[[legacy_image_297374]] Lupicínio Morais Rodrigues Sobrinho carrega o nome de peso na identidade, no coração e nos genes. Mas foi pelo apelido de Mutinho que eternizou o seu nome no panteão da MPB ao lado do tio, Lupicínio Rodrigues. Discreto como a maioria dos bateristas de ofício, o também compositor assina, com Toquinho e de Vinicius de Moraes, um punhado de clássicos da música brasileira. Agora, aos 82 anos, chega ao segundo álbum próprio, Casa de Mutinho, cujo show de lançamento será hoje, às 20h30, no Teatro Guarany (Praça dos Andradas, 100). A entrada é franca. “Será uma noite bem especial. Já toquei outras vezes na Cidade e sempre me sinto muito acolhido pelos santistas”, diz Mutinho. O nome do álbum é uma referência ao clássico álbum de Toquinho Casa de Brinquedos, de 1983, cujas composições são também de Mutinho. O álbum inspiraria ainda um especial homônimo na TV Globo, à época, para as crianças. Neste álbum, que tem produção do santista Bruno De La Rosa e de Wagner Amorosino, Mutinho revisita parte do repertório do Casa de Brinquedos. E o faz na companhia de nomes de peso da MPB atual. Assim, em A Bicicleta, temos Zeca Baleiro; em Canção pra Jade, Fernanda Takai; e O Macaquinho de Pilha, Wandi Doratiotto, entre outros. Mas esse ponto de convergência – e de reverência de muitos artistas – começou a ser tecido há muito tempo, ainda na sua Porto Alegre nativa. Festa musicalMais velho de seis irmãos, Mutinho teve que se virar desde cedo para ajudar em casa. Engraxava sapatos, vendia pastel na porta de campos de futebol e chegou a se aventurar como aprendiz de mecânico. Mas quando uma tia, “que já tinha duas ou três faculdades”, como recorda, perguntou o que ele iria fazer da vida, não titubeou: “A senhora não percebeu que eu vou ser músico?”. Também, pudera: nas casas da família, que ficavam todas em um mesmo terreno, a música imperava. Havia serestas toda semana, noite adentro, com amigos do pai e do tio famoso. “Virava quase uma festa. Meio-dia, nos finais de semana, encontrava gente em casa dormindo pelos corredores”, sorri. Voltando para a tia que se preocupava com o futuro do sobrinho: já que ele queria ser músico, que fosse estudar. Mas como os caminhos da vida nem sempre obedecem uma linha reta, o estudo acabou condicionado ao trabalho. A tia arrumou para ele ser office boy no escritório de uma editora musical. Lá, havia um piano. E aulas. Aos 14 anos, Mutinho começou a estudar. Uma pausa: mas de onde vem o Mutinho? Para responder à pergunta, é preciso deixar a música de lado e abraçar outra arte: a dos quadrinhos. Um tio, outro que não o Lupicínio, começou a chamá-lo de Mut, em referência aos gibis da dupla Mut e Jeff, criação do cartunista norte-americano Bud Fisher, em 1907. O apelido pegou. E, aos 12 anos de idade, foi natural a transposição de Mut para Mutinho. Baterista natoSe o estudo de piano, que auxiliou a formação do futuro compositor, veio por obra de uma tia, a descoberta do instrumento com que ganharia a vida ocorreria pelas artes do tio Lupicínio. “Ele tinha um pub com música ao vivo”, recorda. “Um dia, me levou lá, estavam tocando um violonista e um baterista. Nunca tinha visto alguém tocar bateria na minha frente”. Hipnotizado, reparou nos detalhes da mão segurando as baquetas, a posição e o movimento dos pés no bumbo. Era um samba-canção. Quando terminou, levantou e disse a Mutinho: “agora, senta aí e toca a mesma música”. “Fiquei assustado. Mas como tinha olhado tudo, pensei ‘vou tentar’”. A tentativa deu certo: Mutinho tocou tão bem, que foi chamado pelo músico para substituí-lo. Estava selado o seu destino. Viagem ao RioNo início dos anos 1970, no Rio de Janeiro, a pianista e cantora Tânia Maria procurava um baterista. Um amigo lembrou de Mutinho, em Porto Alegre. Consolidado na música em seu estado, já pai de dois filhos, ele resolveu arriscar. Mudou-se de mala e cuia para o Rio. Logo depois, a trupe foi para São Paulo, onde Tânia iria se apresentar. “Mas ela iria cantar na noite, não eram shows. A gente ficou numa situação meio precária”. Mutinho fez mais contatos, trouxe a família e seguiu na noite paulistana. Certa vez, no intervalo de uma apresentação na Catedral do Samba, na Rua Santo Antônio, o amigo e baterista William Karam se achegou, comentou de seus compromissos e pediu: “gaúcho, preciso que você faça um favor pra mim”. O ‘favor’ era tocar com Vinicius de Moraes e Toquinho. Era 1973. Após os ensaios, veio o dia da estreia do show, em Limeira. Antes de entrar em cena, o baixista Zeca Assunção o flagrou rezando. “‘Por que você tá fazendo isso?’, ele perguntou. ‘Porque eu não posso perder esse trabalho’”. Ao final do show, após desmontar a bateria, Mutinho foi ao camarim. Ao abrir a porta, foi ovacionado aos gritos por Toquinho, Vinicius e toda a equipe. “Senti que não tinha perdido o trabalho”. Não só não perdeu o trabalho como ficou com Vinicius até sua morte, em 1980, e com Toquinho, até 1996. ComposiçõesA parceria com Toquinho, que tem mais de 40 músicas, nasceu em Manaus, em turnê. “Eu estava no meu quarto (no hotel), ele chegou no quarto, ‘o que você tá fazendo?’, ‘uma música’. Então ele disse: ‘tem uma amiga com um problema amoroso. Deixa eu colocar uma letra aí’”. Assim nasceu Meu Segredo, que também é o título do primeiro álbum de Mutinho, de 2017, que tem participação do próprio Toquinho na faixa-título. Depois vieram Escravo da Alegria e Turbilhão. Sobre esta última, Mutinho recorda o que ainda traz vivo no coração. “Fui ao sapateiro, na Bela Cintra, onde morava, buscar a bolsa da minha mulher. Ele estava ouvindo rádio. Eu comecei a rir, ele estranhou. Eu disse: ‘tá ouvindo essa música? É minha, é a primeira vez que ouço no rádio’”.