[[legacy_image_295565]] Jan Siebert nasceu na Alemanha, mas sua nacionalidade é a arte. Desde 1996, o mundo é o seu estúdio e a vida que pulsa nas ruas é a matéria prima a pincéis, tintas e telas que carrega por onde vai. Nessas andanças, depois de sete anos no México e um breve retorno a Hamburgo, sua cidade natal, já mora há 18 anos no Brasil – hoje, em Salvador. Mas a primeira parada no País, em 2005, foi em Santos. “A América Latina me atraiu pela cultura e pelo impacto visual. Realizo uma pintura figurativa, com inspiração no cotidiano”, diz. Ao contrário de seus conterrâneos do século 19, que ao imigrarem ao Brasil só tinham principalmente o Porto de Santos como destino de chegada, para Jan, a escolha da Cidade como sua porta de entrada foi feita a dedo. Por aqui, viviam os filhos de amigos em Hamburgo. Não escapou a Jan a similaridade portuária entre a sua cidade natal e a de seu “nascimento” no Brasil: Hamburgo é para a Alemanha o que Santos é para o Brasil. Nesse aspecto, Jan não descarta ter sido atraído para cá. “São coisas inconscientes, talvez uma preferência pela nossa raiz. É misterioso isso. Também ocorreu no México: depois de morar na capital, me instalei em Veracruz, que também é portuária”. Aliás, foi justamente na área do Porto, do Centro e dos morros que Jan registrou algumas cores santistas em sua arte. E coletou histórias de vida e da vida de muitas pessoas. “Nunca sei o que vou fazer em cada local. Mas parto do pressuposto de explorar a atmosfera peculiar dos pontos históricos”. Livre acessoNão há pintura sem uma imagem, um cenário, como modelo. E ao artista que se predispõe a traçar os movimentos nas ruas, é tão crucial como imprevisível o acesso a esses pontos ao ar livre. No caso do Morro São Bento, por exemplo, para Jan, foi uma operação delicada. “Foi um dos lugares mais intensos. Fiz uma série de quadros lá”. A princípio, Jan contou com o auxílio de um amigo, que morava no morro com a família. Certo dia, em uma das primeiras vezes que pintava, ao ar livre, no São Bento, foi abordado. Teve que provar não ser da polícia. Dali em diante, quando chegava com cavaletes e telas: “ah, esse aí é aquele que pinta, diziam” entre revólveres e walkie-talkies. Aos poucos, a indiferença foi dando lugar à curiosidade. Achegavam-se, querendo ver o que emanava das telas. E, ao se verem retratados, gostaram do resultado e do “gringo”. Convidavam-no até para almoçar. “Nessas horas, a gente vê a linguagem, a pintura... é tão humano... qualquer criança pequena faz desenho... alguns até ficaram emocionados ao ver-se”. Já no Centro, chegou a alugar um quarto na Rua Braz Cubas, próximo à Rua João Pessoa, onde instalou o seu ateliê para retratar a vida noturna nas boates e bares. E teve a mesma acolhida do morro. “Quando todas as pessoas viam o que eu estava fazendo, percebiam a seriedade do trabalho, me convidavam, pediam para retratar o seu cotidiano” . Jan observa uma distinção nos centros históricos das cidades brasileiras, em relação aos da Europa. Em Santos, por exemplo, há duas vidas distintas na Rua João Pessoa: uma à luz do dia, outra depois que o sol se põe. Ambas dissociadas. “Nas cidades europeias, o centro histórico é o cartão de visitas”. Se há vidas em paralelo, na média, há o tempo da arte. Pois a obra desconhece ritmo frenético e é alheia às existências fugazes: cada pintura leva de duas a três semanas para ser concluída. Pincéis ao altoDepois de Santos, Jan seguiu pelo litoral brasileiro. Passou por Paraty e chegou ao Rio, onde ficou por sete anos. Lá, conheceu as comunidades, como a da Rocinha, e morou no Vidigal. Em uma ocasião, à noite, ouviu um tiro às suas costas e a ordem para largar a arma. Com cuidado, mostrou que sua “arma” era o pincel. “A polícia chegou atirando. Então, perguntou o que eu fazia ali. Eu disse: ‘Eu moro aqui’. E o que você está fazendo (atirando assim)?” Hoje, morando no bairro de Santo Antônio, próximo ao Pelourinho, em Salvador, Jan também se faz essa pergunta, na arte e na vida. Aos 51 anos, uma vida nômade não lhe parece demais? Não pensou em voltar para a terra natal? “Já moro metade da vida aqui. Prefiro abrir mão de vida estável lá, do que das pessoas expansivas e abertas. Lá, você encontra alemães ricos sem razão para reclamar de nada reclamando. Aqui, você tem a espontaneidade de gente que tinha tudo pra reclamar sorrindo”. Para contatos e conhecer mais, acesse o Instagram @jansiebertpintura.