[[legacy_image_89365]] O preço é salgado, mas a utilidade é irresistível – por US\$ 279, consumidores de diversos pontos do mundo podem adquirir a febre do momento: kentukis, espécie de animal de estimação eletrônico que permite o acesso remoto à privacidade de seus proprietários. A ideia, entre sedutora e assustadora, é o que move o romance Kentukis, da argentina Samanta Schweblin e lançado pela nova editora Fósforo. Aos 43 anos, Samanta é elogiada por seu estilo inquietante de escrita, o que a torna uma herdeira da literatura de realismo fantástico, ou seja, continuadora de uma linhagem construída por nomes como Jorge Luis Borges, Adolfo Bioy Casares e Julio Cortázar. Clique e Assine A Tribuna por apenas R\$ 1,90 e ganhe acesso completo ao Portal e dezenas de descontos em lojas, restaurantes e serviços! Se a comparação impõe um destino pesado, Samanta livra-se dele (ou mesmo se apossa, com firmeza) em romances como Kentukis. O livro é, ao mesmo tempo, engenhoso e engraçado. Presentes nas vitrines de praticamente todas as grandes cidades, os kentukis são como bichos de pelúcia cujo formato fica a critério do comprador, de dragão a coelho. O que é comum a todos é a presença de uma câmera acoplada atrás dos olhos, mas o controle não está nas mãos do comprador e sim nas de uma outra pessoa que, anônima, manipula o bichinho por meio de um tablet. O acordo é tácito: quem compra um kentuki aceita ser observado e cria, inevitavelmente, uma conexão com outra pessoa completamente desconhecida. Trata-se de uma nova forma de voyeurismo, pois o manipulador de um kentuki tem a permissão de entrar na casa de outra pessoa e circular livremente pelos cômodos, presenciando cenas íntimas. As diferentes formas de uso e suas consequências inspiram um catálogo de histórias privadas no qual se constrói o romance que Samanta exibe a extensão de permitir à tecnologia condicionar as relações humanas. Nossa crescente dependência das mídias sociais foi sua maior inspiração para Kentukis? Era o ruído de fundo, algo que me incomodava e cujas consequências não podia prever. Nunca pensei que teria interesse em escrever sobre o problema da tecnologia, mas, assim que a ideia do kentuki passou pela minha cabeça, não consegui parar de pensar nisso. Agora, a distância, percebo que o dispositivo do kentuki é apenas uma desculpa. É um livro sobre o desejo, o medo, o preconceito, como é hoje ser cidadão deste mundo globalizado e cada vez mais fechado e opressor. Onde, às vezes, se não entendemos as regras, pode ser muito fácil cruzar os limites entre vítimas e vitimizadores. O romance não tem detalhes técnicos no texto. Dessa forma, foi difícil escrever sobre tecnologia e mídia social? Foi um desafio premeditado. Algo muito estranho vem acontecendo na literatura contemporânea: vivemos uma vida "tecnologizada" e a abraçamos com total naturalidade. Ninguém mais se surpreende com quase nada. Ninguém diz ‘olha, que maravilhoso, isso parece o futuro’. Mas, se a mesma coisa é escrita nas entrelinhas de um romance contemporâneo, então é classificada como ficção científica. Uma poesia em que os personagens trocam mensagens é poesia de alta tecnologia e assim por diante. Não há nada no romance Kentukis que ainda não exista em nosso mundo, e eu queria deixar todos os detalhes técnicos de fora para ajudar nessa leitura realista, embora às vezes seja chamada de distópico, de ficção científica. É como se a realidade se movesse tão rápido que podemos absorvê-la em nossas rotinas, mas ainda não podemos pensar nela como nossa. O kentuki é utilizado por idosos que procuram companhia e por crianças que carecem da atenção dos pais: a tecnologia é a solução para a solidão? Pode ser uma solução, por que não? Moro a 12 mil quilômetros de distância da minha família e, se eu sentir falta deles, posso ligar e bater um papo. Não é o mesmo que se ver fisicamente, mas considero um encontro real, com suas vantagens e desvantagens. Por outro lado, um kentuki salvou a vida de uma adolescente que havia sido sequestrada. Ou seja, também há um aspecto positivo, não? Não devemos pensar na tecnologia como algo positivo ou negativo. A tecnologia sempre esteve conosco, foi também a invenção do machado e da roda, e depende de nós para ser usada. No caso das redes sociais e de todos esses novos dispositivos, o problema é que avançam tão rápido que é difícil entender seus limites éticos, legais, privacidade, educação... Em que medida a tecnologia condiciona as relações humanas? Bem, é uma ferramenta e, como qualquer ferramenta, pode ser útil para certas coisas e, para outras, exibir uma grande limitação ou mesmo um impedimento. Suponho que seja perigoso quando a tecnologia substitui completamente os relacionamentos face a face, tanto no trabalho, no ensino e pessoalmente. Mas, às vezes, também permite conexões que, de outra forma, seriam impossíveis. Acredito que a pandemia esticou esses limites, para melhor e para pior: aprendemos de que forma essas conexões nos são úteis e o que perdemos quando nos comunicamos por meio delas. O importante agora é perceber o impacto que esses novos costumes têm sobre nós, e reelegê-los ou abandoná-los com a consciência de que começamos a voltar a uma certa normalidade. Não por hábito, mas escolhendo novamente. De onde surgiu o nome ‘kentuki’? Espontaneamente durante o primeiro rascunho, só busquei algum nome estranho e familiar ao mesmo tempo, sem dar muita importância, porque queria ir em frente com a ideia que estava se formando. Quando percebi que o texto era sério, resolvi encontrar um nome definitivo. E fiz uma lista das coisas que gostaria que aquele nome implicasse. Queria uma marca que soasse estrangeira, mas também popular, barata. Yankee, mas também japonês ou chinês. Fiz uma pesquisa no Google com a palavra ‘kentukis’ e saiu um cavalo russo com vários prêmios, uma refeição tradicional japonesa, uma cidade ucraniana e uma australiana. Surgiram personagens e clubes e até informações em línguas que não conheço. Um kentuki é fascinante porque permite percorrer os cômodos da casa de outra pessoa. Por que preferimos espionar os outros? Voyeurismo nos fascina. Talvez tenha a ver com a ideia de que, se você espiar o outro quando ele não sabe que está sendo visto, então ele não pode agir, não pode te enganar, você o vê como ele é, você o enxerga na verdade absoluta. E há algo em ver a verdade mais absoluta do outro que nos ajuda a pensar sobre a nossa, sobre quem realmente somos. A propósito, até onde é possível olhar sem violar a privacidade de outras pessoas? Acho que ainda estamos aprendendo. A literatura é útil para fazer este exercício sem violar ninguém. Existe outra tecnologia tão eficaz para isso quanto a literatura? Imagine: mergulhar em um espaço onde você pode enfrentar seus piores medos, olhá-los bem de perto e perguntar a si mesmo as perguntas importantes – como eu poderia sobreviver a isso? Por fim, quais perguntas você pretendia responder com o romance? Algo sobre identidade? Entre muitas outras coisas, queria me perguntar sobre a solidão que às vezes nos reserva a tecnologia e sobre todos os limites que nós mesmos quebramos quando não entendemos totalmente como ela funciona. O quanto podemos romper e nos lastimar ao jogar com tecnologias que parecem familiares para nós - como mídia social e todos os nossos dispositivos de comunicação ‘inofensivos’ –, mas que, na verdade, não sabemos de nada.