[[legacy_image_233172]] Quando um anjo torto, desses que vivem na sombra, disse ao poeta Carlos Drummond de Andrade que fosse ser gauche na vida, havia mais alguém na fila a ouvir e a levar a sério essa predição. Somente cinco anos depois de nascer o mineiro Carlos Drummond é que a pintora Frida Kahlo chegou ao mundo, em Coyoacán, na Cidade do México, em 1907. Levou tão a sério essa ideia de ser gauche, de ser nada convencional, de caminhar torta pela vida, transgressora mesmo, que transformou a dor, muita dor, em arte. O que gritou e, talvez muito mais o que calou, ganhou cores e formas que arrebatam e nos transportam para o fantástico do seu mundo. Frida era uma criança de 3 anos quando a Revolução Mexicana, em 1910, detonou um tempo de dificuldades à família de Guillermo Kahlo e Matilde Calderón, mas o que golpeou a pequena foi a poliomielite, quando ela tinha 6 anos de idade. Uma perna mais fina e curta que a outra, as botas ortopédicas que precisou usar e a implacável gozação das crianças a arrastaram para longe do constrangimento e refugiaram a menina na biblioteca da casa paterna, a Casa Azul, quem sabe o embrião do gosto que explodiria, mais tarde, na arte que é até hoje um ícone para o mundo. Inquietude Como não tinha vindo ao mundo a passeio, o anjo a empurrou para ser uma das 35 mulheres a conseguir um lugar entre os dois mil estudantes da Escuela Preparatoria Nacional da Cidade do México, passo decisivo para entrar na universidade e fazer-se médica. Sua natureza inquieta, curiosa, perspicaz encontrou naquele ambiente jovem e contestador o terreno fértil para revelar-se rebelde, orgulhosa de suas raízes mexicanas, adepta do nada convencional e a experimentar os delírios do primeiro grande amor com Alejandro Gómez Arias, líder do grupo de estudantes. Tudo como pode sonhar uma adolescente, que mesmo a andar no passo torto pela vida sabia exatamente onde queria chegar. Mas havia um bonde pelo caminho e ele acertou em cheio o ônibus em que Frida e Alejandro estavam e onde não deveriam estar. Frida esquecera o guarda-chuva na escola, desceu do ônibus em que se encontrava e voltou lá para apanhá-lo. Ela e Alejandro tomaram então outro ônibus e o anjo não pôde segurar o bonde que colocaria Frida em dor eterna, em sacrifício extremo, e a faria ainda mais gauche na vida. A coluna vertebral se partira em três pontos na região lombar, a clavícula e as costelas foram partidas, 11 fraturas na perna direita, o pé direito esmagado, assim como a pélvis, e o corrimão a entrar pelo lado esquerdo do corpo e sair pela vagina. Não havia como pintar tamanho horror e por isso Frida nunca fez um quadro do acidente. Não poderia reduzir a uma imagem um corpo partido em tantas dores. Passou um mês no hospital, outros tantos em casa, esticada na mesma posição na cama e sufocada em espartilhos de gesso que a acompanhariam até o fim da vida. Foram 28 espartilhos no total, sendo um de aço, três de couro e o resto de gesso. [[legacy_image_233173]] Precisava tanto assim para fazer nascer a arte de Frida? Esticada na cama por meses, pincéis e tintas como companhia, a moça viera com alma e precisava recompor-se, com urgência e força. Mas precisava tanto? Se alguma vez ela respondeu a essa questão, não se sabe. Certo é que a pintura foi uma de suas paixões, altar ocupado ainda pelo ativismo político e por aquele que seria seu “meio-dia, sua meia-noite, sua canção e sua fala”, como no poema de W. H. Auden. Como tudo na vida de Frida, também Diego Rivera (o companheiro de uma vida) chegou num vento arrebatador, desses que não permitem respirar, e a paixão