[[legacy_image_3885]] A correção de curso da DC chega ao seu ápice em 'Shazam!', que reforça ainda mais as intenções da Warner de manter seus filmes contidos dentro de abordagens distintas. A estratégia se prova (mais uma vez, depois de 'Aquaman') eficiente, e produz um filme fácil de se aproveitar, ainda que nunca se disponha a ser nada além de uma diversão escapista para o dia a dia. Os dias sombrios do universo da DC Comics já começam a se tornar uma memória distante, e as marcas de Zack Snyder como chefe deste ambiente, não possuem qualquer espaço em 'Shazam!', que procura agradar seu público-alvo com temas simples e execuções muito mais palatáveis do que no início desta empreitada super-heroica. Protagonista descontraído O protagonista desta nova história, o jovem Billy Batson, proporciona uma perspectiva muito mais descontraída para este mundo de super-poderes e consegue trazer uma familiaridade produtiva com o público. Tal qual 'Homem-Aranha no Aranhaverso' ou 'Lego Batman', as piadas referenciais devem agradar o público cativo, mas nunca chegam a tornar o filme um produto exclusivo do nicho, e estão majoritariamente bem integradas à dinâmica entre Billy e Freddy, que protagonizam os momentos mais envolventes do filme. O elenco infantil deve ser alvo de elogios por si só, com participações muito mais presentes dos outros irmãos de Billy do que o público poderia esperar. Mas quem realmente ganhará boa parte do reconhecimento será Zachary Levi, e sua interpretação jovial de um garoto no corpo de um super herói. 'Shazam!' aproveita vários elementos do material original, mas constrói o próprio universo de forma mais coesa do que as várias versões das HQs permitiriam, preferindo focar na inocência e no crescimento de seu protagonista, em meio a este universo reconhecível. Diretor em alta Quem deveria ser tão reconhecido quanto Zachary Levi, em pé de igualdade, é David F. Sandberg, o diretor afilhado de James Wan que havia demonstrado aptidão em seu trabalho com 'Annabelle 2: A Criação do Mal'. Por aqui, o diretor se mantém comprometido com a abordagem cômica do filme, do início ao fim. Mas consegue aproveitar suas tendências características do terror em cenas específicas que, ao invés de destoarem, apenas engrandecem a trama, aumentando suas escalas com eficiência e mantendo o espectador empolgado em meio à descontração dos atores. Este equilíbrio total de 'Shazam!' é o maior trunfo da produção, sendo capaz de divertir o público sem grandes pretensões (e se isentando de comparações injustas com outras produções do gênero), ao mesmo tempo em que consegue produzir momentos de tensão cabíveis e cenas de ação excitantes, mesmo contando com um orçamento visivelmente inferior do que o normal (normal este, estabelecido pela Marvel Studios e por Zack Snyder). Fãs mais comprometidos com o trabalho visual do filme poderão aproveitar as sequências mais detalhadas de Sandberg, sendo que saudosistas e aficionados por HQs ficarão contentes com o apreço do filme por uma abordagem mais descomplicada, que remete ao tempo em que HQs não eram fonte de lucros tão explorada assim, e quando o espírito infantil sempre falava mais alto. Trilha pouca inspiradora A aptidão visual de Sandberg ocasionalmente se estende ao trabalho de mixagem de som (diretores de terror sabem brincar com expectativas), mas não à trilha sonora de Shazam, que embora conte com as típicas inserções musicais esperadas de uma produção abrangente como esta, também traz composições pouco inspiradas (além de pouco sutis), e nunca deixa de ser apenas funcional (às vezes, beirando o incômodo pela genericidade). Final segura a atenção Quem esteve acompanhando a promoção de 'Shazam!' até seu lançamento (mas não tão a fundo), pode se surpreender com algumas escolhas do filme em seu terceiro ato. Boa parte do brilho que a mistura Levi + Sandberg trazia acaba se dissolvendo consideravelmente conforme a trama caminha para uma pragmaticidade pouco envolvente. Mas as reviravoltas e embates finais devem dar conta de manter o espectador animado e, principalmente, satisfeito com a experiência.