[[legacy_image_238767]] Em sucessivas entrevistas sobre seu novo filme, Os Fabelmans, que já está nos cinemas, Steven Spielberg tem repetido que a sensação visceral é de que ele saiu do seu corpo, como se fosse uma parte dele próprio. Precedendo o filme propriamente dito, Spielberg agradece ao público por ver seu filme, e mais ainda por vê-lo no cinema. Acrescenta que Os Fabelmans é uma carta de amor à família – a seus pais – e também uma declaração de amor ao cinema. Clique, assine A Tribuna por apenas R\$ 1,90 e ganhe centenas de benefícios! O filme começa justamente com a ida ao cinema, o primeiro filme que o garoto Spielberg viu com papai e mamãe. Ele tem medo do escuro, das figuras muito grandes na tela. Papai e mamãe o tranquilizam. Dizem que o filme O Maior Espetáculo da Terra, de 1952, é sobre circo, será um programa leve e divertido. Não é – Spielberg escolhe mostrar justamente a cena do choque dos dois trens. De volta à casa, mudo de espanto – de admiração? –, Sam, o garoto do filme, tenta reproduzir o acidente com o trem que ganhou de brinquedo. No livro Steven Spielberg - A Biography, de Joseph McBride, o autor lembra que a mãe do futuro diretor gostava de chamá-lo de Cecil B. DeSpielberg e o próprio Spielberg dizia que seu sonho, quando começou a fazer filmes, era virar o DeMille da ficção científica. Ficção científica É curioso, ele reconstitui o experimento que foi seu primeiro filme de guerra – Escape To Nowhere –, mas não o primeiro de todos, que abre o livro de McBride. Em 24 de março de 1964, no Phoenix Little Theatre, na capital do Arizona, Steven mostrou Firelight. Uma história sobre luzes no céu – naves alienígenas? – que abduziam pessoas. Toda a produção posterior de ficção científica de Spielberg deriva daquela aventura pioneira. No livro, McBride também evoca a admiração do futuro diretor por John Ford. Em Os Fabelmans, Spielberg mostra cenas de O Homem Que Matou o Facínora, o clássico de Ford de 1962. Na autoficção de Spielberg, coescrita com o dramaturgo Tony Kushner – autor de Angels in America –, o garoto descobre, ao editar o material que filmou num acampamento de férias, a ligação afetiva da mãe, Michelle Williams, com Seth Rogen, o melhor amigo do pai, Paul Dano. O triângulo ocupa o centro de Os Fabelmans. Em 1986, quando fez o também autobiográfico Esperança e Glória, John Boorman se vale da saga arturiana – Camelot – para lembrar como, criança, também descobriu o envolvimento da própria mãe com o melhor amigo de seu pai. Spielberg nunca negou que o divórcio dos pais teve um efeito devastador sobre ele. Garoto judeu, ele sempre se sentiu uma espécie de ET, vivendo retraído, senão isolado. O cinema permitiu-lhe a integração social, mas Spielberg evoca os ataques antissemitas que sofreu e estão na origem de seus filmes mais premiados – A Lista de Schindler e O Resgate do Soldado Ryan, o segundo assimilando o talvez maior ensinamento da Torá: “Apenas uma vida já vale todas as vidas”. O que é cinema? Família, identidade, a paixão do cinema, Os Fabelmans aborda temas vastos, e muito importantes, mas há que prestar atenção num aspecto decisivo do novo Spielberg. Como se estivesse respondendo a uma hipotética pergunta sobre o que é o cinema, ele faz o que não deixa de ser uma confissão. O cinema, para Sam, para ele, é essa ferramenta para investigar a interioridade das pessoas. O que ele descobre sobre a mãe o faz pensar em desistir, porque é muito pesado para um garoto. O filme sobre a festa de conclusão da escola também o leva a descobrir algo sobre o atleta da turma, e essa revelação, que é do próprio cara, o leva a mudar seu comportamento com Sam. Mas Spielberg ainda guarda uma revelação – provocação – para o fecho de Os Fabelmans. Sam, convencido de que seu futuro está no cinema, desiste de estudar matemática, como queria seu pai. A mãe, antes disso, divide a família - arte vs. ciência. Sam ganha seu primeiro contrato na CBS. Ali do lado, no estúdio, está o escritório de John Ford.