atou-os numa relação tumultuada e eterna, de traições e rompimentos, de discussões e reencontros, desde que se encontraram pela primeira vez, no final de 1928, na casa da fotógrafa comunista Tina Modoti. Menos de um ano depois estavam casados, divorciados anos depois, e reatados quase em seguida, mas nada impediu os casos que o pintor teve com artistas, modelos e assistentes, e que outros tantos passassem pela cama de Frida. Homens e mulheres, porque a dor é para ser mitigada, sim, e a vida para ser celebrada, sim. Nos textos que compõem a mostra A Vida de um Ícone (que chega a São Paulo em fevereiro, veja ao lado) há especial destaque para o lugar que Frida ocupou como ícone da moda, posição que vai muito além das bolsas, camisetas e capas de agenda que vemos no mercado. Por ela, com ela e nela se faz concreta a poesia, tal como disse Ferreira Gullar: “A arte existe porque a vida não basta”. Frida não se contentou com a vida. “Frida usou a pintura para se expor. No entanto, usava a roupa para se esconder. É verdade que, assim que chegava a qualquer lugar, a sua saia de veludo brilhante, a sua blusa bordada de forma complexa, o seu penteado adornado com flores ou fitas coloridas e suas espetaculares joias atraíam todas as atenções. Contudo, todos perceberam o que Kahlo queria mostrar: o orgulho das suas raízes mexicanas, a autoconfiança, a alegria de viver. Por baixo da saia, a perna devorada pela poliomielite; atrás da blusa, o espartilho que lhe endireitou as costas enquanto lhe roubava o ar, ao mesmo tempo que o cabelo e as pedras preciosas desviavam a atenção de qualquer vestígio de tristeza no rosto. Quanto pior era o estado de Frida, mais esta se esforçava por compor a imagem com que se apresentava, radiante, para o mundo. A dor e a tristeza estavam confinadas às pinturas”. A exposição, que no momento está no magnífico Reservatório Mãe D’Água das Amoreiras, em Lisboa, Portugal, não é sobre as pinturas de Frida. É sobre as cores, os cheiros, os prazeres que desenharam os caminhos por onde ela andou torta na vida. É sobre flores, amores, caveiras, abacaxis, azuis, melancias, amarelos, bichos, Coyoacán, rendas, velas, sobrancelhas, espinhos. Pintou-se, sobretudo, e falou também por símbolos, mas levou consigo, em 13 de julho de 1954, para a terra de los muertos, o que cochichava com o anjo a quem foi obediente na vida tão gauche. Biografia Magdalena Carmen Frida Kahlo y Calderón nasceu em 6 de julho de 1907 em Coyoacán, nos arredores da Cidade do México. Filha de pai alemão e mãe mexicana, aos 6 anos contraiu poliomielite, tornando sua perna direita mais fina e curta. Em 1922, entrou na Escuela Preparatoria Nacional da Cidade do México, com foco em Ciências Naturais. Em 1928, ao se filiar ao Partido Comunista, conheceu o muralista Diego Rivera, o grande amor de sua vida. Procurou na sua obra afirmar a identidade mexicana, adotando temas do folclore e da arte popular. Por sua independência, é um símbolo da luta feminista. Morreu em 13 de julho de 1954. Vida nas sensações Frida Kahlo -A Vida de um Ícone está em cartaz no Reservatório D’Água das Amoreiras, em Lisboa, Portugal, mas chega ao Shopping Eldorado, em São Paulo, em 1º de fevereiro de 2023. São de profundo impacto os efeitos da instalação tridimensional que traduz o acidente do ônibus, com imagens e sons que trazem a experiência do momento e o espatifar-se do corpo que o anjo não pôde proteger de ser assim tão gauche. Pura tecnologia, mas que efeito em nós! Os ingressos estarão à venda a partir do dia 4 de janeiro, em www.eventim.com.br/fridakahlo. De R\$ 45,00 a R\$ 70,00.