontos em lojas, restaurantes e serviços! Dos três filmes que definiram esse mito cinematográfico, um completa nada menos que 80 anos, e os outros dois, 40. O Lobisomem (1941), Grito de Horror (1981) e Um Lobisomem Americano em Londres (1981) já não assustam como antes, mas pouco importa. Eles são clássicos, e moldaram esse subgênero do cinema de terror. Nas décadas de 30 e 40, o estúdio Universal criou a galeria básica de criaturas de pesadelo (Drácula, Frankenstein, a Múmia, o Homem Invisível, o Monstro da Lagoa Negra) que são recicladas, de um modo ou de outro, até hoje. O Lobisomem, uma de suas produções mais notórias, estrelada pelo lendário Lon Chaney Jr, estabeleceu convenções como a maldição da lua cheia, a transmissão da licantropia pela mordida e a bala de prata como solução para esse problema. O sucesso do filme gerou uma enxurrada de derivados, como as dezenas de produções baratas do espanhol Paul Naschy, nas décadas de 60 e 70. A vala comum do terror B foi o destino dos homens-lobo, até que dois jovens realizadores, Joe Dante e John Landis, influenciados pela ousadia dos diretores da Nova Hollywood, devolveram ao monstro não só a dignidade perdida, como o sentido de ameaça implacável e, acima de tudo, aterradora. Mais que nunca, o lobisomem se tornava uma metáfora para o lado mais primitivo e animalesco do ser humano. Só que, agora, a selvageria tradicional era reforçada por efeitos especiais de última geração (para a época). Pela primeira vez, as transformações aconteciam de modo explícito, sem cortes ou truques baratos. E elas continuam impressionantes, ainda mais quando se leva em conta que resultaram de uma técnica que precedeu em muitos anos a computação gráfica. O Lobisomem Americano em Londres, de John Landis (Blues Brothers, Trocando as Bolas), teve esses avanços reconhecidos com o Oscar na categoria, então estreante, de melhor maquiagem. Ele mostra em plausíveis detalhes gráficos toda a dor física que resultaria da mutação de um corpo humano que reverte ao estado de uma fera selvagem. Grito de Horror, de Joe Dante (Piranha, Gremlins), não era menos eficiente – pelo contrário, em alguns aspectos, como na violência, conseguia ter um impacto ainda maior. Em termos de estilo, ambos apontavam para a linguagem do que seria o terror nos anos 80. Era a mesma inclinação, muito pós-moderna, a injetar ironia mesmo num gênero que sempre se impôs por uma seriedade impiedosa. O cinema de terror, até então, se preocupava, quase que exclusivamente, em chocar e assustar a plateia. Landis e Dante, por não estarem presos a algum tipo específico de filme, pediam ao público para não esquecer de que há um certo ridículo implícito nas histórias de monstros. Para isso, faziam comentários por meio de elementos externos ao roteiro. Os acontecimentos em Lobisomem Americano são pontuados por canções famosas que fazem referência à lua cheia e a lobos. Em Grito de Horror, um desenho animado na TV mostra um lobo atacando um rebanho de carneiros, enquanto a fera avança sobre uma de suas vítimas, do outro lado da tela. As produções atuais, mesmo com toda a tecnologia digital a seu favor, não conseguem fazer com que O Lobisomem da Universal e seus dois herdeiros sejam esquecidos. A atmosfera sinistra, opressiva, desses filmes não tem como ser replicada com a mesma facilidade com que os efeitos visuais foram superados. A noite pode ter estrelas, mas na lua cheia, o que brilha é o medo.