[[legacy_image_265776]] Está no rádio, na tevê, na internet: um pedaço do coração do Brasil parou de bater. E não só pela emoção da perda da Rainha do Rock, mas porque Rita Lee Jones personificava uma tradução do País, em sua música, em seu jeito de ser. Clique, assine A Tribuna por apenas R\$ 1,90 e ganhe centenas de benefícios! “O grande mérito dela, é que ela pode ser considerada uma das inventoras do pop brasileiro”, analisa o jornalista especializado em Música Jotabê Medeiros. “Antes, havia a Jovem Guarda, mas que tinha um débito com linguagens importadas. Ela é a primeira que dá uma característica nacional ao pop”. Rita entrou em cena em 1963, aos 16 anos, no trio adolescente Teenage Singers. O grupo chegou a gravar backing vocals em uma canção do astro da Jovem Guarda, Prini Lorez – apelido de José Glagliard Filho (1942-1967). Mas foi a partir de 1967, junto com os irmãos Arnaldo Bapstisa e Sérgio Dias, que Rita ‘arrombou a festa da música nacional’ nos Mutantes, outro trio. O grupo garantia uma boa dose de rock com pitadas britânicas e psicodelia, bem temperados com a brasilidade dos baianos Caetano Veloso e Gilberto Gil. Tudo isso servido em porções de deboche e ironia. Esse caudal traduziu-se na Tropicália, movimento que oxigenou a MPB no final dos anos 60. “Havia a marca dela. Ela deu vida àquelas canções, às experimentações. Sem ela, não haveria a centelha, a combustão (nos Mutantes). Só ali, ela já teria garantido a eternidade”, analisa Jotabê. [[legacy_image_265777]] RupturasMas foi justamente ao se desligar dos Mutantes, e associar-se ao grupo Tutti-Frutti, que começou a delinear um pop possível nacional – o epíteto de Rainha do Rock seria limitador, se não tanto na sonoridade, na temática, analisa Jotabê. “Havia até uma pegada de Led Zeppelin, no som, mas a temática propunha uma aproximação (ao público), era menos intelectual”. Nessa época, surgem álbuns e canções clássicos: Agora Só Falta Você, Jardins da Babilônia e Ovelha Negra, por exemplo. Todas compostas por ela, sozinha, ou com parceiros, como o escritor Paulo Coelho, por exemplo. Um grande feito para uma mulher, no Brasil de meados dos anos 70. “Numa época em que só havia cantoras intérpretes, ela era band leader (vocalista) e foi primeira mulher que disse: ‘vou fazer minha música’. Mas isso era muito mais reflexo da personalidade dela, do que uma consciência feminista”. Ou seja, com sua arte, ela construiu um manifesto de si mesma, se afirmando como ser humano: “pra pedir silêncio, eu berro, pra fazer barulho, eu mesma faço”, como em Jardins da Babilônia. Nesse processo, empunhou a bandeira da representatividade feminina. “Ela era muito corajosa. Havia uma ditadura ali. Embora ela não fosse politicamente engajada, ela era revolucionária ao desafiar os costumes com sua postura. E isso é afrontar a própria hipocrisia. Ela ensinou a gente”, afirma o cantor santista João Maria, que criou um projeto musical com as canções de Rita. Rebelde do bemNo final dos anos 70, ela conheceu o mais novo parceiro e amor de sua vida: Roberto de Carvalho. Entre 1979 e 1982, lançou quatro álbuns capitais não só de sua carreira, como do pop nacional. Canções eternas como Baila Comigo, Mania de Você e Lança Perfume, são dessa época. “Os boleros da Rita... é uma evolução, capitaneada pelo Roberto, um baita guitarrista”, comenta João Maria. “Ela era superdotada, acima do normal”, relembra Manoel Poladian, empresário de Rita por 30 anos, de 1979 a 2012. “O Roberto dava o suporte. Comparo ao futebol: ela tinha o apoio podia jogar livre”. Poladian define Rita como uma ‘rebelde do bem’ – uma forma de descrever a personalidade forte da cantora. “Fazia o que era verdadeiro. Não tinha falsidade. Na administração da carreira dela, aprendemos muito”. [[legacy_image_265778]] RITA LEEBERDADE, por Flávio Viegas AmoreiraQuando chegou Rita Lee aos 70 anos pensei num poema para um blog de rock que me pedia ‘uns versos’, já que poeta beat tardio me consideravam. Lembrei de cara dum poema lindo!, composto por Manuel Bandeira para uma outra diva, Maísa. “Um dia pensei um poema para Maísa/Maísa não é isso/ Maísa não é aquilo/Como é então que Maísa me comove e me sacode/Me hipnotiza?”. Rita fazia em nós tudo isso, mas antes de tudo pedia que fizéssemos o que bem queríamos, jovenzinhos, debaixo de uma ditadura cruel e burra. Ela, Rita, coração desnudo e de ferina ironia, descendente dos Lee derrotados na Guerra Civil americana, ela era um ‘caso sério’ de brasilidade cult. Urbana, globalizada, num tempo em que se ouvia bolerão de Angela Maria. Rita Lee era sobretudo um ‘des-comportamento’, só tendo Ney Matogrosso como parâmetro de mutação geracional sem perder seu maior traço: ‘tesão de alma’. Criatividade ambulante até o merecido retiro dum mundo que estava lhe ficando muito chato. A mocinha crescida na burguezíssima Vila Mariana, que amava de paixão os dias em Guarujá, foi um dos produtos mais bem acabados da Pauliceia desvairando. Gosto desse detalhe: São Paulo deve-lhe isso. Desprovida de qualquer preconceito, pois é a porta de entrada do atraso, ela trocou figurinha com todas as tribos de nossa cultura. Por fim, mas sem fim nessa estória, tornou-se uma memorialista e autora infantil deliciosa. Não leram para seus filhos Amiga Ursa? Que mimo de livro para um mundo melhor! Particularmente, agradeço Ovelha Negra, desde sempre meu hit pessoal e de todos transviados que lhe fazem reverência, Rita. Nunca tive a ousadia de importuná-la quando a deparava tranquilinha na feira de antiguidades, no Bexiga. Mas, deixo, aqui um poema bem concreto: “Rita LEEberdade/ fez tudo que quis antes/da maioria dos outros/ora, os outros/ desbaratina”. [[legacy_image_265779]] Quem eraRita Lee vendeu 55 milhões de álbuns na carreira, é a quarta artista com mais vendagens no Brasil, atrás de Roberto Carlos, Tonico e Tinoco e Nelson Gonçalves. Além do talento imenso, a personalidade libertária de Rita explica muito de seu sucesso. Ao ponto de parar um show para defender o seu público, como ocorreu em Sergipe, em 2012. Ao perceber, do palco, a polícia revistando o público em busca de drogas, ela parou o show. “O que vocês estão procurando, queridos policiais? Baseado? Vão achar! Alegria? Vão achar! Lazer, felicidade...”. Ao perceber que os policiais seguiram na ação, completou: “Se a polícia bater (no público) eu vou dedar para o Brasil todo, denuncio! E processo! Isso é força brutal! Vocês não têm o direito de usar a força na meninada que não está fazendo nada!”. Rita Lee foi detida.