[[legacy_image_51953]] Focada em projetos com pautas feministas e humanitárias, a fotógrafa e filmmaker Helena Alba abraçou a ideia de co-dirigir o documentário A Pajé, junto a Letícia Ottomani e Nelma Salomão. No filme, ela e suas companheiras prestam homenagens às mulheres protagonistas da região amazônica, contando a história da primeira mulher indígena a se tornar pajé entre o povo yawanawá e os reflexos desta revolução nas tradições indígenas. Com apenas 24 anos, ela vem trabalhando na fotografia há mais de 10 com foco em pautas conscientes e fala do assunto nesta entrevista exclusiva para A Tribuna. Clique e Assine A Tribuna por apenas R\$ 1,90 e ganhe acesso completo ao Portal e dezenas de descontos em lojas, restaurantes e serviços! Sobre A Pajé, como vocês conheceram a Hushahu? De onde veio a fagulha que inspirou a contar essa história? A Letícia Ottomani, também diretora do filme, esteve em uma cerimônia de uni (ayahuasca) com a Hushahu, em São Paulo, onde se conheceram. Desta experiência surgiu o desejo de fazer um filme sobre a história dela e registrar a primeira Vivência de Mulheres Yawanawá, que aconteceria na aldeia em setembro de 2017. Quando a Letícia me trouxe a ideia e eu soube quem era a Hushahu e tudo o que ela representa, fiquei muito interessada em realizar este projeto. Eu conheci a Hushahu pessoalmente só na Aldeia Mutum, quando fomos rodar o filme. Onde há opressão há resistência. Hushahu é um exemplo de força, transgressão e resistência feminina Como foi o processo de criação do filme? Na época eu trabalhava na Mar de Dentro Produções, que abraçou o projeto, e coletivamente começamos a produzir, pesquisar e desenvolver o filme. Em poucos meses já estávamos à caminho da floresta para gravar. Foi tudo muito rápido. A produção foi bem peculiar por conta da distância, logística e dificuldades que tínhamos em falar com as yawanawás que viviam na aldeia, ainda sem internet na época. Você sente que esse projeto teve relação com sua paixão pela fotografia? A fotografia me escolheu e desde que me conheço por gente trilho esse caminho em busca constante da luz. Esta paixão-profissão, que também engloba o trabalho no audiovisual. A minha escolha em fazer A Pajé também nasceu pelo desejo de contar essa história, de movimentar pautas que me sensibilizam, como a causa feminista, indígena e ambiental, de aprender com essas mulheres e de estar na Floresta Amazônica, onde estive várias vezes e tenho uma conexão forte com a região desde muito nova. Como foi abordar a questão do sexismo dentro de uma comunidade com estrutura patriarcal tão enraizada? O machismo, patriarcado, sexismo e misoginia são questões da nossa sociedade como um todo. Infelizmente não é exclusividade de nenhum povo. No entanto, onde há opressão há resistência. Vejo que a Hushahu é um exemplo de transgressão, força e resistência feminina, que nós mulheres de qualquer etnia podemos nos inspirar. Ela se movimentando e não aceitando as restrições impostas às mulheres, movimentou toda a estrutura patriarcal de seu povo e consequentemente todas as yawanawás, que são cada vez mais unidas e respeitadas. Como o filme reverberou dentro da aldeia? Foi muito positivo, desde a gravação. É claro que precisamos, como equipe, criar um espaço de confiança para o registro. Mas desde nossa chegada, a Mariazinha Yawanawá, irmã da Hushahu e cacique da Aldeia Mutum na época, falava do quanto ela achava importante que a gente estivesse fazendo o filme e registrando aquele evento, pensando principalmente no legado para deixar às próximas gerações. Então este espaço foi conquistado e nossa relação com a comunidade é bem harmônica. Quando o filme ficou pronto rolou uma projeção à céu aberto na Aldeia. Todos adoraram e se divertiram muito assistindo! Você acredita que os filmes possam servir como instrumentos na educação ambiental? Os filmes são ferramentas muito potentes de conscientização, conhecimento e transformação social. Por meio do filme é possível despertar o interesse, melhorar a participação, estimular o debate e a reflexão crítica. Além disso, possibilitam que a gente se conecte emocionalmente com uma história. Eu acredito que o audiovisual pode ser peça-chave na educação formal e informal dos cidadãos como realizadores dessa linguagem como forma de pesquisa, aprendizagem e expressão. Qual a sua relação com Santos? A minha conexão com Santos é enorme. Cidade onde nasci e cresci, de onde vem a maior parte da minha família e onde ainda moram muitos parentes. Foi em Santos que comecei minha trajetória como fotógrafa e vivi até os 20 anos. Santos sempre será minha casa.