[[legacy_image_123331]] “A função da arte não é enfeitar. É para estar presente, comentar e contradizer tudo aquilo que não está de acordo com a liberdade plena de todo e qualquer cidadão”. A declaração é de Gilson de Melo Barros, ator e diretor que foi um dos fundadores do Teatro Experimental de Pesquisas (TEP), um dos mais antigos do Brasil. O grupo comemora suas bodas de ouro de atuação com o lançamento do livro Bastidores - TEP 50 anos. A obra foi organizada por Gilson ao longo dos últimos 10 anos. O TEP é um grupo de passagem, ou seja, a cada temporada de espetáculos novas pessoas se somam às produções – ao passo que, também, outros retornam. Com o grupo sendo atravessado por diversas pessoas, que tomaram variados rumos, Gilson permaneceu. Com isso, sendo um “acervo” do grupo, ele se incumbiu da missão de juntar as peças da história do TEP, acreditando na máxima de que conhecimento é para ser distribuído, não acumulado. “Quando comecei, conversava com as pessoas pelo Orkut, para ver como essa ideia é antiga”, brinca. Tendo todo o material em mãos, o projeto pôde ser enfim executado após conquistar a verba necessária por meio do edital ProAC do ano passado. Assim, na realidade, hoje o grupo está com 52 anos. EssênciaO grupo, militante em sua essência, resiste desde sua gênese, que se deu em 1969 em meio à fase mais dura da ditadura militar no Brasil. Na época, era preciso enviar a Brasília o texto das peças, que podia voltar censurado ou com rasuras. Além disso, dias antes do espetáculo, “censores” de São Paulo visitavam o grupo para verificar se a peça respeitou as alterações, e se, visualmente, havia algo considerado ofensivo. O TEP já teve espetáculos censurados na véspera das apresentações e prólogos inteiros cortados. “Mas convidávamos as pessoas e apresentávamos o espetáculo censurado de portas fechadas. Tínhamos que dizer o que tinha que ser dito”. Além do período ditatorial, outra grande luta travada pelo grupo foi a contra a aids, entre as décadas de 80 e 90. Em apoio ao cartunista Henfil, uma das primeiras vítimas da doença, o TEP criou um espetáculo Henfil - A Relativa Revista, contra o preconceito e conscientizar sobre o HIV. Nesse movimento, Nanci Gomes Alonso, uma das fundadoras do TEP, criou o Grupo de Apoio à Prevenção da Aids (GAPA/BS), que, desde 1988, atende as nove cidades da região. Foi através do arrecadado nos espetáculos do grupo, por exemplo, que o Gapa foi financiado no início. Com o passar dos anos, o grupo tem dado voz a diversas outras urgências sociais. “A gente continua atento a cumprir o que a arte suscita, como elemento de transformação”. [[legacy_image_123332]] PandemiaNa pandemia, houve momentos que o TEP estava sendo dirigido por apenas duas pessoas. E, mesmo assim, seguiu presente. “Transformamos o teatro em ação a distância, em projeto de virtualidade, e ganhamos prêmios com isso”, diz Gilson, animado. Agora, enfim, as atividades presenciais estão retomando aos poucos e o grupo tem novidades em vista. O projeto Cirandas de Maria, que é feito há cerca de 20 anos em ônibus de Santos, ganhará versão virtual para este natal.Já para o ano que vem está prevista a montagem de Homem que Suava Pérolas e as Bananas Transmodernas - que questiona o “descobrimento” do Brasil, em comemoração aos 100 anos da Semana de Arte Moderna. Mais sobre o livroO livro Bastidores - TEP 50 anos, organizado por Gilson de Melo Barros e com edição gráfica de Márcia Okida, conta a história do grupo por meio de depoimentos, textos e fotografias. Com 416 páginas, interessados podem adquirir a obra por meio do WhatsApp (13) 99172-3122 ou na livraria Realejo (Av. Mal. Deodoro, 2 - Gonzaga, Santos). Em São Paulo ela está sendo vendido na Livraria do Espaço (Rua Augusta, 1.475, Consolação). O valor de cada exemplar é R\$ 50,00. Mais informações no Instagram @tepteatro. VídeosO Bastidores - TEP 50 anos também se transformou em um produto audiovisual. Pelas redes sociais foram publicadas duas temporadas de leituras dramáticas de episódios do livro - 10, no total, com convidados que marcaram a história do grupo. Os vídeos estão disponíveis no Facebook [[legacy_image_123333]] Momentos Foto 1 - Os fundadores do TEP integravam a cena teatral existentena Escola Estadual Canadá. Eram cerca de 25 jovens, entre 13 e 14 anos, que inicialmente formavam o Teatro Cacilda Becker (TEACAB) e Teatrode Verdade e Informação (TEVIN).Foto 2 - Florkactus é uma peça encenada pelo TEP em 2007, que explora o universo da renomada artista plástica Frida Kahlo. Nesta época o grupo já ensaiava na sala D-52, na UniSanta, que os há mais de 30 anos.Foto 3 - O Homem que Suava Pérolas, desenvolvida entre 2016 e 2017, partiu da dramatização de um roteiro de cinema com o mesmo nome. A peça aborda de forma crítica a corrupção no Brasil, com direção de Gilson de Melo Barros.